sábado, fevereiro 25, 2012

Sinais locais da projeção da Festa

Sinais da repercussão da Festa de S. João de Sobrado no plano local/municipal:

  • Feriado Municipal: S. João
  • Unidade de Saúde Familiar de Sobrado: São João
  • Rua principal (e mais extensa) de Sobrado: S. João
  • Agrupamento Vertical de Escolas de Sobrado: S. João
  • Jornal do Agrupamento de Escolas: O Bugio
  • Principal festa de Sobrado: S.João [Padroeiro: Santo André]
(Se souber de outras referências, comunique-as por e-mail, pf)

domingo, fevereiro 19, 2012

Uma demissão "inabalável" da Comissão Administrativa da Junta, em 1937
Um caso que pode ter a ver com a festa de S. João

A história da Festa de S. João de Sobrado está, em grande medida, por fazer. E, deve dizer-se, não é tarefa fácil, já que não é uma tradição que se apoie, ao que se sabe, em grandes elementos escritos, a começar pela lenda, que é transmitida, em versões diferentes, de geração em geração. Mas difícil não quer dizer impossível e a verdade é que os arquivos onde se encontra a documentação sobre Sobrado ainda não foram passados a pente fino de forma sistemática.
Um desses sítios é o Arquivo Histórico Municipal de Valongo, que procedeu ao Inventário de grande parte do fundo documental  da Junta de Freguesia de Sobrado. E foi lá, precisamente que os técnicos daquele serviço encontraram um documento que pode ter interesse para a História da Festa de S. João de Sobrado. Trata-se de um ofício da Comissão Administrativa da Junta, datado de 27 de Junho de 1937 e relativo a uma reunião daquele órgão realizada no mesmo dia. É dirigido ao Administrador do Concelho e tem por objetivo nada mais nada menos do que pedir a demissão coletiva do órgão.
Essa medida drástica é tomada, salienta o ofício, "como protesto contra a atitude de um empregado dessa Câmara Municipal que teve a ousadia inqualificável de dar voz de prisão ao seu presidente".
A continuação do texto da missiva explica as circunstãncias e justifica a demissão:
"Porque há longos anos não cobrava esse Câmara direitos sobre os taberneiros, padeiros, doceiros, etc que ocorriam [sic] [a]os arraiais das romarias que no Largo do Passal, desta freguesia se realizam, entendeu o Snr Presidente desta Junta perguntar ao aludido funcionário quem o havia mandatado [para] proceder a tal cobrança, tendo sido nessa altura como dissemos insultado e ameaçado.Não obstantea muita consideração pela pessoa de V. Ex, é esta a resolução inabalável desta Comissão, tanto mais que sendo este Largo pertença exclusiva desta Junta, não compreendemos ou compreendemos mal que essa Câmara cobre direitos, nos arraiais que aí se realizam sem prévio conhecimento da mesma Junta.A Bem da Nação...".
Não sabemos se o pedido de demissão foi aceite ou se houve explicações e cedências e, consequentemente, recuo sobre a posição assumida. Deste documento, duas conclusões se podem, entretanto, extrair:
  • Apesar de o motivo imediato ter sido a arrogância e (aparentemente) má-educação do funcionário municipal, no modo como executou a ordem recebida, o fundo do problema parece ser uma imposição do Administrador do Concelho numa matéria em que a Junta entendia dever, pelo menos, ter sido ouvida;
  • O facto de o pedido de demissão ter sido tomado apenas três dias depois do dia de S. João aponta fortemente no sentido de que o facto que o motivou ocorreu no dia da Festa da Bugiada e Mouriscada e poderá (ou não) sugerir que a festa adquirira alguma projeção, do ponto de vista do número dos tendeiros e tasqueiros que se instalavam no Largo do Passal. 
(Poder-se-á perguntar por que razão uma posição deste tipo não ocorreu no dia imediato. Uma possível explicação é esta: no ano de 1937, o S. João caiu a uma quinta-feira. A sexta e o sábado eram dias normais de trabalho que, numa economia quase exclusivamente agrícola, é, nesta altura do ano, intenso. A reunião deste tipo de órgãos era então frequentemente feita ao domingo, como forma de não perturbar os trabalhos do campo).

NB - A grafia de algumas palavras do documento foi aqui atualizada.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

"Rituais de Inverno com Máscaras"


Para quem, nos próximos dias, andar pelos lados de Trás-os-Montes, fique sabendo que poderá visitar em Bragança a exposição "Rituais de Inverno com Máscaras". Está patente até dia 21 no Museu Abade de Baçal.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

As "Entrajadas" e as máscaras

A Comissão de Festas de S. João de Sobrado, com o apoio da Junta de Freguesia, promove no dia de Carnaval, à noite, um "Concurso de Entrajadas", que se junta, assim, ao ritual da Queima do Velho.
É de enaltecer a recuperação de uma palavra antiga que outrora se usava em Sobrado em duas circunstâncias. A primeira era precisamente no dia de Carnaval (e, não raro, também no Domingo Gordo), em que mascarados percorriam os caminhos e estradas da freguesia, vestidos de forma, digamos, anormal: homens vestidos de mulheres e vice-versa, pessoas com roupas do avesso, outras a imitar gente fina ou, ao contrário, maltrapilhos, etc.
A segunda situação em que se recorria - e continua a recorrer ao termo "entrajadas" é precisamente na Festa de S. João de Sobrado. É também protagonizada por mascarados e refere-se às cenas e representações de crítica social de situações escondidas, de acontecimentos anormais ou de problemas sentidos pela comunidade local.
Poucos dicionários trazem este termo e quando a trazem não é como substantivo mas como verbo. Dar realce à palavra é, assim, uma forma de preservar o património (neste caso linguístico) de Sobrado.
E vem a talho de foice: seria ótimo que se aproveitasse estas ocasiões para ensaiar a construção de máscaras mais originais. Se quisermos que a Bugiada venha a ser classificada como património imaterial vai ser necessário cuidar desse aspeto. A entrajada carateriza-se não apenas pelo vestuário, mas também pela qualidade e originalidade da máscara.

sábado, janeiro 28, 2012

"Queima do Velho" - iniciativa da Comissão de Festas2012


Vai ser no dia 21 de Fevereiro, dia de Carnaval, às 21 horas, no Passal. A Queima do Velho, uma tradição que vem ganhando maior dimensão nos últimos anos, volta a realizar-se como forma de festejar o Carnaval, de conviver e de angariar fundos para a organização da festa de S. João deste ano. A iniciativa é da Comissão de 2012 e é o seu primeiro evento deste ano.


quinta-feira, janeiro 26, 2012

Mouriscada: “Um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna"

Neste post, gostaria de sublinhar alguns aspectos interessantes e curiosos que ressaltam do relato e análise da Festa de S. João de Sobrado feita por Rodney Gallup, no livro "Portugal, a Book of Folk Ways".
Importa observar, antes de mais, que o autor só viu uma parte da festa. Chegando a Sobrado, naquele S. João de 1932 (vai fazer agora 80 anos), pelas 18 horas, decorria aquela que hoje é conhecida como a Dança do Doce. A festa, tendo um certo aparato, era uma tradição pacata, não mobilizando, longe disso, as dezenas de milhares de pessoas que hoje movimenta. Era uma festa simples de aldeia, com meia dúzia de tendas alinhadas a um canto do Passal. Tudo o que o autor descreve relativamente ao que já se tinha passado até àquela hora deve-lhe ter sido contado por habitantes locais ou por quem conhecia a tradição de Sobrado.
É, além disso, interessante observar que, nesta festa, Gallop se sente sobretudo atraído pelos Mourisqueiros. De resto, seguindo uma tradição que também se encontrou em Sobrado, sempre designa esta festa por Mouriscada. Os Bugios são descritos como primitivos e rudes, menos marciais, aprumados e organizados do que o adversário.
Nas danças não se nota nada de especialmente relevante comparativamente com o que hoje ocorre. Apenas chama a atenção a “figura cómica vestida de fato-macaco azul e com uma máscara feita de cortiça”, que seguia o Reimoeiro pelo lado de fora das filas “imitando todos e cada um dos seus movimentos”. Esta figura cómica há muito desapareceu, se é que não se tratou de um caso isolado daquele ano.
Quanto aos trajes, é de referir os fatos de cor clara e os cintos vermelhos dos Mourisqueiros, bem como os trajes dos Bugios, muitos deles alugados em figurinistas de teatro do Porto. De destacar o caso do Velho da Bugiada que levava “um manto eclesiástico de rico damasco encarnado debruado a ouro, com uma dobra sobre os ombros”, escolhido “de entre as vestes ou adereços da igreja”.
As máscaras são um terreno importante em que se registam diferenças relativamente à atualidade. Não é que Galllop faça uma grande descrição sobre como elas eram. Apenas ficamos a saber que algumas representavam caras de animais. Nesta matéria, o que é de facto uma novidade é que o líder da Bugiada só colocava a máscara aquando da Prisão do Velho. Vale a pena chamar aqui a atenção para o facto de que o colocar a máscara significava que um outro momento/tempo iria ter lugar. Isso ainda hoje acontece, através da mudança de máscara, na parte da tarde.
Outra diferenças pode ser encontrada no texto aqui citado: o facto de haver dois embaixadores a correr as embaixadas (e não um, como vem acontecendo nas últimas décadas).
Rodney Gallop aventura-se nos difíceis caminhos da interpretação dos significados desta tradição popular. A sua visão tem a vantagem de provir de um profundo conhecedor das tradições musicais e de dança de diferentes partes do mundo. Destaca-se aqui a sua ideia de que as tradições do dia de S. João de Sobrado não nasceram todas ao mesmo tempo, antes são “um aglomerado de diferentes aspectos, os quais nem todos estiveram sempre ligados”. A outra ideia é que, para além daquilo que se vê – das danças e das lutas – o que se pretende tematizar e representar são os mistérios da sementeira e da fertilidade da terra, a luta pela subsistência, a morte e a ressurreição.
O autor sugere também que aquilo que se vê nesta freguesia pode ter tido inspiração em tradições como o S. João (ou o Corpus) de Braga, nas danças de espadas que surgem em várias outras tradições portuguesas e estrangeiras (recentemente estudadas por Barbara Alge) ou em tradições anteriores, que tenham dado origem a todas estas .
Nos adereços dos Bugios vê Gallop vestígios de “agrupamentos medievais de dançarinos” (assim como poderíamos dizer que os adereços dos Mouriscos se ligam a algumas fardas das tropas napoleónicas dos inícios do século XIX).
Seja como for, é tudo isto que, para este autor inglês, faz do S. João de Sobrado “um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna".

(Crédito da foto:  Marjoke Krom , 2007)

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Origens e filiações da festa de Sobrado

Prosseguimos e terminamos a parte dedicada por Rodney Gallop à Festa de S. João de Sobrado, no seu livro, editado em 1936, "Portugal, a Book of Folk Ways":
(...)
Uma tão complexa representação/performance como é a Mouriscada apresenta um certo número de dificuldades para o estudioso do folclore. Na sua forma actual,  ela é claramente um aglomerado de diferentes aspectos,  os quais nem todos estiveram sempre ligados. Trata-se, em primeiro lugar - e isso parece seguro -  de um ritual de fertilidade agrícola. A altura do ano desta performance fornece ampla prova disso mesmo e a confirmação advém de uma manifestação paralela bem curiosa, que tem lugar ao princípio da tarde. Depois de os Mouriscos e Bugios terem feito a sua entrada solene na aldeia (1), mas antes de começarem as suas danças, um dos Bugios anda pela aldeia montado num pequeno cavalo, sentado ao contrário, e lançando sementes de linho (2). O mesmo terreno por ele percorrido é, de seguida, gradado e, depois, lavrado, com dois burros cuja canga é colocada por baixo, de modo que fica dependurada por baixo do pescoço. Antes de chegarem à zona verde do largo, o arado tem de estar feito em pedaços. Tudo isto é feito em ordem inversa e parece ser um processo de 'magia imitativa' que actua por inversão. Os Mouriscos e a Serpe devem ter sido herdados da procissão de Braga ou de algum cerimonial anterior que tenha dado origem a ambos. Os primeiros são seguramente  um grupo de dança de espadas cuja representação ainda é associada à teatralização da morte e ressurreição, que bem pode ter sido a razão original da respectiva existência. Os adereços que os Bugios trazem parecem relacioná-los com agrupamentos medievais de dançarinos; contudo os seus trajes e movimentos grosseiros ligam-nos a outros dançarinos rituais (3), como os Noirs das Mascaradas bascas, enquanto que as suas máscaras de animais e o rei não mascarado se assemelham à festa dos rapazes de Bragança. O nome que lhes dão não ajuda a esclarecer a questão: o seu significado primeiro  é macaco, enquanto que o significado secundário é pantomineiro ou bufão (4).
Falta explicar a batalha entre os dois exércitos. Foi dito atrás que entre as danças que cairam em desuso em Arcozelo da Serra havia uma que simulava um combate entre portugueses e espanhois. Um britânico há muito residente no Porto disse-me que na sua juventude não era de todo invulgar nas zonas rurais à volta da cidade encontrar grupos de mascarados a representar uma batalha entre Mouros e Cristãos. Tais simulacros de combate são também conhecidos noutros países. A Moreska da Damácia é um desses casos e tais batalhas são frequentemente o número principal das representações de danças mouriscas. A opinião local explica invariavelmente que tais danças surgiram para celebrar a vitória em guerras contra os Mouros. Mas é muito mais provável que elas se relacionem com batalhas rituais entre o Verão e o Inverno, de que um exemplo sobreviveu até um pouco mais de um século atrás tão perto de nós como a Ilha de Man, o que só pode ser explicado como um ritual agrícola de magia por simpatia, em ordem a assegurar o triunfo da vegatção sobre o definhamento.
.............................
Notas do texto:
(1) São recebidos à porta do adro pelo sacristão, com uma caldeirinha de água benta que entrega a cada um dos reis juntamente com um ramo de oliveira com o qual estes últimos aspergem os seus homens ajoelhados.
(2) Apesar de ser linho, ele chama-lhe milho, sendo difícil de dizer se há algum significado especial por detrás desta troca.
(3) Na procissão do Corpus Christi de 1621, no Porto, "os pedreiros, canteiros e obreiros com o seu Rei e Estandarte davam uma dança, bem trajados, na forma de bugios, com instrumentos musicais que era costuma usar nessa dança" (Sousa Viterbo, Artes e Artistas em Portugal, p. 245). Vale a pena referir que  Sobrado fica perto das minas/pedreiras de Valongo.
A procissão que se fez em Lisboa, em 1619, em honra de Filipe II de Portugal e III de Espanha incluiu danças em que actuaram bugios (macacos) e papagaios. O uso da palavra espanhola monos (macacos) no poema escrito por Francisco de Arce nessa ocasião confirma a tradução acima de bugios (cf op. cit. pp. 250-5)
(4) Vale a pena referir que nesta representação  parece haver as duas danças cerimoniais distinguidas em  Orchésographie the Morisque and the Bouffons ou Dança dos Loucos, de Arbeau (séc. XVIII).

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Rodney Gallop (3) - A Prisão do Velho


"Começava agora a segunda parte da Mouriscada. Dois pequenos palanques de madeira tinham sido levantados no largo terreiro verde, a mais ou menos 70 metros [oitenta jardas] um do outro.
Os dois reis posicionaram-se nestes 'castelos, cada qual acompanhado por alguns dos respectivos seguidores devidamente escolhidos, e começaram a enviar um ao outro mensagens provocatórias, através de 'embaixadores' a cavalo. Ao mesmo tempo que cada embaixador arrancava para a sua tarefa com a mensagem sob a forma de um pedaço de papel ou de uma folha de plátano enfiados na espada, os guerreiros disparavam salvas de tiros com mosquetes de carregar pela boca cujo fumo subia no ar.
Eram já oito da noite e o sol baixava no horizonte. Chegou um momento em que a pólvora se extinguiu entre os Bugios, impossibilitando-os de continuarem a defender-se. Os Mouriscos puseram-se em formatura e marcharam para irem atacar o castelo daqueles. Por duas vezes desencadearam o assalto e nas duas vezes foram repelidos. Com o seu rei adiante, à terceira vez conseguiram tomar conta da escada. Houve breve escaramuça no pequeno palanque e o Rei Bugio, agora de máscara, podia ver-se escudado atrás dos seus homens. Pouco tempo depois o rei dos Mouros encontra-o e atira-o ao chão. Instaura-se um silêncio súbito. O monarca caído senta-se e os seus seguidores vão à vez dizer-lhe um adeus choroso, dando-lhe abraços enternecidos. De seguida, com um gesto imperial, o seu captor ordena-lhe que desça os degraus, os Mouriscos formam uma falange fechada e, ao som de uma marcha fúnebre, levam-no dali para fora. Com lágrmas e lamentações, os Bugios seguem-no de perto.
Por momentos sentimo-nos transportados para longe, no espaço e no tempo. Parecia que estamos a ver, com os nossos próprios olhos, o antiquíssimo cortejo fúnebre de Osíris. Se assim fosse, não deveríamos assistir igualmente à sua libertação das amarras da morte? A resposta não tardou a chegar. Num ponto afastado do terreiro registou-se uma súbita manobra. Da parte de baixo do seu 'castelo' um grupo de Bugios arrastou um 'dragão' descomunal grosseiramente feito de madeira e tela. Pegando na Serpe como se fosse uma máquina de guerra, carregaram sobre os Mouriscos ao som de gritos que ecoavam pelos ares. Estes abrem brechas sob efeito do terror, permitindo que o prisioneiro seja salvo pelos seus homens e levado em triunfo. Osíris morto voltara à vida e, agora, terminada a pantomina, faltava apenas a Dança do Santo para dar um final cristão a esta cerimónia pagã. Uma vez mais, as duas formações executaram as suas estranhas danças, desta vez em frente à igreja, em honra de S. João, assim encerrando um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna".
(Continua)

terça-feira, dezembro 27, 2011

Rodney Gallop (2) - Bugios: seus trajes e sua dança

"Quando esta dança terminou os Mouriscos sairam do quinteiro a marchar em fila única. No portão cruzaram-se com um bando de figuras vestidas de modo ainda mais incongruente do que eles próprios. Os Bugios, como eram chamados, trajavam com capas de cores garridas, casaco tipo gibão cintado e abotoado e calça curta, pelo meio da perna (alugado, de facto, num figurinista de teatro do Porto). Todos usavam máscara, algumas com caras de animais e, na cabeça, traziam chapeus de cavaleiro adornados com fitas de papel e culminando numa cascata de fitas como aqueles que usavam os mascarados ingleses. Nas mãos, cada qual trazia algum objecto doméstico ou ligado à agricultura. Assim como os Mouriscos eram contidos e ordenados, estes eram um tanto rudes e violentos no comportamento. Com gestos selvagens e gritos rudes avançavam para o quinteiro, começando a dançar alinhados em duas filas, tal como os que os precederam.. A música, agora, consistia num pequeno fragmento de melodia indefinidamente repetido por duas rabecas e um violão.
O rei dos Bugios, o único que não ia mascarado, posicionava-se no centro. Usava uma barretina alta e emplumada e um manto eclesiástico de rico damasco encarnado debruado a ouro, com uma dobra sobre os ombros (foi-nos dito que o Rei Bugio tem um privilégio que consiste em poder escolher o seu vestido de entre as vestes ou adereços da igreja). Enquanto os seus seguidores saltavam desajeitadamente nos seus lugares, o rei convocava, à vez, cada um dos pares e mediante os gestos balanceados de um nigromante parecia transmitir-lhes perversas e secretas ordens. De seguida, levantando ligeiramente os braços e as mãos, despedia aquelas figuras meio encolhidas. Uma volta e um salto colocavam-nos no fim da fila. Se a dança anterior tinha todo o ar de preparação para uma batalha, esta estranha e ameaçadora performance trazia-nos à mente nada mais do que o 'dia das bruxas' e isto precisamente no dia em que a bruxaria é todo-poderosa. (...)"

Crédito da foto: Rei dos Bugios, desenho publicado na p. 173 da obra de R. Gallop.
(continua)

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Rodney Gallop (1) - A Dança dos Mourisqueiros em 1932

Setenta e cinco anos depois de Rodney Gallup ter publicado a descrição antiga mais completa sobre a Festa de S. João de Sobrado, inicia-se aqui a publicação da parte respeitante a esta tradição, que vem no seu livro "Portugal, a Book of Folk Ways". Depois de apresentar danças mouriscas, danças de espadas e, em geral, danças rituais de diversas partes de Portugal, incluindo a Dança dos Pauliteiros, Rodney Gallop inicia a apresentação da Festa de S. João de Sobrado. Desta forma:
"Mais marcial na aparência é a extraordinária performance, que, sobre o nome promissor de Mouriscada, sobrevive ainda em Sobrado, perto de Valongo, e que mantém dois dos elementos que já desapareceram da procissão de S. João em Braga. Chegamos à aldeia de Sobrado pelas 6 horas da tarde do dia de S. João de 1932. Um largo relvado descia ligeiramente da estrada principal em direcção à igreja branca que se destacava de uma colina arborizada ao fundo, fulgurando sob os oblíquos raios de sol. Algumas tendas alinhavam-se a um canto, dominando uma atmosfera geral de rústica folia. Caminhando na direcção da igreja demo-nos conta de que a performance já tinha começado. Com espadas em riste, no punho das quais lenços brancos haviam sido atados, os Mouriscos estavam a dançar no quinteiro da casa do padre. Usavam fatos de algodão de cor clara com botões dourados e cintos vermelhos e faixas. Traziam na cabeça barretinas de cartão de cerca de 30 centímetros de altura, das quais pendiam pequenos espelhos, galões dourados e encimado por plumas vermelhas. Organizados em duas linhas compridas, de rostos graves e sérios, dançavam nos seus lugares, enquanto o seu rei, que se distinguia pelo uso de correntes douradas e dragonas, saltava de uma ponta para a outra da linha, dançando à vez com cada um dos pares dos seus homens. Uma figura cómica vestida de fato-macaco azul e com uma máscara feita de cortiça seguia-o pelo lado de fora imitando todos e cada um dos seus movimentos. A certa altura as duas linhas [de Mourisqueiros] desfazem-se, enrolam-se uma na outra como em espiral e disparam em direcções opostas. A única música consistia no monótono rufar do tambor que combinava com o silêncio e ar decidido dos dançarinos, a emprestar ao seu desempenho uma qualidade estranhamente sinistra, como que a pressagiar uma explosão de selvageria primitiva.(...)".
Rodney Gallop (1936/1961), Portugal a Book of Folk Ways. Cambridge University Press, pp. 171-172 [Continua]

terça-feira, dezembro 20, 2011

As origens militares das barretinas

Os trajes dos Mourisqueiros têm demasiadas parecenças com as fardas dos soldados napoleónicos e é provável que essa influência seja efectiva, no caso da Mouriscada. Um dos elementos importantes para essa comparação é certamente a chamada Barretina - uma forma cilíndrica debruado a cetim, rodeada de espelhos e encimada por plumas. O que se segue não é necessariamente nem vestígios da farda napoleónica nem sequer apenas traje francês. O formato e as plumas ou os seus vestígios surgem em várias outras tradições militares e algumas delas já são apenas peças de museu. Mas são importantes para contextualizar a nossa própria tradição (a imagem de comparação da festa de Sobrado é a que surge na foto em cima, à esquerda, neste blogue).

(Estas imagens foram seleccionadas a partir de uma pesquisa do termo "Shako" no Google Images. Aí se podem encontrar os sites de origem das fotos.

terça-feira, dezembro 13, 2011

Blog 'Bugios e Mourisqueiros': sete anos de vida

Não é um número redondo, mas é, digamos, um número bíblico: este blogue acaba de atingir sete anos de existência e de persistência (e não é propriamente por falta de material que não é mais assíduo na actualização). Em outros tempos, atingir os sete anos significava atingir a capacidade do "uso da razão". Será?
O objectivo que temos procurado concretizar não é apenas informar e reflectir sobre a Festa e outros aspectos com ela relacionados. Ao fazê-lo temos consciência de estar a criar um repositório e uma memória da Festa, o que, numa tradição popular que é tão parca em documentação histórica, é de grande relevância. Acresce que outros espaços congéneres que, em anos recentes, surgiram, desapareceram, entretanto. Os 330 posts até agora publicados aí estão, à consulta de quem se interessar.
Justifica-se, neste contexto, que dê a conhecer alguma informação acerca de quantos são e de onde vêm os visitantes deste espaço da Festa na Internet:
Registam-se até este momento, cerca de 39 mil visitas, das quais 2.500 oriundas do Brasil (cerca de 6,5%), seguido da França, com cerca de 870 (2,5%), dos Estados Unidos da América (441, equivalente a 1,15%) e da Espanha (352, ou seja 0,9%).
Os meses de Junho atingem sempre picos elevados de visitas, mas nunca como este ano, em que durante o mês da Festa 3474 pessoas vieram aqui parar. Nos restantes períodos do ano, a média ronda os 500 visitantes por mês.
Três em cada quatro visitantes descobrem ou demandam o blog Bugios e Mourisqueiros através de sites de pesquisa, dos quais aquele que é esmagadoramente mais utilizado (96%) é, naturalmente, o Google. O Facebook, certamente por causa do grupo específico criado em 2010, e a Wikipedia, por causa dos artigos que referenciam a festa, lideram os sítios de onde se chega a este blogue.
Obrigado pela visita!

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Rodney Gallop - este nome diz-lhe alguma coisa?
Nos 75 anos de "Portugal, a Book of Folk Ways"

Provavelmente o nome Rodney Gallop não diz nada ao leitor. É possível que venha a ouvir falar dele se se concretizar a candidatura do "cante alentejano" a património imaterial da Humanidade, já que ele foi um dos etnógrafos que recolheu vários dos exemplares dessa forma de música popular, nomeadamente em "Cantares do Povo Português".
Mas a que propósito o trago aqui? Precisamente porque, num outro livro que publicou, intitulado (em inglês, e, tanto quanto sei, não foi traduzido)"Portugal, a Book of Folk Ways", que se poderia traduzir por "Caminhos do Folclore Português". Ora este livro faz em 2011 precisamente 75 anos que foi editado, o que é suficiente motivo para referir uma obra que dedicou várias páginas (pp. 171 a 175) à Festa de S. João de Sobrado. Deve-se-lhe, além disso, uma das imagens mais antigas que conhecemos dos Mourisqueiros sobradenses e um pequeno desenho inconfundível do Velho da Bugiada, o rei dos Bugios. Logo no prefácio, anota a singularidade e carácter único do caso do S. João de Sobrado ou quando escreve que "a Mouriscada de Sobrado e o Auto de Floripes não se encontram por aí em qualquer aldeia ou em qualquer dia do ano. Persistem como exemplos isolados de algo que pode ter estado mais generalizado no passado, mas que já não o está hoje".
A obra, editada pela Cambridge University Press, teve uma segunda edição em 1961, a qual contou com um subsídio do Instituto de Alta Cultura português. É ainda possível encontrar exemplares à venda, nas lojas online de livros usados. O seu autor foi um diplomata inglês que calcorreou Portugal em busca de tradições e músicas populares, de cujas recolhas nasceram vários livros. De resto percorreu igualmente a Espanha, especialmente o País Basco, e o México. Por Portugal andou no início dos anos 30, quando tinha pouco mais de 30 anos. Nasceu em 1901 e faceleu em 1948.

(Em próximos posts conto traduzir partes da sua escrita sobre a festa de S. João de Sobrado).

quinta-feira, dezembro 08, 2011

"O sonho de ser, um dia por ano, dono do mundo"

"O sonho é ir de bugio e a bugiada torna-o realidade. O sonho dos pobrs (e, como o sonhar também enche a barriga, contaram-me que, em Sobrado, um pai levava os filhos a dançar na bugiada para esquecerem a fome). Sonhos de momentos: danças, rituais insólitos, trajos inesperados, fantasias e sonoridades esquecidas. Castanholas e guizos. As cores berrantes, chamando a atenção: este é o meu sonho. E a máscara é presença omnipotente, chave da transmutação. /(Quem somos nós, que a vida é um instante?). Máscaras fantásticas, ocultando rostos. «Quem vai ali?» ninguém sabe, e o bugio não pára, a dançar, a dançar. A correr, a voar pela festa. «Ali vai a minha roupa de bugio». «Então emprestou a roupa?» «Pois! Ai que desgosto, ando aqui aleijado duma perna e num posso andar ós saltos. Bem me custa ver outros com a minha roupa e a minha máscara!». Perguntei a um bugio que descansava da corrida: «Foi você que fez o trajo?». «Eu num sei costurar, mandei-o fazer a uma costureira». «Há quatro anos que venho de bugio». Esta, sim, é a Festa. É o país dos encantamentos que resistem. É o sonho de ser, um dia por ano, dono do mundo. Feito bugio, escondido por detrás da máscara. É a alegrisa (e a dor?)". 
Helder Pacheco  
Nota sobre a Festa de S. João de Sobrado de 1986.
in O Grande Porto. [Novos Guias de Portugal]. Editorial Presença, Lisboa, 1986, p.165.
(No exemplar que me dedicou, o autor agradece o ter-lhe "desvendado o rosto desse país fantástico e terno que permanece na Bugiada de Sobrado").
(Crédito da foto: Marjoke Krom)

sábado, dezembro 03, 2011

A festa de S. João, as artes, os artistas

A riqueza antropológica, sociológica e estética da Festa de S. João de Sobrado, em todas as suas componentes, pode ser obecto de múltiplas abordagens. Há quem goste de investigar, de escrever, de conversar sobre a festa. Mas há (e pode haver muito mais) quem trate a festa do ponto de vista artístico - ficção, poesia, pintura, desenho, artes plásticas, música, design, multimédia. Algumas coisas começam a ser feitas, mas num estado ainda muito incipiente Como sonhar não custa, para além dos talentos que certamente existem em Sobrado e entre amantes da festa, porque não convidar artistas, escritores, ensaístas, para virem ver a festa e sobre ela criarem obras de arte?