quarta-feira, junho 22, 2011
Estudiosos da cultura popular em Sobrado
Pessoas que se dedicam a pesquisar sobre festas populares ou, simplesmente, sobre as culturas populares, vão estar também este ano em Sobrado.
Que tenhamos conhecimento, estará presente o Prof. Osvaldo Meira Trigueiro, da Universidade Federal da Paraíba, Brasil, e membro da Folkom - Rede Brasileira de Pesquisadores da Folkcomunicação. Ele dedica-se a estudar as festas populares no contexto da sociedade mediática, especificamente as festas do "ciclo junino" – São João/Santo António/São Pedro - no Nordeste brasileiro. Esteve já em Lisboa, para o Santo António e já passou rapidamente por Sobrado, para reconhecimento do terreno, voltando nesta sexta-feira.
Outra académica que também estará em Sobrado será a Prof. Egídia Souto que, além de outras actividades culturais, é professora de cultura portuguesa na Universidade da Sorbonne em Paris. Egídia Souto tem a particularidade de ser natural de Alfena, ainda que nunca tenha tido a oportunidade de conhecer a festa de Sobrado. Em Setembro, vai dar um seminário sobre festas populares e gostaria de poder abordar as Bugiadas e Mouriscadas.
Outra investigadora que tem em curso uma investigação sobre festas de mouros e cristãos é Marjoke Krom, de nacionalidade holandesa, mas a fazer o seu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa e que tem estado em Sobrado nas festas dos últimos anos. É precisamente o seu tema de estudo que a impede de vir este ano, uma vez que está a fazer trabalho de campo sobre uma outra festa deste tipo no coração do Brasil.
Certamente outros pesquisadores virão, mesmo sem se fazerem anunciar previamente. Serão, certamente, bem recebidos.
Etiquetas:
Festa de 2011,
Investigação
segunda-feira, junho 20, 2011
Uma festa entranhada na vida dos sobradenses
Fala-se da Festa de S. João de Sobrado sobretudo - ou quase só - por causa dos Bugios e Mourisqueiros, das suas danças e das suas lutas. Mas a festa compreende muito mais:
- os ensaios, nos quatro domingos anteriores;
- as cenas de crítica aos acontecimentos do ano
- os rituais agrícolas e a dança do cego;
- e, claro, o arraial, com as bandas e artistas convidados.
É provável que haja em Sobrado quem se interesse apenas por este último aspecto. A maioria talvez goste um pouco de tudo. Os sobradenses realmente conhecedores da memória e identidade da freguesia não podem dispensar os três primeiros elementos. Estes é que fazem a tipicidade de Sobrado. O arraial existe em muitas terras.
Mesmo que não houvesse Comissão de Festas, haveria Bugiada e Mouriscada e tudo o mais. Conta-se que, no passado, já se chegou às vésperas do dia 24 sem Comissão e com tudo por fazer. Mas a festa tradicional, essa, fez-se na mesma.
É por isso que se entende o comentário do presidente da Comissão deste ano quando diz, em declarações ao Jornal Novo de Valongo, que o arraial, sem perder qualidade, "vai ser mais económico, devido à situação que se vive". Mas - acrescenta - "o dia de S. João vai ser exactamente igual ao que tem sido; não cortámos em nada que faz parte da festa".
Para o essencial não falta quem queira e vá participar. Aí não há crise que se note. Pelo contrário: frequentemente, os momentos e tempos de dificuldade aguçam o engenho, espevitam a necessidade de romper, ainda que por um dia, com as preocupações e os sofrimentos. Ser Bugio ou Mourisqueiro é experimentar uma nova forma de existir e adquirir ou revigorar uma identidade individual e, ao mesmo tempo, fortalecer e aprofundar a identidade colectiva. A máscara é, aqui, uma porta que abre para o lado nocturno e misterioso de cada um. Ser Mourisqueiro é iniciar-se na vida social (masculina), assumir um estatuto que só termina com o casamento. A indumentária, as polainas, a espada e a barretina conferem uma posição e abrem caminho a uma "carreira", que aponta, para os melhores, ao posto de Reimoeiro.
Na Festa de S. João de Sobrado, a festa cruza-se com a vida real em cada esquina, em cada hora. Por isso ela própria, sendo um tempo fora do tempo, é também parte indestrinçável do tecido de que é feita a vida dos sobradenses. E, por enquanto, os sinais visíveis não contradizem esta ideia.
- os ensaios, nos quatro domingos anteriores;
- as cenas de crítica aos acontecimentos do ano
- os rituais agrícolas e a dança do cego;
- e, claro, o arraial, com as bandas e artistas convidados.
É provável que haja em Sobrado quem se interesse apenas por este último aspecto. A maioria talvez goste um pouco de tudo. Os sobradenses realmente conhecedores da memória e identidade da freguesia não podem dispensar os três primeiros elementos. Estes é que fazem a tipicidade de Sobrado. O arraial existe em muitas terras.
Mesmo que não houvesse Comissão de Festas, haveria Bugiada e Mouriscada e tudo o mais. Conta-se que, no passado, já se chegou às vésperas do dia 24 sem Comissão e com tudo por fazer. Mas a festa tradicional, essa, fez-se na mesma.
É por isso que se entende o comentário do presidente da Comissão deste ano quando diz, em declarações ao Jornal Novo de Valongo, que o arraial, sem perder qualidade, "vai ser mais económico, devido à situação que se vive". Mas - acrescenta - "o dia de S. João vai ser exactamente igual ao que tem sido; não cortámos em nada que faz parte da festa".
Para o essencial não falta quem queira e vá participar. Aí não há crise que se note. Pelo contrário: frequentemente, os momentos e tempos de dificuldade aguçam o engenho, espevitam a necessidade de romper, ainda que por um dia, com as preocupações e os sofrimentos. Ser Bugio ou Mourisqueiro é experimentar uma nova forma de existir e adquirir ou revigorar uma identidade individual e, ao mesmo tempo, fortalecer e aprofundar a identidade colectiva. A máscara é, aqui, uma porta que abre para o lado nocturno e misterioso de cada um. Ser Mourisqueiro é iniciar-se na vida social (masculina), assumir um estatuto que só termina com o casamento. A indumentária, as polainas, a espada e a barretina conferem uma posição e abrem caminho a uma "carreira", que aponta, para os melhores, ao posto de Reimoeiro.
Na Festa de S. João de Sobrado, a festa cruza-se com a vida real em cada esquina, em cada hora. Por isso ela própria, sendo um tempo fora do tempo, é também parte indestrinçável do tecido de que é feita a vida dos sobradenses. E, por enquanto, os sinais visíveis não contradizem esta ideia.
Etiquetas:
Reflexões e interpretações
domingo, junho 19, 2011
Tremoços no último ensaio
Terminou hoje a série de quatro ensaios públicos da Bugiada e Mouriscada, que antecedem a festa de S. João. Neste ultimo ensaio, é costume a Comissão de Festas oferecer aos integrantes de uma e outra formação, bem como aos músicos e ao caixa, tremoços, broa e vinho. Hoje a tradição voltou a repetir-se.
As semanas que antecedem a festa são de uma intensidade invisível mas muito elevada. É necessário às centenas de integrantes das danças e de outros trabalhos da festa arranjar os trajes e outros adereços; candidatar-se às várias funções que ocorrem na tarde do dia 24 (Cobrança dos Direitos, Lavra da Praça e Dança do Cego). Várias destas tarefas são competência do velho da Bugiada e do Reimoeiro. Como, por exemplo, a obtenção e transporte dos pinheiros e das tábuas para a construção dos castelos - actividade ontem concretizada, como mandam os costumes.
Tudo se prepara, por conseguinte, para que a festa decorra com organização e qualidade. A única surpresa, que só no próprio dia se desvendará, consiste em saber quais são os assuntos que vão servir de motivo às cenas de crítica aos acontecimentos do ano em Sobrado, no município, no país ou no mundo. Os protagonistas dessas representações também devem estar a preparar-se e a ensaiar, mas no segredo dos deuses, para que o efeito de surpresa seja maior.
Crédito das fotos: Fábia Pinto (em cima) e Miguel Martins (em baixo)
As semanas que antecedem a festa são de uma intensidade invisível mas muito elevada. É necessário às centenas de integrantes das danças e de outros trabalhos da festa arranjar os trajes e outros adereços; candidatar-se às várias funções que ocorrem na tarde do dia 24 (Cobrança dos Direitos, Lavra da Praça e Dança do Cego). Várias destas tarefas são competência do velho da Bugiada e do Reimoeiro. Como, por exemplo, a obtenção e transporte dos pinheiros e das tábuas para a construção dos castelos - actividade ontem concretizada, como mandam os costumes.
Tudo se prepara, por conseguinte, para que a festa decorra com organização e qualidade. A única surpresa, que só no próprio dia se desvendará, consiste em saber quais são os assuntos que vão servir de motivo às cenas de crítica aos acontecimentos do ano em Sobrado, no município, no país ou no mundo. Os protagonistas dessas representações também devem estar a preparar-se e a ensaiar, mas no segredo dos deuses, para que o efeito de surpresa seja maior.
Crédito das fotos: Fábia Pinto (em cima) e Miguel Martins (em baixo)
Nova imagem de S. João
Foi hoje benzida a nova imagem de S. João, que figura no respectivo altar, na igreja matriz de Sobrado.
A nova imagem foi uma oferta do benemérito sobradense Sr Generoso Ferreira das Neves, a trabalhar e residir no Rio de Janeiro, ligado ao sector dos transportes colectivos.
A benção do novo altar teve lugar durante a eucaristia das 11h30, com a presença do doador e família, bem como da Comissão de Festas.. A imagem deverá figurar na procissão, no dia de S. João, na próxima sexta-feira.
A nova imagem foi uma oferta do benemérito sobradense Sr Generoso Ferreira das Neves, a trabalhar e residir no Rio de Janeiro, ligado ao sector dos transportes colectivos.
A benção do novo altar teve lugar durante a eucaristia das 11h30, com a presença do doador e família, bem como da Comissão de Festas.. A imagem deverá figurar na procissão, no dia de S. João, na próxima sexta-feira.
sábado, junho 18, 2011
Valongo (e Bugiada) será sede da Rede Ibérica da Máscara
Os representantes das instituições de Portugal e Espanha presentes na reunião hoje realizada em Sobrado aceitaram com entusiasmo a disponibilidade manifestada pela Câmara Municipal de Valongo, no sentido de esta cidade passar a ser a sede provisória da Rede da Máscara Ibérica.
A reunião, que decorreu no Centro Social e Cultural de Sobrado (CSCS), discutiu também os estatutos da futura entidade e aprovou um protótipo de logotipo. A decisão final em todas estas matérias será tomada numa reunião alargada a todos os sócios fundadores, a ter lugar em Zamora (Espanha), em Setembro ou Outubro próximo.
O anfitrião da reunião, o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Valongo Dr João Paulo Baltasar (juntamente com o promotor, Helder Ferreira, da Progestur) proporcionou uma visita ao espaço de interpretação na área protegida das Serras de Santa Justa e Pias orientado pela Dra. Isabel Oliveira, Directora do Departamento da Cultura, Turismo e Património Histórico, que guiou igualmente a descida ao Fojo das Pombas. O almoço foi servido sob a ramada de um moinho junto ao rio Ferreira, em Couce. Participaram, pela Bugiada, além da Câmara, o presidente da Junta de Freguesia de Sobrado, Carlos Mota e o presidente da Associação da Casa do Bugio, António Pinto e este que escreve esta nota.
No fim, e de novo no CSCS, foi projectado o Filme "Bugiadas", com base na capatação de imagens da festa de S. João de 1977, realizado por Ângelo Peres.
A reunião, que decorreu no Centro Social e Cultural de Sobrado (CSCS), discutiu também os estatutos da futura entidade e aprovou um protótipo de logotipo. A decisão final em todas estas matérias será tomada numa reunião alargada a todos os sócios fundadores, a ter lugar em Zamora (Espanha), em Setembro ou Outubro próximo.
O anfitrião da reunião, o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Valongo Dr João Paulo Baltasar (juntamente com o promotor, Helder Ferreira, da Progestur) proporcionou uma visita ao espaço de interpretação na área protegida das Serras de Santa Justa e Pias orientado pela Dra. Isabel Oliveira, Directora do Departamento da Cultura, Turismo e Património Histórico, que guiou igualmente a descida ao Fojo das Pombas. O almoço foi servido sob a ramada de um moinho junto ao rio Ferreira, em Couce. Participaram, pela Bugiada, além da Câmara, o presidente da Junta de Freguesia de Sobrado, Carlos Mota e o presidente da Associação da Casa do Bugio, António Pinto e este que escreve esta nota.
No fim, e de novo no CSCS, foi projectado o Filme "Bugiadas", com base na capatação de imagens da festa de S. João de 1977, realizado por Ângelo Peres.
quarta-feira, junho 15, 2011
Rede da Máscara Ibérica vai reunir em Sobrado
Tem lugar neste sábado em Sobrado a segunda reunião da Rede Ibérica da Máscara. A organização local cabe à Câmara Municipal de Valongo, cabendo a iniciativa à Progestur - Associação para a Promoção, Gestão e Desenvolvimento do Turismo Cultural em Portugal.
A reunião, que dá seguimento àquela em que foi realizada em Março último na cidade espanhola de Zamora, irá debater uma proposta de estatutos e de regulamento para a Rede da Máscara Ibérica, realizar-se-á a partir ds 10hoo no Centro Cultural e Social de Sobrado. Da parte da tarde, os participantes farão uma rápida visita a alguns pontos de interesse no Município e verão também um filme sobre a Festa da Bugiada.
terça-feira, junho 14, 2011
Facebook - Um dos casos deste S. João
A página da festa de S. João de Sobrado no Facebook tem-se vindo a tornar num dos casos emblemáticos da edição 2011 desta tradição popular.
A página, criada a 30 de Maio por iniciativa de Fábia Pinto, ela própria a desenvolver trabalhos de artesanato e pintura tendo como motivo a Bugiada e, enquanto professora, a organizar iniciativas ligadas à festa com crianças da Escola de Paço, a página, dizia, intitula-se S. João com Tradição - Bugiada de Sobrado, e não tem parado de registar adesões. Se, ao fim de dois dias, já havia algum espanto com o número de 'amigos' na casa das duas centenas, maior será o espanto quando, 15 dias depois, esse número avança para os 650, envolvendo pessoas de Sobrado, emigrantes e outras gentes interessadas na festa, algumas a residir bem longe.
Um dos aspectos mais interessantes que as participações têm permitido fazer vir ao de cima é o do acervo fotográfico antigo que várias pessoas têm publicado, um ponto fulcral para a memória da Bugiada e da Mouriscada, que este blog já tinha tentado incentivar, sem sucesso, diga-se.
A página, criada a 30 de Maio por iniciativa de Fábia Pinto, ela própria a desenvolver trabalhos de artesanato e pintura tendo como motivo a Bugiada e, enquanto professora, a organizar iniciativas ligadas à festa com crianças da Escola de Paço, a página, dizia, intitula-se S. João com Tradição - Bugiada de Sobrado, e não tem parado de registar adesões. Se, ao fim de dois dias, já havia algum espanto com o número de 'amigos' na casa das duas centenas, maior será o espanto quando, 15 dias depois, esse número avança para os 650, envolvendo pessoas de Sobrado, emigrantes e outras gentes interessadas na festa, algumas a residir bem longe.
Um dos aspectos mais interessantes que as participações têm permitido fazer vir ao de cima é o do acervo fotográfico antigo que várias pessoas têm publicado, um ponto fulcral para a memória da Bugiada e da Mouriscada, que este blog já tinha tentado incentivar, sem sucesso, diga-se.
sábado, junho 11, 2011
As origens da festa e a pergunta sem resposta
O primeiro livro que escrevi teve por tema a Festa da de S. João de Sobrado. Tal como este blog, intitulava-se "Bugios e Mourisqueiros" e contou com fotos a preto e branco da autoria de Armando Moreira (Marco), natural do concelho de Paredes e repórter fotográfico do Jornal de Notícias, onde eu trabalhava então, também, como jornalista. O livro foi editado pela Associação para a Defesa do Património Natural e Cultural do Concelho de Valongo, por empenhamento e interesse pela festa da respectiva Presidente, a Dra Fernanda Lage. Tratou-se de um trabalho académico que eu tinha redigido em 1979, quando era estudante de História, na Faculdade de Letras do Porto, para a cadeira de Etnologia Portuguesa que leccionava o Doutor Carlos Alberto Ferreira de Almeida, de grata memória.
Porque é que refiro estes factos? Porque, apesar do sucesso que o livrinho teve quer em Sobrado, quer nos meios de comunicação - julgo que foi o primeiro que se publicou sobre esta festa - me recordei de um episódio, ocorrido algum tempo depois, que merece ficar aqui registado.
Um dia, em que me encontrava no quintal, junto à casa dos meus pais, vi vir, pela cortinha adiante, um vizinho que eu muito estimava e com quem tive muitas e longas conversas - o Tio Zé Espinheira. Ele tocou violino durante muitos anos, na 'orquestra' que acompanha as danças da Bugiada e era um interessado por muitos assuntos e também pela festa de S. João. De facto ele era um sábio, mesmo sem ter grande instrução (sim, que uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra).
Como dizia, vi aproximar-se o Tio Zé e reparei que fazia menção de me chamar para junto do muro que separava os dois terrenos. Lá fui ao encontro dele e ele atira-me, de chofre, com a sua voz baixa e suave:
- Sabes, já li o livro que escreveste.
- Ah sim? E que achou?
- Aquilo está tudo muito bem. Mas falhaste numa coisa importante. Não respondeste à pergunta principal.
- Não me diga. E o que foi?
- Não explicas lá em que ano é que a festa começou. Isso é que seria importante. O resto já nós conhecemos bem.
Eu ainda tentei explicar-lhe que uma festa como esta, sem documentação histórica conhecida, torna muito difícil datar o seu início. Mas ele, apertando os lábios e fazendo um gesto com a mão, pretendia dizer: pois é, está tudo muito bem, mas continuamos sem saber há quantos anos a festa se faz.
Eu diria, ainda hoje, que só por milagre ou grande sorte, algum dia haverá resposta para a preocupação do Tio Zé Espinheira. Continuamos a ter de dizer, como os nossos avós: "o meu avô já dizia que os pais e avós deles contavam que esta festa era muito antiga no tempo em que viveram".
Sem documentos escritos, teremos de seguir outras pistas. Os trajes, por exemplo, que não devem remontar, no caso dos Bugios, para lá do séc. XVI ou XVII e, no caso dos Mourisqueiros, terão claras influências dos trajes dos exércitos franceses de Napoleão, que invadiram a Península nos princípios do séc. XIX. Mas, como já tive ocasião de referir, há vários indícios que apontam para que o mais antigo desta festa sanjoanina e solsticial seriam alguns rituais como a Lavra da Praça ou a Dança do Cego e que a Bugiada e Mouriscada sejam originárias de números que figuaravam na procissão de Corpus Christi e que a Igreja Católica, no seu afã purificador, foi depurando, a partir sobretudo do séc. XVIII e que poderão ter sido deslocados para o S. João. Mas tudo isto não passa de suposições que carecem de muita e aturada pesquisa. E que muito menos responde à inquietação do Tio Zé do Espinheira, um verdadeiro sábio sobradense com quem muito aprendi e a quem presto aqui a minha singela homenagem.
Porque é que refiro estes factos? Porque, apesar do sucesso que o livrinho teve quer em Sobrado, quer nos meios de comunicação - julgo que foi o primeiro que se publicou sobre esta festa - me recordei de um episódio, ocorrido algum tempo depois, que merece ficar aqui registado.
Um dia, em que me encontrava no quintal, junto à casa dos meus pais, vi vir, pela cortinha adiante, um vizinho que eu muito estimava e com quem tive muitas e longas conversas - o Tio Zé Espinheira. Ele tocou violino durante muitos anos, na 'orquestra' que acompanha as danças da Bugiada e era um interessado por muitos assuntos e também pela festa de S. João. De facto ele era um sábio, mesmo sem ter grande instrução (sim, que uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra).
Como dizia, vi aproximar-se o Tio Zé e reparei que fazia menção de me chamar para junto do muro que separava os dois terrenos. Lá fui ao encontro dele e ele atira-me, de chofre, com a sua voz baixa e suave:- Sabes, já li o livro que escreveste.
- Ah sim? E que achou?
- Aquilo está tudo muito bem. Mas falhaste numa coisa importante. Não respondeste à pergunta principal.
- Não me diga. E o que foi?
- Não explicas lá em que ano é que a festa começou. Isso é que seria importante. O resto já nós conhecemos bem.
Eu ainda tentei explicar-lhe que uma festa como esta, sem documentação histórica conhecida, torna muito difícil datar o seu início. Mas ele, apertando os lábios e fazendo um gesto com a mão, pretendia dizer: pois é, está tudo muito bem, mas continuamos sem saber há quantos anos a festa se faz.
Eu diria, ainda hoje, que só por milagre ou grande sorte, algum dia haverá resposta para a preocupação do Tio Zé Espinheira. Continuamos a ter de dizer, como os nossos avós: "o meu avô já dizia que os pais e avós deles contavam que esta festa era muito antiga no tempo em que viveram".
Sem documentos escritos, teremos de seguir outras pistas. Os trajes, por exemplo, que não devem remontar, no caso dos Bugios, para lá do séc. XVI ou XVII e, no caso dos Mourisqueiros, terão claras influências dos trajes dos exércitos franceses de Napoleão, que invadiram a Península nos princípios do séc. XIX. Mas, como já tive ocasião de referir, há vários indícios que apontam para que o mais antigo desta festa sanjoanina e solsticial seriam alguns rituais como a Lavra da Praça ou a Dança do Cego e que a Bugiada e Mouriscada sejam originárias de números que figuaravam na procissão de Corpus Christi e que a Igreja Católica, no seu afã purificador, foi depurando, a partir sobretudo do séc. XVIII e que poderão ter sido deslocados para o S. João. Mas tudo isto não passa de suposições que carecem de muita e aturada pesquisa. E que muito menos responde à inquietação do Tio Zé do Espinheira, um verdadeiro sábio sobradense com quem muito aprendi e a quem presto aqui a minha singela homenagem.
sexta-feira, junho 10, 2011
Ecos da festa
A Festa de S. João de Sobrado aparece destacada na edição de Maio/Junho da "iPorto -agenda metropolitana de cultura" da Área Metropolitana do Porto, fazendo a seguinte imagem capa da secção "iETC":
quinta-feira, junho 09, 2011
Em Sobrado, há uma guerra por ano, mas é terra pacífica
Há muito tempo, séculos, talvez, que Sobrado conhece pelo menos uma guerra por ano. Mete treinos, espadas, fardas, polainas, 'canhões', combates, tiros de rebentar os tímpanos, assaltos, aprisionamentos, toques de tambor, vítórias e derrotas. Tudo acontece no dia de S. João, a 24 de Junho, mas ao longo de todo o ano há planos de participação nos conflitos, alguma (por vezes muita) tensão no ar. E, no entanto, também se pode dizer que Sobrado não é uma terra violenta. É, pelo menos, em geral, tão pacífica como outra qualquer.
Será que a sua Festa de S. João, o dia maior desses combates rituais e simbólicos, acaba por ser a forma de os sobradenses 'evacuarem' (simbolicamente) a violência real das relações, que é inerentes à vida social? É, em certa medida, essa a tese do sociólogo e antropólogo António Custódio Gonçalves, que faz referência a esta Festa, num seu artigo datado de 1985, publicado na Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto / Geografia (vol. I), intitulado precisamente, "A simbolização da violência social". Transcreve-se aqui a parte (pág. 38) em que surge a referência a Sobrado:
Será que a sua Festa de S. João, o dia maior desses combates rituais e simbólicos, acaba por ser a forma de os sobradenses 'evacuarem' (simbolicamente) a violência real das relações, que é inerentes à vida social? É, em certa medida, essa a tese do sociólogo e antropólogo António Custódio Gonçalves, que faz referência a esta Festa, num seu artigo datado de 1985, publicado na Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto / Geografia (vol. I), intitulado precisamente, "A simbolização da violência social". Transcreve-se aqui a parte (pág. 38) em que surge a referência a Sobrado:
terça-feira, junho 07, 2011
De que se trata, nesta foto?
A foto abaixo relaciona-se com a Festa de S. João, mas refere-se a um momento que alguns poderão não conhecer. Então,as perguntas que deixo são estas:
1. Onde se passa a cena documentada pela imagem?
2. A que momento da festa se refere a foto?
3. Porque é que os Mourisqueiros vão todos desorganizados?
quinta-feira, junho 02, 2011
Cartaz e programa da Festa de 2011
•Dia 19
17h00 – Último Ensaio (Tremoços)•Dia 20
22h00 – Grupo de Dança Brilho da Devesa•Dia 21
22h45 – Grupo de Dança Novo Milénio
21h45 – Grupo de Dança Estrelas da Balsa•Dia 22
22h45 – Banda K-Bisermant
21h30 – Marchas de S. João.Dia 23
21h45 – Grupo de dança da Casa do Bugio “Instintos Radicais”
22h30 – Banda Red
23h45 – Sessão de fogo de artifício
00h15 – Actuação de Filipe Pinto
•Dia 24
08h00 – Dança em casa do Reimoeiro.Dia 25
08h45 – Dança em casa do Velho da Bugiada
09h30 – Jantar dos Mourisqueiros na Casa do Bugio
10h00 – Missa Solene com sermão na igreja paroquial
10h15 – Jantar dos Bugios na Casa do Bugi
11h30 – Procissão em honra de S. João
12h30 – Danças de Entrada
13h30 – Dança do Sobreiro
15h00 – Cobrança de Direitos
15h30 – Sementeira
16h00 – Gradar
16h30 – Lavrar
17h00 – Dança do Cego ou Sapateirada
17h30 – Dança do Doce
19h00 – Subida aos castelos e negociação
19h45 – Prisão do Velho
20h15 – Ataque da Serpe e Libertação do Velho
20h30 – Dança do Santo
21h00 – Entrega da Festa
22h00 – Grupo de Música “Os Canários”NB - Todos os actos têm lugar no Largo do Passal (a não ser que esteja indicado outro local)
segunda-feira, maio 30, 2011
Criado no Facebook espaço sobre a Bugiada
Intitula-se "S. João com tradição - Bugiada de Sobrado" e é o novo espaço que acaba de ser criado no Facebook, tendo a festa sobradense por motivo.
A iniciativa coube à Prof. Fábia Pinto, que descreve o grupo desta forma:
"Para quem gosta do S. João mas acima de tudo gosta de tradição ,o S. João de Sobrado assume-se como um icone nacional. Uma festa que durante anos se eclipsou no S. João do Porto mas que tem vindo de uns anos a esta parte a marcar a diferença e a conquistar cada vez mais adeptos desta festividade. A assistir e participar todos os anos no dia 24 de Junho."
A iniciativa coube à Prof. Fábia Pinto, que descreve o grupo desta forma:
"Para quem gosta do S. João mas acima de tudo gosta de tradição ,o S. João de Sobrado assume-se como um icone nacional. Uma festa que durante anos se eclipsou no S. João do Porto mas que tem vindo de uns anos a esta parte a marcar a diferença e a conquistar cada vez mais adeptos desta festividade. A assistir e participar todos os anos no dia 24 de Junho."
quinta-feira, maio 05, 2011
Bugios e macacos no Google
Pode admirar-se quem pesquisar pela palavra "Bugios", no Google, e aparecerem-lhe imagens como esta:
Espantam-se os de Sobrado ou que conhecem a festa sobradense, porque não sabem que a palavra bugio se refere também a uma espécie de macacos frequente em diversas regiões da mata atlântica do Brasil. Espantar-se-ão certamente os conhecedores dos macacos brasileiros, porque não imaginarão que, do outro lado do mar, existe uma festa que os inclui (ainda que sob a espécie humana) e uma gente que tem paixão de pertencer aos bugios. Resta saber quem foi buscar a palavra a quem ou se foram todos a uma terceira fonte. Nós não sabemos.
Espantam-se os de Sobrado ou que conhecem a festa sobradense, porque não sabem que a palavra bugio se refere também a uma espécie de macacos frequente em diversas regiões da mata atlântica do Brasil. Espantar-se-ão certamente os conhecedores dos macacos brasileiros, porque não imaginarão que, do outro lado do mar, existe uma festa que os inclui (ainda que sob a espécie humana) e uma gente que tem paixão de pertencer aos bugios. Resta saber quem foi buscar a palavra a quem ou se foram todos a uma terceira fonte. Nós não sabemos.
terça-feira, maio 03, 2011
Novos corpos gerentes da Casa do Bugio
É a seguinte a constituição dos órgãos sociais eleitos na passada sexta-feira para prosseguir o trabalho de promoção da Festa de S. João de Sobrado:
Mesa de Assembleia-geral
Presidente: Francisco Jorge Rocha Mesquita
Vice Presidente: António César Ribeiro Ferreira
Secretário: Fernando Manuel Moreira Dias
Direcção
Presidente: Manuel António da Silva Pinto Suzano
1º Vice-presidente: António José Dias dos Santos
2º Vice – presidente: Maria Fernanda Fernandes Costa
1º secretário :Maria Conceição Azevedo Lindo
2º secretário: Manuel Fernando Almeida Coelho
Tesoureiro: Elisabete Moreira Leão
Vogais :
António Santos Almeida
Domingos Soares Moreira
Manuel Joaquim Silva Pinto
Sérgio Nuno Sousa Silva
Serafim Manuel Dos Santos Rocha
Presidente: Francisco Jorge Rocha Mesquita
Vice Presidente: António César Ribeiro Ferreira
Secretário: Fernando Manuel Moreira Dias
Direcção
Presidente: Manuel António da Silva Pinto Suzano
1º Vice-presidente: António José Dias dos Santos
2º Vice – presidente: Maria Fernanda Fernandes Costa
1º secretário :
2º secretário: Manuel Fernando Almeida Coelho
Tesoureiro: Elisabete Moreira Leão
Vogais :
António Santos Almeida
Domingos Soares Moreira
Manuel Joaquim Silva Pinto
Sérgio Nuno Sousa Silva
Serafim Manuel Dos Santos Rocha
Suplente: Pedro Manuel Gaspar Moreira
Conselho fiscal:
Conselho fiscal:
Presidente: António Fernando Moreira Gaspar
Secretário: Joaquim Fernando Carneiro Soares
Relator: Bruno Joaquim Fernandes Sousa
Relator: Bruno Joaquim Fernandes Sousa
Subscrever:
Mensagens (Atom)










