segunda-feira, junho 21, 2010
domingo, junho 20, 2010
Crianças "dão cartas" na preparação da festa sanjoanina
Crianças do Agrupamento de Escolas de S. João de Sobrado são as protagonistas de uma exposição de máscaras e de penachos alusivos à Bugiada. O certame encontra-se aberto nas instalações da Junta de Freguesia da Vila até 2 de Julho, podendo ser visitado nas horas normais de expediente.
Participaram de forma mais directa nesta iniciativa os Jardins de Infância de Paço, da Balsa e de Fijós, sendo que, neste último caso, participou também a Escola do 1º Ciclo. Trata-se de máscaras que, na sua confecção, recorreram à pasta de papel e à chamada técnica do balão (trabalho de colagens tendo como suporte um normal balão, depois de enchido de ar).
Actualização: A turma 3º/4ºano da Escola EB1 de Paço/1º Ciclo também participou neste evento.
Participaram de forma mais directa nesta iniciativa os Jardins de Infância de Paço, da Balsa e de Fijós, sendo que, neste último caso, participou também a Escola do 1º Ciclo. Trata-se de máscaras que, na sua confecção, recorreram à pasta de papel e à chamada técnica do balão (trabalho de colagens tendo como suporte um normal balão, depois de enchido de ar).
Actualização: A turma 3º/4ºano da Escola EB1 de Paço/1º Ciclo também participou neste evento.
sexta-feira, junho 18, 2010
Tradição sobradense vista por outros
A Voz de Ermsesinde traz, na sua edição desta semana (saída a 16.6), uma peça-anúncio sobre a festa deste ano:
Ler o texto: AQUI
Ler o texto: AQUI
quinta-feira, junho 17, 2010
A ementa gastronómica da festa
Aqui vai uma consulta aos sobradenses leitores deste blog: quais são os pratos e as iguarias associados à festa de S. João? Quando terminam as Danças de Entrada e as famílias se reúnem nas suas casas, quais são as comidas típicas desse dia? E quem leva merendeiro para a festa, que costuma levar?
Indo um pouco mais longe: durante os tempos de preparação da festa, há vários momentos/tradições a que estão associados comes-e-bebes. Quais são?
Explico o alcance e o objectivo das perguntas. Numa recente sessão em Sobrado, o Presidente da Câmara Municipal de Valongo lamentou que, no dia da festa, seja difícil aos forasteiros encontrar restaurantes abertos para o almoço, no dia 24 (os que existem fecham, porque os donos também gostam da festa). E, nos comentários que se seguiram, surgiram várias ideias, uma das quais a de montar "tasquinhas" com menus que incorporem no cardápio comidas típicas. A ideia ainda não será concretizada este ano. Mas, se vier a ser, que deveria figurar nessas ementas?
Aceitam-se respostas e até receitas e segredos culinários, sem esquecer que a refeição não é apenas o prato.
(Foto: iguaria confeccionada para o almoço do dia de S. João por Margarida Suzano)
Indo um pouco mais longe: durante os tempos de preparação da festa, há vários momentos/tradições a que estão associados comes-e-bebes. Quais são?
Explico o alcance e o objectivo das perguntas. Numa recente sessão em Sobrado, o Presidente da Câmara Municipal de Valongo lamentou que, no dia da festa, seja difícil aos forasteiros encontrar restaurantes abertos para o almoço, no dia 24 (os que existem fecham, porque os donos também gostam da festa). E, nos comentários que se seguiram, surgiram várias ideias, uma das quais a de montar "tasquinhas" com menus que incorporem no cardápio comidas típicas. A ideia ainda não será concretizada este ano. Mas, se vier a ser, que deveria figurar nessas ementas?
Aceitam-se respostas e até receitas e segredos culinários, sem esquecer que a refeição não é apenas o prato.
(Foto: iguaria confeccionada para o almoço do dia de S. João por Margarida Suzano)
terça-feira, junho 15, 2010
Associação Progestur nasceu a partir da Festa de São João
Foi o seu líder quem o revelou, recentemente, em Sobrado, aquando do lançamento do 2º volume do projecto "Máscara Ibérica": a ideia de criar a Progestur surgiu aquando de uma ida de Helder Ferreira a Sobrado, para fotografar as Bugiadas e Mouriscadas. Ao ver a dimensão e riqueza desta festa, que está longe de ser um mero espectáculo folclórico, aquele profissional começou a sonhar com uma instituição que valorizasse este tipo de tradições populares.
Assim surgiu, em 2003,a Progestur, associação sem fins lucrativos, com sede em Lisboa, que tem como lema "a afirmação da identidade cultural portuguesa". O seu objectivo é "o desenvolvimento e a promoção do Turismo Cultural Português, dedicando o seu trabalho ao que de mais genuíno e autêntico existe na cultura portuguesa". A sua actividade passa por consultoria e projectos de estruturação e promoção de turismo cultural; organização de eventos; acções de animação; edições de livros (entre os quais um volume ilustrado sobre a festa sobradense.
Assim surgiu, em 2003,a Progestur, associação sem fins lucrativos, com sede em Lisboa, que tem como lema "a afirmação da identidade cultural portuguesa". O seu objectivo é "o desenvolvimento e a promoção do Turismo Cultural Português, dedicando o seu trabalho ao que de mais genuíno e autêntico existe na cultura portuguesa". A sua actividade passa por consultoria e projectos de estruturação e promoção de turismo cultural; organização de eventos; acções de animação; edições de livros (entre os quais um volume ilustrado sobre a festa sobradense.
segunda-feira, junho 14, 2010
Lugares e serviços na festa deste ano
É a seguinte a lista dos lugares e dos titulares de serviços na Festa deste ano:
Mourisqueiros:
Mourisqueiros:
- Reimoeiro - José Maria (Ferreiro)
- Guias - Orlando Alves e Miguel Amável
- Rabos - Leonel Carneiro e Bruno Miguel
- Velho - José Machado
- Guias - Augusto Cabeda e Fernando Miranda
- Rabos - Carlos Andrade e Joaquim Luis
- Colher direitos - Miguel Cabeda
- Semear - Carlos Poças
- Gradar - Flávio
- Lavrar - Norberto
- Sapateiro - Fernando Ilidio
- Cego - Helder Pinto
- Mulher do Sapateiro- Cardoso
- Moço de Cego - Alexandre
- Moço de Sapateiro - Juca.
domingo, junho 13, 2010
Nos bastidores da festa
A Bugiada e a Mouriscada e tudo o mais que a Festa de S. João de Sobrado vive e mostra no dia 24 de Junho supõe praticamente um ano inteiro de preparativos. É a constituição da comissão e o pô-la a funcionar; é organizar iniciativas para angariar fundos; é contratar quem irá animar os dias anteriores e elaborar um programa interessante; é a preparação do cartaz e a obtenção dos patrocínios; é o peditório pela Vila; e é muito mais que fica quase completamente na sombra dos bastidores desta festa. Claro que este mês mais chegado é o que regista maior agitação, sobretudo a partir do momento em que arrancam os ensaios. Mas, no momento em que estamos, pode dizer-se que a festa já terá mobilizado mais de um milhar de pessoas em Sobrado, entre os que têm algum papel directo a cumprir até àqueles que se limitaram a apoiar a festa, indo, por exemplo, participar numa sarrabulhada, em pleno Inverno.
A grande parte das tarefas organizativas depende da Comissão de Festas e da sua capacidade de se organizar e pôr as pessoas a trabalhar de forma articulada. Mas há muitos trabalhos que dependem do Velho da Bugiada e mesmo do Reimoeiro.
Hoje mesmo, por exemplo, decorre o terceiro ensaio, no Passal. Nos dois primeiros, os interessados em exercer funções específicas no dia 24 deram o nome. O Velho e a sua equipa deliberaram, entretanto, e hoje no fim do ensaio anunciam os resultados. No próximo sábado, Bugios e Mourisqueiros, sob a liderança dos rspectivos chefes, vão ao monte cortar os pinheiros, transportam-nos para o Passal e constroem os castelos. No dia seguinte, é o último ensaio e é de tradição a Comissão de Festas oferecer a todos tremoços, broa e vinho. Chegam a ser centenas.
Pode dizer-se que já há festa ainda antes da festa.
A grande parte das tarefas organizativas depende da Comissão de Festas e da sua capacidade de se organizar e pôr as pessoas a trabalhar de forma articulada. Mas há muitos trabalhos que dependem do Velho da Bugiada e mesmo do Reimoeiro.
Hoje mesmo, por exemplo, decorre o terceiro ensaio, no Passal. Nos dois primeiros, os interessados em exercer funções específicas no dia 24 deram o nome. O Velho e a sua equipa deliberaram, entretanto, e hoje no fim do ensaio anunciam os resultados. No próximo sábado, Bugios e Mourisqueiros, sob a liderança dos rspectivos chefes, vão ao monte cortar os pinheiros, transportam-nos para o Passal e constroem os castelos. No dia seguinte, é o último ensaio e é de tradição a Comissão de Festas oferecer a todos tremoços, broa e vinho. Chegam a ser centenas.
Pode dizer-se que já há festa ainda antes da festa.
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Video, som, texto e fotos
Aqui ao lado, na barra lateral do blog, estão agora disponíveis, de forma mais organizada, alguns materiais que apresentam esta festa, para quem aqui chega e, não conhecendo o que é esta tradição sobradense, que ter uma visão de conjunto.
Aqui se pode encontrar:
Aqui se pode encontrar:
- - um vídeo de Carlos Brandão Lucas, há anos emitido pela RTP
- - o programa de Manuel Vilas-Boas, emitido em 2009 pela TSF
- - uma foto-reportagem de Paulo Pimenta, vinda a lume no site do Público
- - um texto sobre a tradição, do autor deste blog.
sábado, junho 12, 2010
Já está em marcha a Comissão para a Festa de 2011
Ainda falta percorrer algum caminho até à festa deste ano, mas já está em fase de preparação uma Comissão de Festas para 2011, a qual deverá ter Jorge Vieira como juiz.
O garante de que a Festa se realiza é, estatutariamente a Associação da Casa do Bugio; mas, havendo quem queira assumir este encargo, habitualmente constitui-se uma Comissão específica para esse fim. É o que, tudo indica, acontecerá no ano que vem.
O garante de que a Festa se realiza é, estatutariamente a Associação da Casa do Bugio; mas, havendo quem queira assumir este encargo, habitualmente constitui-se uma Comissão específica para esse fim. É o que, tudo indica, acontecerá no ano que vem.
sexta-feira, junho 11, 2010
Quatro parques de estacionamento para acolher visitantes
A multidão que se concentra em Sobrado, no dia de S. João, aliada às danças que, em vários momentos do dia, ocupam a estrada principal obrigam a cortar o trânsito na vila, numa extensão e mais de um quilómetro. A fim de facilitar a vida aos que vão à festa de carro, sejam da terra ou de fora, a autarquia local, em colaboração com a Comissão de Festas, vai criar quatro parques de estacionamento ad hoc. Ficam situados em locais estratégicos de acesso, a saber: um perto da antiga fábrica da CIFA, para quem entra em Sobrado do lado Sul; outro perto de Penido, para quem chega do lado Norte; outro no estádio do Clube Desportivo de Sobrado, para quem vem de Oeste (Alfena, por exemplo) e outro a seguir à ponte de Santo André, para quem chega de Leste.
quinta-feira, junho 10, 2010
A Bugiada já foi à escola
Na Escola EB1/JI de Paço, em Sobrado, ainda Junho não tinha chegado e já por lá tinha andado a Festa de S. João. É do que dá conta o mais recente post do blog daquela instituição educativa, o "Escola de Paço a Passo". E porque, como diz o seu lema, "aprender está para além da escola" e "[d]essa troca de experiências se cresce", na semana de sensibilização para a Festa fizeram a construção de um cabeçudo, ouviram histórias, fantasiaram-se, assustaram os colegas do 1º ciclo , dançaram, tocaram... e até envolveram os familiares: "os pais do Dinis foram contar a lenda da Festa" de S. João e as crianças viram "fotografias que as avós trouxeram".
Gosto de ver esta escola - que na matéria é "repetente" - assim envolvida com as riquezas da comunidade local.
quarta-feira, junho 09, 2010
Coisas estranhas da Festa de Sobrado
A Festa de S. João de Sobrado está repleta de coisas estranhas: inversões, mistérios, subversões, paradoxos, à espera de interpretações pertinentes. Vejamos algumas:
Não acham, ó conterrâneos sobradenses?
- - Em muitas outras terras, festeja-se o S. João de noite; em Sobrado é de dia - todo o dia, da alva até depois do sol-pôr.
- - Toda a gente janta ao fim do dia ou princípio da noite; em Sobrado, o jantar da festa é de manhã, pelas 10 horas.
- - Nas outras terras (e, nesta, nos outros dias) ninguém gosta de fazer o, digamos assim, "trabalho sujo"; pois em Sobrado não falta quem goste de ir semear, lavrar ou gradar todo mal-vestido e terminar com a roupa desfeita ou quase sem roupa; não falta quem goste - como acontece com o sapateiro e o cego - de chafurdar na lama, em cenas de primitivismo que deixam estarrecidos e com ar de enojado muitos forasteiros;
- - Em outras terras, em que há tradições festivas que metem mouros, turcos, etc, estes são geralmente os 'maus da fita', os derrotados. Em Sobrado, são os Mourisqueiros os únicos com dignidade para ir na procissão e a pegar nos andores, incluindo o de S. João. E depois de vencerem pela força os cristãos, só são derrotados pelo terror da Serpe; e, ainda assim, como que ressuscitam para a Dança do Santo.
- - Nas terras onde ainda se pratica a agricultura, todos começam por lavrar a terra, se querem colher algum "samiguel"; só depois gradam e semeiam. Pois em Sobrado, em dia de S. João, primeiro semeia-se e só depois é que se lavra.
- - Por fim, é difícil encontrar no país (e alguns dizem que mesmo na Europa) muitas festas com um carácter mais espectacular do que esta. Pois tanto Bugios como Mourisqueiros antes de darem um espectáculo aos que vão à festa, dão um espectáculo a si mesmos: dançam e lutam porque a festa ainda é qualquer coisa que, se não existisse, deixaria um vazio enorme na vida deles e não poderiam "matar a paixão". Em 1974, houve cheias por altura do S. João e choveu que Deus a dava no dia 24. Quase ninguém se atreveu a ir à festa. Mas nem por isso as danças se deixaram de fazer. Porque o S. João de Sobrado não é um mero espectáculo, mas algo que dá sentido à vida - individual e colectiva.
Não acham, ó conterrâneos sobradenses?
terça-feira, junho 08, 2010
A Dança do Cego - uma mina de significados
A Dança do Cego também se chama Sapateirada. A designação depende, ao fim e ao cabo, da perspectiva: queremos ver as coisas do lado do Cego ou do lado do Sapateiro? Qualquer deles é peça-chave nesta componente da Festa de S. João de Sobrado.
Já descrevi esta representação do rapto da mulher do sapateiro pelo moço do cego e já propus uma interpretação, vendo nesta tradição uma luta entre os sedentários, de vida feita e definida, e os errantes, os que vagueiam de terra em terra. Gostaria hoje de chamar a atenção para outros aspectos.
Começo por notar que o sapateiro não exerce apenas o seu ofício. Ele é, na verdade, um gabarolas: não pára de enaltecer as "qualidades" da mulher que tem. Se o gesto é tudo, os gestos do artífice não enganam, quando apalpa as partes dela que mais lhe merecem apreço. Mais do que fiadeira, a esposa do sapateiro é (tem sido, pelo menos, nas últimas décadas) um símbolo sexual, o que contradiz um pouco o estereótipo de esposa.
Acontece que quem aparece a perturbar este estado das coisas é o cego. Guiado pelo seu guia, é verdade. Mas o guia simboliza os olhos do cego. Ele não vê as coisas do mundo exterior, mas vê melhor do que ninguém as do mundo interior, que é o espaço em que o sentido se constrói e se adquire a sabedoria da vida e, paradoxalmente, se faz luz. Por conseguinte, quando o moço do cego rapta a mulher do sapateiro, é, ao fim e ao cabo, no plano simbólico, o cego que a rapta.
O que sucede a seguir é interessante de analisar: quando o sapateiro dá pela falta da mulher e decide ir à procura dela, instala-se uma dúvida terrível: afinal, de quem será a culpa? Da mulher ou do seu raptor?
Aquele que momentos antes não parava de se vangloriar da mulher que tinha só poderia deitar a culpa para o moço do cego. Mas inúmeros circunstantes que testemunharam o que se passou aproveitam a ocasião para colocar 'sobre a mesa' uma versão radicalmente diversa: ela não foi raptada, mas fugiu, por causa da vida que o sapateiro lhe dava ou, na versão mais radical, devido à "incompetência" do sapateiro.
A terrível dúvida nunca chega a ser totalmente esclarecida, ainda que, depois de andar à luta de varapau, a mulher volte, por fim, para o sapateiro. E essa dúvida é, na verdade, uma questão existencial, que as aparências da ordem restaurada dificilmente podem apagar.
E o cego, no meio disto tudo? Ele é aquele que não vê ou aquele que vê (ainda que veja o que outros não vêem)? Sobre isso haverei de escrever numa outra oportunidade.
Que fique, entretanto, clara uma coisa: engana-se redondamente quem pense que esta "dança do cego" é coisa de primitivos e gente sem qualidades. Pelo contrário, esta parte da festa está carregada de significados que estão longe de se esgotar naquilo que aqui vou escrevendo. E esses significados também podem ser partilhados pelos leitores que apreciam esta tradição.
Já descrevi esta representação do rapto da mulher do sapateiro pelo moço do cego e já propus uma interpretação, vendo nesta tradição uma luta entre os sedentários, de vida feita e definida, e os errantes, os que vagueiam de terra em terra. Gostaria hoje de chamar a atenção para outros aspectos.
Começo por notar que o sapateiro não exerce apenas o seu ofício. Ele é, na verdade, um gabarolas: não pára de enaltecer as "qualidades" da mulher que tem. Se o gesto é tudo, os gestos do artífice não enganam, quando apalpa as partes dela que mais lhe merecem apreço. Mais do que fiadeira, a esposa do sapateiro é (tem sido, pelo menos, nas últimas décadas) um símbolo sexual, o que contradiz um pouco o estereótipo de esposa.
Acontece que quem aparece a perturbar este estado das coisas é o cego. Guiado pelo seu guia, é verdade. Mas o guia simboliza os olhos do cego. Ele não vê as coisas do mundo exterior, mas vê melhor do que ninguém as do mundo interior, que é o espaço em que o sentido se constrói e se adquire a sabedoria da vida e, paradoxalmente, se faz luz. Por conseguinte, quando o moço do cego rapta a mulher do sapateiro, é, ao fim e ao cabo, no plano simbólico, o cego que a rapta.
O que sucede a seguir é interessante de analisar: quando o sapateiro dá pela falta da mulher e decide ir à procura dela, instala-se uma dúvida terrível: afinal, de quem será a culpa? Da mulher ou do seu raptor?
Aquele que momentos antes não parava de se vangloriar da mulher que tinha só poderia deitar a culpa para o moço do cego. Mas inúmeros circunstantes que testemunharam o que se passou aproveitam a ocasião para colocar 'sobre a mesa' uma versão radicalmente diversa: ela não foi raptada, mas fugiu, por causa da vida que o sapateiro lhe dava ou, na versão mais radical, devido à "incompetência" do sapateiro.
A terrível dúvida nunca chega a ser totalmente esclarecida, ainda que, depois de andar à luta de varapau, a mulher volte, por fim, para o sapateiro. E essa dúvida é, na verdade, uma questão existencial, que as aparências da ordem restaurada dificilmente podem apagar.
E o cego, no meio disto tudo? Ele é aquele que não vê ou aquele que vê (ainda que veja o que outros não vêem)? Sobre isso haverei de escrever numa outra oportunidade.
Que fique, entretanto, clara uma coisa: engana-se redondamente quem pense que esta "dança do cego" é coisa de primitivos e gente sem qualidades. Pelo contrário, esta parte da festa está carregada de significados que estão longe de se esgotar naquilo que aqui vou escrevendo. E esses significados também podem ser partilhados pelos leitores que apreciam esta tradição.
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domingo, junho 06, 2010
Ensaios ao rubro
Os preparativos da festa de 2010 avançam a todo o gás. Depois de terem tido início os ensaios na quinta-feira passada, aproveitando o feriado do Corpo de Deus, ontem foi dia do peditório pelos diversos lugares da vila. E hoje o segundo dos quatro ensaios voltou a juntar, sob um sol escaldante, os pretendentes a Bugios e a Mourisqueiros e centenas de pessoas a assistir. Entre elas, encontrava-se hoje no Passal o Sr. Generoso Ferreira das Neves, Juiz da festa, sobradense de origem, que vive há muitos anos no Rio de Janeiro, Brasil, de onde voltou, como o faz todos os anos, mas desta vez, para exercer a função de responsável primeiro.
Os ensaios de hoje e de quinta-feira incluem ainda um pormenor que passa despercebido a muitos sobradenses: os interessados em participar nas várias funções da Festa (quem vai lavrar, gradar e semear, cego, sapateiro, respectivos 'moços' e a mulher do sapateiro) devem inscrever-se, sendo os resultados conhecidos no fim do terceiro ensaio.
Aqui ficam algumas imagens hoje registadas dos ensaios, pela ordem em que foram captadas: primeiro as dos Mourisqueiros e depois as dos Bugios.

Breves registos videográficos podem também ser vistos aqui (clicar na barra inferior de cada um dos vídeos, à esquerda):
Os ensaios de hoje e de quinta-feira incluem ainda um pormenor que passa despercebido a muitos sobradenses: os interessados em participar nas várias funções da Festa (quem vai lavrar, gradar e semear, cego, sapateiro, respectivos 'moços' e a mulher do sapateiro) devem inscrever-se, sendo os resultados conhecidos no fim do terceiro ensaio.
Aqui ficam algumas imagens hoje registadas dos ensaios, pela ordem em que foram captadas: primeiro as dos Mourisqueiros e depois as dos Bugios.
Breves registos videográficos podem também ser vistos aqui (clicar na barra inferior de cada um dos vídeos, à esquerda):
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sábado, junho 05, 2010
Notas sobre o lugar da máscara em Sobrado
Notámos aqui, há dias, o facto de a Festa de S. João de Sobrado ser bem mais do que Bugiada e Mouriscada. Mas falta dizer que há um elemento que une todas as manifestações festivas sobradenses: a máscara, esse objecto extraordinária de usos múltiplos.
A máscara, escreveu Roger Caillois (L'Ombre du Masque, in Intentions), pode servir a quem a usa para se esconder ou para se transformar. Pode ainda funcionar como recurso para o espanto ou para o medo. Intimidação, disfarce, dissimulação. Um jogo ambíguo e de vasos-comunicantes entre ser eu e ser outro, paradoxo entre o mesmo e o diferente, entre esconder e revelar.
As caretas dos Bugios são as das diferenças, dos sonhos, dos fantasmas individuais. Idem para as das Entrajadas que representam personagens algumas delas reais.
Em Sobrado, a máscara do Velho da Bugiada é uma máscara cerimonial. Confere gravitas (dignidade, seriedade, poder) ao seu portador. Muitos não sabem e nunca notaram, mas o rei da Bugiada muda de máscara ao longo do dia. A que leva de manhã não é a que traz ao fim do dia. E o semblante de uma e de outra é relativamente diferenciado.
Outra máscara específica desta festa é a do Cego. Ela introduz um misto de ingenuidade e esperteza, abandono e iniciativa; e, transparecendo a palidez de um cadáver, é sobretudo a máscara do tempo e da sabedoria que ele permite adquirir.
Finalmente, a máscara maior dir-se-ia que é a daqueles - os únicos - que, no S. João de Sobrado, não usam máscara: os Mourisqueiros. Não se estranhe que se diga tratar-se aqui uma máscara. Veja-se o caso do momento-clímax da festa: quando o Reimoeiro entra no castelo Bugio e inicia a operação da Prisão do Velho. Esse lapso de tempo - que não pode ser demasiado curto, mas que também não deve ser demorado em excesso, como por vezes ocorre - é bem a evidência da função da máscara: quando o rei mouro deita a mão ao rei bugio e emergem os dois chefes como protagonistas únicos no cenário da representação, um, através da máscara, é o rosto do trágico desastre; outro, de rosto descoberto - mas que é verdadeiramente uma máscara - trasmite a dureza do poder e da força. E não pode dar sinais de descontrolo e menos ainda de riso. Diz quem vive no palanque estes momentos que não faltam Bugios a dizer, por detrás da máscara, aquilo que o Reimoeiro não quer ouvir, a ver se ele se descontrola, nesse momento que tudo resume.
Uma nota final para dizer quanta pena é ter-se aparentemente perdido a riqueza das máscaras de outrora - de couro, de cartão, de casca de árvore, de madeira. Certamente não seria possível produzir em série máscaras tradicionais dessa natureza. Mas também não é interessante ver cada vez mais máscaras todas iguais, quais clones umas das outras. Era importante prestar mais atenção a este aspecto e, mesmo que se tomasse por base aquelas que existem, nada impediria algum trabalho local de adaptação e retoque pessoal.
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