domingo, fevereiro 19, 2012

Uma demissão "inabalável" da Comissão Administrativa da Junta, em 1937
Um caso que pode ter a ver com a festa de S. João

A história da Festa de S. João de Sobrado está, em grande medida, por fazer. E, deve dizer-se, não é tarefa fácil, já que não é uma tradição que se apoie, ao que se sabe, em grandes elementos escritos, a começar pela lenda, que é transmitida, em versões diferentes, de geração em geração. Mas difícil não quer dizer impossível e a verdade é que os arquivos onde se encontra a documentação sobre Sobrado ainda não foram passados a pente fino de forma sistemática.
Um desses sítios é o Arquivo Histórico Municipal de Valongo, que procedeu ao Inventário de grande parte do fundo documental  da Junta de Freguesia de Sobrado. E foi lá, precisamente que os técnicos daquele serviço encontraram um documento que pode ter interesse para a História da Festa de S. João de Sobrado. Trata-se de um ofício da Comissão Administrativa da Junta, datado de 27 de Junho de 1937 e relativo a uma reunião daquele órgão realizada no mesmo dia. É dirigido ao Administrador do Concelho e tem por objetivo nada mais nada menos do que pedir a demissão coletiva do órgão.
Essa medida drástica é tomada, salienta o ofício, "como protesto contra a atitude de um empregado dessa Câmara Municipal que teve a ousadia inqualificável de dar voz de prisão ao seu presidente".
A continuação do texto da missiva explica as circunstãncias e justifica a demissão:
"Porque há longos anos não cobrava esse Câmara direitos sobre os taberneiros, padeiros, doceiros, etc que ocorriam [sic] [a]os arraiais das romarias que no Largo do Passal, desta freguesia se realizam, entendeu o Snr Presidente desta Junta perguntar ao aludido funcionário quem o havia mandatado [para] proceder a tal cobrança, tendo sido nessa altura como dissemos insultado e ameaçado.Não obstantea muita consideração pela pessoa de V. Ex, é esta a resolução inabalável desta Comissão, tanto mais que sendo este Largo pertença exclusiva desta Junta, não compreendemos ou compreendemos mal que essa Câmara cobre direitos, nos arraiais que aí se realizam sem prévio conhecimento da mesma Junta.A Bem da Nação...".
Não sabemos se o pedido de demissão foi aceite ou se houve explicações e cedências e, consequentemente, recuo sobre a posição assumida. Deste documento, duas conclusões se podem, entretanto, extrair:
  • Apesar de o motivo imediato ter sido a arrogância e (aparentemente) má-educação do funcionário municipal, no modo como executou a ordem recebida, o fundo do problema parece ser uma imposição do Administrador do Concelho numa matéria em que a Junta entendia dever, pelo menos, ter sido ouvida;
  • O facto de o pedido de demissão ter sido tomado apenas três dias depois do dia de S. João aponta fortemente no sentido de que o facto que o motivou ocorreu no dia da Festa da Bugiada e Mouriscada e poderá (ou não) sugerir que a festa adquirira alguma projeção, do ponto de vista do número dos tendeiros e tasqueiros que se instalavam no Largo do Passal. 
(Poder-se-á perguntar por que razão uma posição deste tipo não ocorreu no dia imediato. Uma possível explicação é esta: no ano de 1937, o S. João caiu a uma quinta-feira. A sexta e o sábado eram dias normais de trabalho que, numa economia quase exclusivamente agrícola, é, nesta altura do ano, intenso. A reunião deste tipo de órgãos era então frequentemente feita ao domingo, como forma de não perturbar os trabalhos do campo).

NB - A grafia de algumas palavras do documento foi aqui atualizada.

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