quarta-feira, novembro 21, 2007
domingo, novembro 11, 2007
A propósito da Serpe

Uma das facetas antropologicamente mais interessantes da Festa de S.João de Sobrado diz respeito àquele factor que acaba por ser decisivo no desfecho da luta entre Mourisqueiros e Bugios: a SERPE ou, como também se diz, por vezes, a Bicha.
O elemento reptiliano não se reduz a esse aspecto.No passado, mais do que hoje, era relativamente comum os Bugios levarem um Sardão (de facto assemelhava-se mais a uma cobra), munido de uma mola que, quando manipulada, permitia 'roubar' pequenas coisas, como doces, por exemplo. Mas a Serpe é indubitavelmente uma figura de capital importância e significado nesta festa. Ela surge como derradeiro recurso dos Bugios, esgotadas todas as outras vias. É sintomático que esse último recurso seja o do sobrenatural, do mítico, do fantástico, numa festa que, note-se, decorre sob a invocação de S. João.
Vem esta nota a propósito do sucesso que, por estes dias, está a fazer a exposição sobre "Criaturas Míticas", no Museu de História Natural de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Sereias, Dragões, Ciclopes e Unicórnios têm vindo a atrair muitas dezenas de milhar de pessoas, seduzidas por esse lado extraordinário da cultura popular, que tem sido tematizado em obras contemporâneas(de cinema, de literatura, de música, de vídeo).
Quem quiser percorrer alguns aspectos do que é essa exposição pode viajar um pouco pelo respectivo site. Melhor ainda é dar um salto a Nova Iorque (!). O certame está patente até 6 de Janeiro de 2008.
Especificamente sobre dragões, o site da exposição remete para um outro sítio na Internet,onde se pode ler:
Creature: Dragon
ANCIENT LEGEND: More than a thousand years ago in Europe, people believed that giant fire-breathing dragons guarded hidden stashes of gold. "If some of that gold was stolen, the dragon would awaken and unleash fiery destruction on humans," says Kendall.
SCIENTIFIC EXPLANATION: People have long imagined dragons as being enormous, scaly beasts with huge teeth and claws. People believed so strongly in these lizardlike creatures that biologists in Europe once wrote accounts of the behavior and habitat of dragons in much the same way as they described that of lizards and snakes.
What may have advanced the legend of dragons? The imagined creatures look like close relatives of big animals like the Tyrannosaurus rex. Dinosaurs died out long before people were alive, but the discovery of dinosaur fossils, the mineralized remains or impressions of an organism, may have supported the ancient belief. When people dug up these fossils, they may have mistaken them for dragon remains.
quinta-feira, setembro 20, 2007
Correcção do mail
Um leitor chamou-nos a atenção para o facto de o link para o endereço de correio electrónico não estar a funcionar. O problema foi já solucionado. Quem, além dos comentários, quiser enviar alguma mensagem não necessariamente para publicação, passa a dispor do endereço: casadobugio@gmail.com (link permanente na coluna da esquerda)
quinta-feira, julho 26, 2007
Será correcto o que se passou este ano na Prisão do Velho?

Será correcto interromper um ponto alto da festa, por razões que, ainda que a ela ligadas, são estranhas à 'solenidade' do momento?
O assunto deste apontamento prende-se com o que se passou na Prisão do Velho deste ano e que deveria fazer pensar todos os sobradenses que apreciam a festa de S. João. Não há memória de algo semelhante ter ocorrido no passado. Recordemos:
Como é hábito, quando Mourisqueiros e Bugios subiram aos respectivos castelos, um locutor pegou no microfone e começou a relatar a lenda que está por detrás da festa, através da instalação sonora instalada no Passal.
Até aqui, nada de especial. A dada altura, os 'canhões' começaram a troar de um lado e do outro, enquanto o cavaleiro 'corria as embaixadas'. Quando se acabou a pólvora no palanque dos Bugios, os Mouros atacaram e, à terceira tentativa, o Reimoeiro penetrou no reduto cristão, de ar duro e espada em riste. Como é de praxe, arrancou as bandeiras adversárias e passou-as aos seus guias.
E foi quando, pela instalação sonora, o locutor anunciou que se ia fazer uma pausa e começou a apelar ao Velho e ao Rei que suspendessem as movimentações, para todos ouvirem o que ele próprio, locutor, tinha para dizer. Disse e repetiu várias vezes o apelo, mas não foi ouvido; e a representação prosseguiu normalmente.Para quem sabia que, na manhã do próprio dia de S. João, tinha ido a enterrar um prestigiado bugio sobradense - o Lindoro da Ribeira - não era difícil imaginar que a pretendida interrupção se destinava a homenageá-lo (isto apesar de já lhe ter sido prestada homenagem por Bugios e Mourisqueiros, no começo do 'jantar', a meio da manhã).
Ouviram-se pessoas a protestar por considerarem que aquele apelo era ali deslocado e até 'obsceno'. Alguém que me comentou esse caso comparou a situação com um desafio de futebol, em que, no momento em que um avançado corresse isolado para a baliza adversária, o árbitro tentasse parar o jogo para homenagear um jogador que tivesse falecido. É uma comparação discutível, mas que levanta um problema importante: num momento que poderíamos considerar sagrado, será legítimo alguém de 'fora da representação' ousar impor a suspensão do acto, mesmo em nome de um motivo nobre?
Deixo o assunto à consideração dos leitores.
sábado, julho 14, 2007
A festa de S. João e a batalha de Ponte Ferreira
Através do blogue Sobrado em Linha tive conhecimento da série de três trabalhos publicados pela Voz de Ermesinde, acerca dos acontecimentos ocorridos nas terras que hoje integram o município de Valongo, aquando das lutas entre liberais e miguelistas, em plena guerra civil (1832-1834).E dei-me conta de um facto relevante que se expressa num número redondo: faz dentro de dias 175 anos que se deu a batalha de Ponte Ferreira, situada em S. Martinho de Campo, mas muito perto do extremo sul de Sobrado. Pelo referido estudo, ficamos a saber que a freguesia sobradense foi, por assim dizer, acampamento das tropas de D. Miguel. E isso faz vir à lembrança uma lenda sobre esses tempos, de que alguns mais velhos de Sobrado ainda se lembrarão.
Dizia-se, para provar como a festa de S.João é tão antiga e está tão entranhada na população local, que, tendo a batalha de Ponte Ferreira coincidido com o dia da festa, se ouviam no Passal os tiros dos canhões combatentes e que havia mesmo habitantes obrigados a abastecer em carros de bois as tropas de D. Miguel. Mas nem por isso a festa deixou de se fazer como nos demais anos.
Ora, se são certos os dados constantes da comunicação referida, essa lenda assenta em factos não verdadeiros. E isto porque a batalha de Ponte Ferreira não ocorreu em Junho, mas em Julho de 1832. Podia-se dizer que, sendo uma data próxima, seria provável que por alturas do S. João desse ano já houvesse hostilidades. Mas isso é pouco provável, já que o desembarque dos liberais em Pampelido só se verificou a 9 de Julho daquele ano.
Mas alguma relação haverá, para que o acontecimento tenha perdurado em associação com a memória desta festa.
Juiz da festa 2008
A festa de cada ano encerra com a entrega do ramo, simbolizando, nesse gesto, a passagem de testemunho da comissão 'velha' para o responsável da comissão nova. Este ano, a passagem fez-se para José Domingos Pereira Soares, que será, assim, o juiz da festa do próximo ano. A ele competirá escolher, dentro de certas regras, quem será o Reimoeiro e o Velho da Bugiada, em 2008.
domingo, julho 01, 2007
Lindoro da Ribeira: homenagem a um grande Bugio
Faz hoje oito dias que foi a enterrar aquele que era conhecido em Sobrado como o Lindoro da Ribeira, de seu nome Lindoro da Costa Dias. Ele, que não era grande em estatura, foi, reconhecidamente, um dos grandes Bugios das últimas décadas. Vivia essa pertença e essa identidade com intensa "paixão" .O que mais se destaca neste Bugio de gema é a humildade. Em praticamente sessenta anos ininterruptos, teria por certo 'galões' para exibir, reivindicando, em algum ano, uma posição de mais destaque - Guia, Rabo ou, porque não, Velho. Nunca foi por aí. E contentava-se com coisa bem simbólica, mas grande nos códigos da festa: poder, cada ano, subir ao castelo, tomar conta e dar pólvora aos 'canhões' dos combatentes bugios.
Quiseram as circunstâncias que fosse a enterrar precisamente no dia de S. João. Precisamente no dia em que, já com mais de 70 anos, completaria 60 de ininterrupta participação na Bugiada. E foi a sepultar levado por Bugios. Como ele provavelmente teria gostado.
Há oito dias foi-lhe prestada singela homenagem, antes de se iniciar o almoço de Bugios e Mourisqueiros.
Era para ter sido lido nesse dia, através da instalação sonora do Passal, um texto de homenagem pública. Esse texto aqui fica (por gentileza de Manuel F. Pinto, seu familiar):
Texto de homenagem ao “Lindoro da Ribeira”
“Chegados a este momento, fazemos uma pequena pausa na nossa dissertação, pois queremos prestar uma justa e merecida homenagem a alguém muito especial – a alguém que fazia hoje 60 anos consecutivos de bugio e que só aqui não está neste momento fisicamente devido a uma grande e recente infelicidade. De facto, após uma curta mas grave e avassaladora doença que o impossibilita de aqui estar fisicamente, mas estando, concerteza, em espírito, esta grande figura do S. João de Sobrado e das Bugiadas: estamos a falar, naturalmente, de Lindoro da Costa Dias, mais comummente conhecido por “Lindoro da Ribeira”. Assim, num justo tributo à sua pessoa e a tudo o que o mesmo representa, gostaríamos que todos os presentes se associassem a nós e à nossa homenagem, e dessem uma grande salva de palmas em honra deste grande homem a quem Sobrado em geral, mas as Festas de S. João e as Bugiadas em especial, tanto devem e tanto vão ficar a dever".
sábado, junho 30, 2007
Três novos blogues sobre a festa de S. João
Nos últimos tempos, surgiram três blogues que pretendem dar destaque à festa maior da vila de Sobrado, Valongo.
Somos Mourisqueiros - Este blogue apresentou-se no princípio deste mês de Junho. É "dedicado a toda gente que tal como nós gosta do São João", ainda que para os seus autores "a Mouriscada é (...) o mais importante, contudo esta não faz sentido sem os Bugios e vice-versa. Acima de tudo, o blogue pretende ser "um ponto de encontro entre pessoas que tenham em comum o gosto por esta maravilhosa festa e queiram de alguma forma ser membros activos de uma discussão que urge começar". Desejamos que os autores não desanimem, visto que, depois do primeiro post, nada mais veio a lume. [Nota: é de saudar a intenção de recolher objectos e memórias relacionados com os Mourisqueiros; mas para isso era preciso indicar quem é o autor do blogue e introduzir ao menos um endereço de mail para contacto].
Festa do S. João em Sobrado - Este blogue surgiu hoje mesmo, para "mostrar as recordaçoes de mais uma maravilhosa festa que se realiza todos os anos, em Sobrado, no dia 24 de Junho". É animado por Nuno Queirós. O primeiro post transcreve um artigo da Wikipedia sobre a Bugiada e Mouriscada [Nota: quando se transcreve um texto de outro sítio, deve-se indicar a fonte]. Desejamos-lhe longa vida e excelentes posts.
Sobrado em linha - Surgiu no final de Maio e é animado por Fábia Pinto, uma professora sobradense que vive e trabalha actualmente em Bragança. Não é especificamente sobre a Festa, antes pretende ser um espaço de informação sobre a terra. Mas é inevitavel que o S. João marque presença destacada neste espaço, como os posts de Junho eloquentemente demonstram.
terça-feira, junho 26, 2007
Vídeos da festa de 2007
Três curtos vídeos sobre a festa de S. João de Sobrado deste ano, da autoria de outros tantos autores foram colocados no YouTube. Um refere-se ao fogo de artifício, lançado a partir da torre da igreja matriz; os outros dois às Danças de Entrada dos Mourisqueiros e dos Bugios. Aqui ficam os links de acesso:
domingo, junho 24, 2007
Um dia especial para um bugio muito especial
A Festa de S. João de 2007 deixa registado um caso raro: o Sr Lindoro da Ribeira, quase de certeza o bugio mais antigo de Sobrado ainda em actividade, foi a sepultar precisamente no dia de S. João, precisamente no dia em que, se estivesse vivo, iria de bugio pela 60ª vez e levado à última morada por outros bugios devidamente fardados, embora sem máscara nem penacho.
Ao chegarem ao local do almoço, as muitas centenas de bugios prestaram sentida homenagem a este 'decano', com um minuto de silêncio, terminado com uma salva de palmas.
Não é habitual, em Sobrado, dizer como ouvi hoje dizer de Lindoro da Ribeira: "Morreu um bugio".
Ao chegarem ao local do almoço, as muitas centenas de bugios prestaram sentida homenagem a este 'decano', com um minuto de silêncio, terminado com uma salva de palmas.
Não é habitual, em Sobrado, dizer como ouvi hoje dizer de Lindoro da Ribeira: "Morreu um bugio".
sábado, junho 23, 2007
Preparativos para a Festa
Já dei aqui a informação: a festa de S. João deste ano é organizada por um conjunto de 'jovens' que completam 50 anos em 2007. Os preparativos começaram há já bastante tempo. E, nos últimos dias, sucederam-se as 'noitadas' - as dos trabalhos preparatórios e as do divertimento. Alguns sinais destes dias:

Pela ordem das fotos:
Costurando uma capa de bugio

A grade que vai ser desfeita no ritual da sementeira

Pormenor da capa do Velho

A igreja paroquial iluminada para a festa
Pela ordem das fotos:
Costurando uma capa de bugio
A grade que vai ser desfeita no ritual da sementeira
Pormenor da capa do Velho
A igreja paroquial iluminada para a festa
domingo, junho 10, 2007
Dia 21, no Passal: projecção do filme "Bugiadas"
Realiza-se no próximo dia 21, por volta das 22.30, ao ar livre, em pleno Passal, a projecção do filme "Bugiadas", do realizador Ângelo Peres (que durante muitos anos trabalhou nos estúdios do Monte da Virgem da RTP e hoje é professor do Curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho).
A iniciativa de projectar o filme ao ar livre surgiu na sequência da "memorável sessão" realizada no ano passado no Centro Cultura e Social de Sobrado, que despertou o interesse de imensas pessoas. Como este ano perfazem 30 anos sobre a edição da festa que foi objecto deste filme, este é um motivo acrescido de curiosidade: as actuais gerações poderão ver a festa e os seus protagonistas de 1977; os de então, que ainda vivem poderão ... matar saudades.
O filme tem a duração de 37 minutos. O original encontra-se depositado, por inicitaiva do realizador, no ANIM - Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, e uma cópia em fita de cinema foi entregue à Casa do Bugio, passando a fazer parte do espólio desta Associação.
sábado, junho 09, 2007
Mais fotos para a memória da festa


Prosseguimos a divulgação de fotos antigas da Festa de S. João de Sobrado. Estas foram cedidas para digitalização por Ângelo da Bica. Têm, seguramente, mais de 50 anos. O Velho que nelas aparece é o falecido Augusto da Munha. Há uma senhora, em Sobrado, que é filha dele e tem a bonita idade de 85 anos.
Dois pontos curiosos que estas fotos revelam, ambas relacionadas com o Velho: em primeiro lugar, ele usa uma capa por cima do manto, o que não acontece hoje em dia. Por outro lado, ele surge a empulnhar um "canhão" no seu castelo, o que também não acontece actualmente (a não ser que tenha sido apenas pose para a fotografia).
Outro pormenor: o castelo dos Bugios parece ter umas guardas bastante mais baixas do que aquelas que costumamos ver no Passal.
(Obrigado à Fábia Pinto, do blogue Estórias da Minha Terra, pelo trabalho de digitalizar as fotos).
quarta-feira, junho 06, 2007
"Poder ser Bugio dá-me vaidade"
"Olá a todos os Sobradenses.
Escreve-vos um sobradense com orgulho de o ser, de ter nascido nessa terra, terra de boas gentes.
Agora que vivo longe, mas ao mesmo tempo perto, vivo com mais intensidade a festa que se aproxima "S. João".
Continuar a poder ser Bugio dá-me vaidade e ao mesmo tempo o dever de manter esta tradição.
Quero pedir a todos vós, que intensifiquem a divulgação, para o exterior, da nossa tradição.
Sinto que pode crescer mais e mais o número de visitantes e turistas, á nossa terra.
Despeço-me com um enorme abraço para todos, em especial para um grande AMIGO - Sérgio Nuno Silva".
sexta-feira, junho 01, 2007
Ao som da 'caixa'
É por isso que vale a pena registar aqui a nota que escreve hoje no jornal "Público" sobre o bombo o jornalista Nuno Pacheco:
"(...) Mas voltando ao tambor: não é novidade que este terá sido o mais antigo instrumento musical conhecido. E também o que mais depressa alastrou por geografias e culturas. Há-os de todos os tamanhos e feitios, dos mais vetustos de civilizações antigas até aos mais modernos de simulações digitais. As suas batidas ressoam igualmente nos mais variados géneros musicais. E se a expressão bombo da festa lhe deve algum tributo (afinal é no bombo que, nas festas, mais se bate), o tocador de bombo tem, entre nós, um nome peculiar. A tentação seria chamar-lhe bombeiro, já que quem toca gaita é gaiteiro e quem toca tamboril é tamborileiro. Mas não: é zé-pereira. A origem etimológica não é certa, mas há quem assegure que esse foi o nome dado ao próprio bombo, que passou depois para o seu tocador. Talvez devido a essa velha mania lusitana de usar zés a torto e a direito, quando se trata de vulgarizar as coisas: zé-povinho, zé--cuecas, zé-quitólis, Zé-ninguém, zé-dos-anzóis, zé-faz-formas, zé-da-véstia, zé-goelas, por aí fora. Isto para designar gente chã, indistinta, sem importância. Tal epíteto assenta, contudo, mal ao bombo, que nunca perdeu valor, pelo contrário.(...)"
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