domingo, junho 29, 2014

Rodízio - componente da Dança dos Mourisqueiros

[Clicar na imagem para ver o vídeo]



quinta-feira, junho 26, 2014

A festejar também se vive

Na véspera de S. João publiquei no Página 1, diário digital da Renascença o texto seguinte:

O património cultural português encerra, por vezes, manifestações que trazem pistas importantes
sobre como conviver e como comunicar saudavelmente em sociedade.
Conheço, desde pequeno, nos arredores do Porto, uma festa que põe durante um dia inteiro, mouros e cristãos a lutar, sem ser por isso uma festa violenta. É pouco dizer que a conheço desde criança. De facto, tal como muitos outras crianças, desde antes da escola que ela nos povoava o imaginário e nos punha a representá-la, a brincar e sonhar com ela, a falar dela, muitos antes e muito depois do dia da festa, o dia de S. João.
Ainda hoje isso acontece, apesar das brutais transformações da comunidade local dos últimos cinquenta anos, quanto aos estilos de vida, à economia e formas de trabalho, e às mentalidades e visões da vida e da sociedade.
A festa consegue falar eloquentemente de dimensões centrais e difíceis da vida quotidiana, sem quase precisar de palavras escritas ou ditas. Por exemplo: como resolver conflitos sem pegar tudo à paulada; como relacionar-se com quem é diferente sem pretender impor-lhe o que somos; como exercer e gerir o poder abrindo-o a quem merece tê-lo; ou, ainda, como viver com seriedade sem pôr de lado a crítica e o riso. A linguagem do mais complexo exprime-se e interpreta-se através do mais básico: o ritual, através da dança, da música, do ritmo e da cor.
Por um dia se recorda a memória dos tempos em que estas terras foram ocupadas pelos árabes; se faz a experiência de subverter e de refazer a ordem social; de pôr em cena pequenas peripécias dos trabalhos e dos dias, procurando linguagens para dizer quão profundas e quão mesquinhas elas por vezes se nos apresentam.

Falo da Festa da Bugiada e da Mouriscada de Sobrado, que acontece perto de Valongo, que conseguiu - e consegue ainda - não sem tensões e contradições, ressignificar-se nas condições da vida difícil dos tempos que correm, nomeadamente junto dos mais jovens. Para muitos vale o que aparece à superfície: uma banal luta entre o bem e o mal. Em Sobrado, porém, não é fácil dizer quem são os bons e quem são os maus. Porque os dois lados habitam cada um, numa tensão que se diria quase irresolúvel. Mais do que de bons e de maus, a Bugiada e a Mouriscada revela-nos, afinal, como pode conviver a identidade com a diferença. Não apenas conviver, mas também vivificar-se.

quarta-feira, junho 25, 2014

Chuva: uma das figuras centrais da Festa de 2014

A Bugiada de 2014 vista de dentro de um automóvel
Sim, a chuva complicou e preocupou, até ao fim das Danças de Entrada.
Sim, os penachos ficaram irreconhecíveis e muitos chapéus bastante danificados com a tinta das fitas dos penachos.
Sim, os guarda-chuvas foram um apetrecho com que ninguém conta andar no dia de S. João.
Mas nem as danças todas deixaram de se fazer. Nem os Mourisqueiros deixaram de levar os andores na procissão. Nem as pessoas deixaram de aparecer em grande número. Nada, apesar de tudo, que se comparasse com a festa de 1974, em que, também da parte de manhã, chuva forte fustigou Sobrado. Mas, nem aí, Bugios e Mourisqueiros ficaram em casa.
E, além disso, esteve uma tarde magnífica, sem chuva e com temperatura amena, permitindo terminar a festa em grande nível.

A água já caía do céu, mas, ainda assim, o Reimoeiro achou que devia benzer os seus homens

Guarda-chuva: uma das figuras da Festa de 2014



segunda-feira, junho 23, 2014

Para quem quer ir à festa e não conhece bem o caminho e os horários


Onde fica Sobrado?

Uma pesquisa no Google Maps resolve rapidamente o problema.
Sobrado fica num extenso vale banhado pelo rio Ferreira e atravessado pela estrada que liga Valongo - Campo - Lordelo - Paços de Ferreira.
Se usa GPS, tem, na coluna ao lado esquerdo deste blog as coordenadas.

Viajar de carro

Quem for de carro pode utilizar a A4 e sair em Campo. Fica a sensivelmente 3km do local da festa.
Outra forma é utilizar a A41 e sair diretamente em Sobrado.
Num e noutro caso, terá de deixar o carro num dos oito parques gratuitos disponibilizados para o efeito.

Há transporte público?

A estação mais cómoda é a de Valongo. Mas a distância a Sobrado ainda é e uns 5 km. Um táxi resolve a situação.
Há autocarros que servem Sobrado, idos do Porto:
- Gondomarense, na estação de camionagem do Campo 24 de Agosto;
- Pacense, qe parte de uma garagem situada ao cimo da Avenida dos Aliados, do lado esuerdo de quem sobe, mesmo ao lado da Câmara Municipal do Porto.
- VALPI - os autocarros desta empresa fazem serviço de Matosinhos para Sobrado.

Parques de estacionamento

Como ficou dito, de todas as estradas que conduzem ao centro da Vila e ao Passal - local principal das manifestações festivas - há oito parques de estacionamento gratuitos (e obrigatórios, já que os agentes da GNR não autorizarão a passagem das viaturas). Dentro da freguesia e a partir dos seus extrems Norte (Balsa) e Sul (Paço) haverá autocarros camarários que farão em permanência o trajeto para o Passal, passando junto dos parques que se situam ao longo da estrada 209.

Para quem não pode estar o tempo todo, que sugestões damos?

As Danças de Entrada, ao fim da manhã (entre as 12 e as 13h30), são um momento em que dá para apanhar o sabor da festa, ainda que se trate apenas de meros desfiles de apresentação de Bugios e Mourisqueiros. Nessa altura, poe observar também as cenas de crítica e sátira social aepisódios da vida local ou nacional e até internacional.
Se ficar até meio da tarde, pode assistir aos rituais agrícolas da sementeira, feitos em ordem inversa à que é comum. Por volta das 17, pode assistir à Dança do Cego, uma manifestação absolutamente surpreendente, mas que é para quem não se importe de apanhar uns salpicos de lama e passar por algumas surpresas e aventuras.
Quem puder comparecer apenas ao fim da tarde (a partir das 18h), apanhará o clímax da festa, com a Prisão e libertação do Velho da Bugiada, a luta entre castelos, a corrida das embaixadas, a Serpe e, no fim de tudo, a Dança do Santo, junto ao adro da igreja paroquial (ao fundo do Passal).
Boa festa.

Quem são os titulares de cargos na festa deste ano?

São os seguints os postos de responsabilidade na hierarquia de Bugios e Mourisqueiros, nesta Festa de 2014:



Como sabem os Sobradenses, não existem os postos de Meios nos Bugios dada a dimensão da Bugiada.

quinta-feira, junho 19, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (FIM)

Rodízio
Rodízio - Componente das danças dos Mourisqueiros caraterizada  morfologicamente pela formação de dois semicírculos que, a partir de um sinal, começam a rodar em sentido inverso, ao som de gritos produzidos pelos próprios Mourisqueiros e do toque acelerado da Caixa. A dado momento, cada fila abandona em corrida ligeira o espaço, dirigindo-se em sentidos opostos e regressando ao ponto inicial, restabelendo-se a formação habitual das duas filas paralelas.

Roubo ritual - Surge este termo associado à Festa em dois contextos. O primeiro é o da lenda: na posse da imagem de S. João, os Mouriscos procuraram apropriar-se dela, tendo nascido aí o conflito com os Bugios. O outro contexto refere-se à aceitação social de pequenos roubos (de doces, por exemplo) que alguns Bugios executavam recorrendo a dispositivos como o Sardão.

Sapateirada - É uma das partes da Festa de S. João de Sobrado, também conhecida por Dança do Sapateiro (ver esta expressão).

Dia dos Tremoços
Sardão - Um dos objetos que outrora eram mais comuns, transportados pelos Bugios, quando dançavam. Hoje é raro vê-los. Trata-se da imitação de lagartos (ainda que sem membros), com uma mola por dentro, a qual uma vez accionada, permitia ao sardão abrir e fechar a boca, podendo, assim, agarrar coisas.

Serpe - É uma figura central e decisiva no desfecho do conflito entre Bugios e Mourisqueiros e da própria festa. Trata-se de uma espécie de dragão, de tons esverdeados, língua vermelha e longa cauda, com um comprimento que andará entre os 3 e os 4 metros. Quando os Bugios se vêem derrotados pelos Mourisqueiros e com o seu rei levado prisioneiro, recorrem à Serpe e surpreendendo os Mouros no caminho, conseguem que eles, aterrorizados, abram brechas, permitindo a libertação do Velho, no meio de


grande correria.

O Velho da Bugiada
Tremoços (Dia dos) - Também conhecido por Beberete. Os antigos diziam antremoços. O Dia ocorre no final do 4º ensaio que tem lugar no último domingo antes da Festa de S. João. A Comissão deve fornecer aos Bugios e Mourisqueiros assim como aos tocadores tremoços, vinho e broa.  Nos últimos anos, em que o último ensaio tem decorrido em frente à Casa do Bugio, é nestas instalações que tem lugar o Beberete. E muita gente da comunidade que assiste ao ensaio aproveita também para confraternizar.

Velho da Bugiada - A par do Reimoeiro, o Velho da Bugiada é uma figura central da Festa de Sobrado, cabendo-lhe não apenas o papel de dirigir a Bugiada e suas danças, mas também de realizar uma série de outras tarefas, relacionadas com a construção dos Castelos, com o convite aos advogados e ao cavaleiro que vai correr as embaixadas, a designação dos que vão executar os diferentes papeis nos 'serviços' da tarde, relacionados com os trabalhos rituais de cunho agrícola e com a Dança do Cego. É um posto muito pretendido e de elevada carga simbólica.

quarta-feira, junho 18, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (8)

Polainas - Termo que designa as perneiras em couro, de cor preta, branca ou castanha, utilizadas pelos Mourisqueiros, como parte integrante do seu traje. Peça que protegia a parte da perna entre o pé e o joelho, afivelada por fora.

Pólvora - Utilizada nos Castelos Bugio e Mourisco, durante a Prisão do Velho. Com ela se enchem os 'canhões' ou mosquetes de carregar pela boca que, ao ser puxado o gatilho, produzem tiros potentes, ainda que inofensivos.

Prisão do Velho - Clímax da Festa da Bugiada e Mouriscada. Decorre ao fim do dia, cerca das 19 horas, nos dois castelos construídos no Passal. As cenas mais dramaticas e teatrais passam-se no Castelo Bugio, quando o Reimoeiro ali dá entrada e prende o seu homólogo.

Procissão - Culmina a parte religiosa da festa, que inclui igualmente a missa festiva.Tem a caraterística de serem os Mourisqueiros a transportar os andores dos santos, incluindo a imagem de S. João.

Rabos - São as posições da cauda (extremidade posterior) das duas  filas em que se organizam  Bugios e Mourisqueiros. Na hierarquia de cada formação, colocam-se em terceiro lugar, depois do Rei e dos Guias.


Ramo (entrega do) - Ato de passagem de testemunho da Comissão de Festas de um determinado ano à Comissão do
ano seguinte. É um momento festivo simbolizado na entrega de um ramo de um Juíz ou Juíza cessante ao seguinte. Tem lugar no adro da igreja, no final da Dança do Santo dos Bugios, já ao escurercer do dia, acompanhada pela Banda de Música.

Reimoeiro - Deturpação de Rei Moiro, no modo de falar local. É o líder dos Mourisqueiros e a ocupação do lugar significa normalmente o ponto culminante de um percurso iniciado vários anos antes.

terça-feira, junho 17, 2014

Câmara inaugura Centro de Documentação da Bugiada e Mouriscada


Tem lugar nesta quinta-feira, dia 21, à noite, o ato de inauguração do Centro de Documentação da Festa da Bugiada e Mouriscada, o qual ficará instalado nas antigas instalações do Centro Social e Cultural de Sobrado.
A Associação da Casa do Bugio ficará também associada a esta iniciativa, em moldes ainda a definir.
O Centro de Documentação é apresentado pelo site da Câmara Municipal de Valongo (CMV) como "um espaço interpretativo da festa, inserido no plano de salvaguarda do processo de candidatura à lista representativa do património cultural e imaterial, da Unesco". "Trata-se - salienta o site - de um polo agregador de informação temática e difusor da singular manifestação, contribuindo para que os visitantes de Sobrado compreendam a festa e sejam cativados a regressar no dia de S. João ou em qualquer outro dia do ano. Pretende-se ainda que a nova infraestrutura seja um centro destinado ao estudo e investigação da Bugiada e Mouriscada do S. João de Sobrado, assim como ponto de ligação com as suas congéneres festas de mouros e cristãos, a nível mundial".
A cerimónia de inauguração contará com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Valongo, José Manuel Ribeiro, e com o Presidente da Casa do Bugio, António Pinto. Estarão ainda presentes o Presidente da Entidade Regional de Turismo Porto e Norte de Portugal, Melchior Moreira, e o antropólogo Paulo Lima, coordenador da candidatura. Na ocasião será igualmente aberta ao público uma exposição intitulada "As Marias", da autoria de Claudia Oliveira e Júlio Oliveira, que tematiza aspetos da festa. O certame estará patente no local até 5 de Agosto.

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (7)

Música (Banda de) - Não haveria Festa da Bugiada e Mouriscada sem a Banda de Música. Ou, pelo menos, não haveria, com as caraterísticas que hoje tem. Mais do que isso: não pode ser qualquer banda. Tem de ser a de S. Martinho de Campo. Corre na vila que, num determinado ano, por qualquer razão, foi convidada a Música de Vilela. Quando começou a tocar para a Dança de Entrada, os Mourisqueiros não arancavam porque não se sentiam identificados com o que ouviam. Foi só quando chegou, chamada de urgência, a Banda de Campo que a Dança pôde começar. Além da Procissão, onde também seguem os Mourisqueiros, a Banda acompanha as Danças de Entrada, a condução das duas formações aos respetivos Castelos, a primeira fase do ataque dos Mourisqueiros, o momento após a Prisão do Velho ("Música da Paixão") e a entrega do ramo.

Orquestra - Também chamada Arroquesta é um termo hoje menos usada para designar o grupo de tocadores de rabecas e violas braguesas ou ramaldeiras que acompanham as danças da Bugiada.

Penachos
Paixão - É a palavra que designa o sentimento dos sobradenses relativamente à festa. Refere-se a um misto de amor, entrega, sofrimento e gozo que advém de participar ativamente na Festa, qualquer que seja o papel que nela se desempenhe, incluindo o de espectador, que é também sempre de comentador. Em boa verdade a palavra não é fácilmente traduzível, mas é sempre a resposta à pergunta: "porque é que participas nesta festa?".

Palanque - Nome que também se dá aos Castelos de Bugios e Mourisqueiros.

Plumas (Foto: M.J.Krom)
Passal - Espaço amplo de cerca de dois hectares, frondosamente arborizado por plátanos, situado entre o adro da igreja paroquial e a estrada principal, no centro da vila. É aqui que decorrem as principais manifestações da Festa da Bugiada e Mouriscada. É também, em certa medida, um espaço simbólico. Por exemplo: até às Danças de Entrada, nenhum Bugio ou Mourisqueiro pode atravessar o Passal. E mesmo os Mourisqueiros, quando vêm do 'Jantar' para a Procissão, são obrigados a aceder à igreja por carreiros antigos da propriedade da paróquia, de modo a evitar a entrada naquele espaço.

Penacho - Adorno do chapéu dos Bugios (com exceção do Velho da Bugiada que usa Barretina). Como o nome indica, é provavel que o penacho fosse outrora feito de penas. Hoje, e desde há muitas décadas, é construído com fitas multicolores de papel, algumas delas onduladas, atadas a um pau leve que, por sua vez é fixado num dos lados do chapéu.

Plumas - Em rigor, pluma significa pena. Na verdade, em Sobrado, as plumas são trabalhos de penas em tufo, que ornam a parte superior das barretinas do Reimoeiro, do Velho da Bugiada e de todos os Mourisqueiros. Ao contrário das berretinas destes, que têm duas plumas, as do Reimoeiro e do Velho têm três. Atendendo ao que se disse sobre o Penacho, não seria de estranhar que todos os Bugios e Mourisqueiros dançassem outrora com a cabeça enfeitada com penas.

domingo, junho 15, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (6)

Jantar - Parece um contra-senso, mas no S. João Sobrado, janta-se de manhã.  O 'banquete', que remete para o banquete da lenda da Festa, acontece por volta das 9h30 e é bem necessário para quem vai fazer um esforço hercúleo de dançar um dia inteiro, sob um sol por vezes escaldante, com máscara e sob roupas pesadas e quentes. Menu: canja, cozido à portuguesa e, antes de tudo, muito refresco. Mourisqueiros e Bugios comem em lugares separados e pouco tempo coincidem no mesmo local: quase só o tempo suficiente para um primeiro gesto de animosidade: de cada lado, o rei envia uma delegação ao outro lado, com uma giga de ofertas onde constam ossos, cornos, toros de hortaliça crua, cascas de batata, entre outros mimos. Desde a construção da Casa do Bugio, é aí que decorre este repasto, antecedido e seguido por danças. Outrora esta refeição tinha lugar na casa do juíz da festa ou em algum espaço por ele arranjado.

Juiz - É alguém que se dispõe a organizar a Festa no ano seguinte, constituindo uma comissão de colaboradores e presidindo aos respetivos trabalhos.A lista dessas pessoas é, por norma, anunciada no final da missa de festa do ano anterior e as funções de juíz cessam formalmente ao transmitir o cargo à Comissão seguinte, sinbolizada na entrega de um ramo, acompanhado pela banda de música, no adro da igreja paroquial. Nos últimos tempos, tem havido um sobradense há décadas radicado no Brasil - Generoso Ferreira das Neves - que, por promessa, tem sido o Juíz de cinco em cinco anos, nos anos termimados em zero ou em cinco.

Lavra da Praça - É uma das partes em que se estrutura a Festa de S. João de Sobrado. É constituída por quatro manifestações, todas elas ritualizando - em ordem inversa à natural - fases dos trabalhos agrícolas: colher os 'dreitos', semear, gradar e lavrar. Decorrem a partir das 15h00, partindo e regressando de uma casa particular, em Campelo, com percurso pelo Passal. Os papeis são executados por lavradores mascarados, apoiados por uma junta de jumentos. Em rigor, não tem muito que ver com a Bugiada e Mouriscada e as suas características levaram alguns antropólogos a formular a hipótese de que as partes da Festa sobradense não estiveram sempre associadas no mesmo dia. 

Máscara -  O mesmo que careta. Este disfarce e instrumento de transfiguração tem um lugar central na festa e é utilizado em todas as manifestações e por todos os intervenientes, com exceção dos Mourisqueiros. Acreditava-se que a máscara confere capacidades e poderes especiais a quem a usa e há histórias locais que o documentam. Merece aqui destaque um pormenor que passa despercebido a muita gente: todos usam a mesma máscara no dia da festa, com uma exceção: o Velho da Bugiada. Este usa uma máscara alegre da parte da manhã, e uma máscara de cunho trágico da parte de tarde, associada à perseguição e captura de que será objeto.

Mata-bicho - Era o copo de agua-ardente, mais umas bolachas, que em tempos passados, cada rei dava aos seus 'homens', quando estes se dirigiam, ao romper do dia, às respetivas residências, para uma saudação e uma dança. Hoje o mata-bicho é um pouco mais abundante, com doces e salgados, e bebidas de vários tipos.

Meios - É o par de Mourisqueiros que dançam a meio das filas da Mouriscada. Os dois dançam com os que lhes estão à ilharga, dançam entre si e dançam com o Reimoeiro quando, a certa altura da dança, são 'batidos' por ele. Por norma, entrar como Meio significa iniciar um percurso ascendente que leva, sete anos depois, a chegar a Reimoeiro. Dada a dimensão da Bugiada - largas centenas de participantes - não existe o lugar de Meio.

Mouriscada -  É o conjunto dos Mourisqueiros, sob o comando do Reimoeiro. Está estruturada em duas filas, com dois Guias à cabeça, dois Rabos na extremidade e dois Meios, como o nome indica, a meio. O facto de serem apenas jovens solteiros, de usarem espada, polainas e uma barretina semelhante à que usavam as tropas napoleónicas confere aos Mouriscos um ar militar e de tropa bem organizada.

Mourisqueiro - É o membro da Mouriscada. Só podem ir de Mourisqueiros jovens solteiros. Nos tempos em que a estrutura da comunidade local assentava na economia agrícola e em que havia casas de lavradores, mais ou menos abastadas, caba a cada casa destas 'apresentar' um Mourisqueiro.

sexta-feira, junho 13, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (5)

Embaixadas (Correr as) - Na parte inicial da Prisão do Velho, quando Bugios e Mourisqueiros sobem aos respetivos castelos, e quando se começam a ouvir os canhões, um cavaleiro vestido de mourisco, mas sem barretina, percorre múltiplas vezes o trajeto de um a outro pólo do conflito, uma mão na rédea e outra na espada, levando e trazendo mensagens, na mira de se conseguir a paz. A isso se chama Correr as Embaixadas.

Ensaio - O ensaio dos Bugios e Mourisqueiros ocorre nos quatro domingos anteriores à festa, ao fim da tarde. Vâo "à civil" e sem máscara. Os Bugios levam castanholas e os Mourisqueiros um pau ou cana a fazer de espada (no último ensaio, os mouriscos acrescentam uma faixa vermelha no peito, em diagonal). Nos bastidores muita coisa se passa, entretanto: no final dos ensaios dos dois primeiros domingos Guias e Rabos dos Bugios anotam o nome dos interessados em exercer funções como Semeador, Cego, Lavrador, Moço do Cego, Sapateiro, Moço do Sapateiro e Mulher do Sapateiro, personagens que vão "Colher os Dreitos", entre outros. A decisão é tomada e comunicada pelo Velho, coadjuvado pelos seus Guias e Rabos, no final do terceiro ensaio.

Entrajadas - Ver Estardalhadas

Espadim - Tem dimensão um pouco menor do que a espada e é utilizada por todos os Mourisqueiros, incluindo o Reimoeiro. Do copo do espadim pende um lenço branco.

Estardalhadas
Estardalhadas - São mais uma componente da Festa de S. João de Sobrado e a única que varia de ano para ano. É constituída por indivíduos ou grupos de mascarados que procuram satirizar e pôr a nu acontecimentos e peripécias da vida local (com a influência dos media, passou a ser frequente caricaturar também acontecimentos de âmbito nacional e internacional). Surgem de livre iniciativa e constituem sempre uma surpresa para todos, visto que não carecem de fazer qualquer inscrição prévia. Aparecem, habitualmente, na Casa do Bugio, aquando do jantar da festa, transitam, de seguida, para a zona onde têm início as Danças de Entrada, e desfilam a seguir aos Bugios. Nos últimos anos, tem-se instituído o hábito de alguns destes grupos, que se movimentam em carrinhas, tratores ou camiões, lançarem sacos e espumas com água sobre os circunstantes. gerando-se em alguns sítios, veradadeiras batalhas (simbólicas),que refrescam em dia que é, frequentemente, de muito calor, mas não agradam a todos.

Farda - Termo usado para referir os trajes usados por Bugios e Mourisqueiros. As fardas dos Bugios são de cada um ou então, emprestadas ou alugadas; as dos Mourisqueiros são pertença da Casa do Bugio.

Guias - São as duas posições mais destacadas nas formações de Bugios e Mourisqueiros. Correspondem aos 'cabeças de fila' de uma e outra formação. No caso dos Mourisqueiros, quem vai de Guia será o Reimoeiro dos anos seguintes.
Guizos

Guizos - Objetos metálicos arredondados e ocos, com uma abertura e uma pequena bola de metal no interior. Agitados, funcionam como pequenos chocalhos. Além do uso em animais, em muitas culturas, do Oriente e da América Latina (México, por exemplo), decoram vestes rituais ou os tornozelos de dançarinos. Em Sobrado são usados como adorno, dependurados no traje dos Bugios. Daí que a Bugiada ao dançar produza sonoridades exóticas que dão colorido à algazarra que já de si carateriza esta formação.

quinta-feira, junho 12, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (4)

Cuca Macuca - designação que toma a serra de Santa Justa, na lenda que está subjacente à Festa de S. João de Sobrado. A origem do nome não se encontra devidamente estudado. É conhecido quer do lado de Valongo quer do lado de Gondomar. Na serra de Cuca Macuca habitavan, segundo a lenda, os mouros, dedicando-se à extração de ouro.

Dança da Jaquina - Nome que se deu a uma manifestação da Festa, já desaparecida e que é ainda mal conhecida. Segundo o testemunho do sobradense Generoso Ferreira das Neves, esse número fazia-se nos anos 50, antes de ele emigrar para o Brasil e constava do seguinte: depois das danças de Entrada e antes da recolha dos direitos, um mascarado agarrado a uma figura vestida de mulher, de pernas para o ar, dava a volta ao Passal, fazendo o percurso comum a outras manifestações deste dia. O caracter erótico da cena terá originado tensões na comunidade e poderá ter estado na origem da sua extinção.

Dança de Entrada - Em rigor deve dizer-se Danças de Entrada, já que correspondem à apresentação
Velho da Bugiada - Dragonas sobre os ombros
sequencial quer dos Mourisqueiros dos Bugios, quer dos Bugios na zona principal da festa e têm passos distintos nuns e noutros. Têm lugar ao fim da manhã e partem da zona da capela das Alminhas. A Banda de S. Martinho de Campo conduz cada agrupamento até Campelo, após o que os Mourisqueiros são acompanhdos pelo rufar da caixa e os Bugios pelo toque da 'orquestra' de rabecas e violas, até junto da entrada do adro, onde os respetivos reis os abençoam com água benta.


Dança do Cego - Também conhecida por Sapateirada. Apesar do nome, não se trata de uma dança, mas de uma representação de cunho primitivo que põe em cena dois grupos de personagens: o Sapateiro, a sua Mulher (fiandeira) e o moço, e, do outro lado, o Cego e o seu Moço. Todos vão mascarados. O que é representado em diferentes sítios do Passal é, no essencial, o rapto da Mulher do Sapateiro por parte do Moço do Cego e a luta do visado por reaver aquela que ele se vangloriava de nunca o trair. O que mais chama a atenção, na Sapateirada, é o aspergir dos circunstantes com lama e excrementos e o jogo entre atores e espectadores uns por os sujar e os outros por lhes fugir. É uma das partes antropologicamente mais densas desta Festa.

Dança do Doce - Dança que Mourisqueiros e Bugios, por esta ordem e em separado,  executam no átrio da residência paroquial, a meio da tarde, após  o que o pároco é obrigado por tradição a dar um copo de vinho e um doce típico local a cada participante. Os Mourisqueiros dançam esta dança sem a barretina (provavelmente um vestígio decorrente do facto de, até há um pouco mais de uma década atrás, o espaço estar coberto por uma ramada que não dava altura suficiente para utilizar aquele elemento da indumentária).

Dança do SantoDança que Mourisqueiros e Bugios, por esta ordem e em separado,  executam em frente ao adro da igreja paroquial, ao fundo do Passal, ao fim do dia, após a Prisão e libertação do Velho da Bugiada.

Dança do SobreiroDança que Mourisqueiros e Bugios, por esta ordem e em separado,  executam depois das Danças de Entrada, ao cimo do Passal, do lado Sul. Todas as danças aqui referidas têm a mesma estrutura e morfologia, demorando cada agrupamento de 30 a 45 minutos.

Dragonas - Eram peças metálicas de uniformes militares de altas patentes colocadas sobre os ombros, das quais pendiam franjas de fios de seda ou ouro. Na Festa de S. João as dragonas integram o traje dos reis: do Reimoeiro e do Velho da Bugiada, conferindo-lhes autoridade e prestígio.

terça-feira, junho 10, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (3)

Casa do Bugio - Associação criada em Sobrado em 1993, com a finalidade de preservar e promover a Festa de S. João de Sobrado e tudo o que com ela se relacione. Cabe-lhe realizar a Festa, sempre que não surgir uma Comissão com Juíz e Mordomos, e, por norma, de cinco em cinco anos. No âmbito das suas atribuições, a Associação é detentora do bem patrimonial imaterial da Festa, em nome dos Sobradenses, cabendo-lhe igualmente os direitos de imagem, devidamente registados. A designação Casa do Bugio refere-se igualmente ao edifício que foi construído fora da povoação, na estrada municipal que liga Sobrado a Alfena. De dimensões avultadas, destina-se, entre outras funções, a acolher os Mourisqueiros e os Bugios no 'jantar' do dia 24 de Junho.

Castanholas - Instrumento de percussão normalmente de madeira constituído por duas partes côncavas
e ligadas entre si, é usado na Festa de S. João de Sobrado por cada um dos Bugios, com exceção do Velho da Bugiada, como forma de expressão e para marcar o ritmo de algumas danças. Muitas das castanholas usadas em Sobrado continuam a ser executadas localmente. Em muitos casos as castanholas são ornadas com motivos diversos, nomeadamente rabos de coelho.

Castelos - Também conhecidos por palanques.  São estruturas de madeira construídas ad hoc no sábado anterior à Festa, e constituídas por um esqueleto de toros de pinho cortados na ocasião, encimados por um estrado à altura de uns 2,5 metros. O estrado é rodeado de um corrimão igualmente de toros de pinho em três dos lados, ficando desguarnecido o quarto. São instalados no Passal, perto do coreto: o dos Bugios junto à estrada principal e, na direção da igreja, a cerca de 50 metros, o dos Mourisqueiros. É nestes castelos que decorre a Prisão do Velho, altura em que o castelo Bugio acolhe igualmente a Serpe, por debaixo do estrado, por entre a folhagem.

Colher os Dreitos - É o primeiro acto dos rituais agrícolas que decorrem após a hora de almoço, cerca das 15 horas. Um Bugio montado ao contrário num burro e rodeado por múltiplos Bugios, percorre o Passal, recolhendo as contribuições ou impostos (os 'dreitos') junto dos feirantes. À medida que recebe esses direitos (uma bebida, um doce ... ou apenas umas trocas de palavras jocosas), o que monta o jumento vai 'descarregando' o encargo num grosso livro, usando um pau como caneta e o cu do burro como tinteiro.

Comedeira (farda) - Diz-se de uma 'farda' ou traje de Bugio já poída de tanto ter sido usada. O nome advém, segundo se diz na Vila, dos "tempos da fome": os mais pobres, que nem dinheiro tinham para um almoço melhorado no dia de S. João, usavam essas fardas velhas como passe de entrada no jantar servido aos Bugios e Mourisqueiros logo no começo do dia. E assim, além de matarem a Paixão na dança, enchiam a barriga de canja e de um cozido à portuguesa. 

Comissão da Festa - É constituída por um juíz e por diversos mordomos, provenientes de diferentes lugares da Vila. É de livre iniciativa do Juíz, o qual, em alguns casos, assume a função por promessa. Até há alguns anos, com um número de Bugios manifestamente inferior ao atual, cabia ao Juiz nomear o Velho da Bugiada desse ano, algo que já não acontece hoje em dia. Compete, no entanto, à Comissão, superintender numa série de tarefas relacionadas sobretudo com gestão do arraial, a contratação dos grupos que o animam, arruamentos e fogo de artifício, contratação da Banda e da GNR, organização de peditórios e outras iniciativas de angariação e fundos, etc. No passado, a pertença às Comissões era sobretudo tarefa masculina, mas nas últimas décadas, as mulheres passaram também a integrá-las e, em 2012, aconteceu mesmo que houve não apenas uma Juíza, mas toda a Comissão foi constituída por mulheres.

segunda-feira, junho 09, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (2)


Cabidela (dia da) - Almoço de confraternização dos Bugios com que terminam os trabalhos de recolha dos pinheiros e tábuas para a construção dos castelos dos Bugios e Mourisqueiros, tudo isto sob cordenação geral do Velho da Bugiada, feito no último sábado antes da Festa, que é também véspera do último ensaio. Tem lugar por norma num restaurante local ou numa casa previamente combinada. É pago pelos comensais e participado pelo Velho, Guias a Rabos e outros colaboradores. Tradicionalmente, o prato desse dia é arroz de cabidela.

Caixa - Tambor, instrumento acústico feito de uma caixa em forma cilíndrica com peles tensas dos
dois lados, tocada com baquetas e que acompanha todas as danças dos Mourisqueiros com excepção das marchas (Dança de Entrada, entrada no castelo e desfile que antecede o ataque ao castelo Bugio). O termo designa também a pessoa que toca o tambor.

Canhão - Arma de carregar pela boca, tipo espingarda, normalmente de fabrico local, utilizado exclusivamente nos castelos de Bugios e Mourisqueiros, durante o combate entre uma e outra formação, na altura da Prisão do Velho. É carregado com pólvora seca e disparado para o ar, produzindo apenas estrondo. Existe um controlo apertado quer de quem manuseia a pólvora quer de quem pode utilizar o 'canhão' para ir ao castelo dar tiros.

Capa - Parte do traje dos Bugios, utilizada sobre os ombros da parte de manhã do dia da Festa e por debaixo de um dos braços da parte de tarde. Pode ser de várias cores, embora predominem os tons avermelhados escuros.

Campelo - Lugar central da Vila de Sobrado, junto ao qual se situa o Passal e que é palco das principais manifestações da Festa da Bugiada e Mouriscada.

Capela das Alminhas - Minúscula capela setecentista sobradense, situada junto à estrada principal que liga Valongo a Paços de Ferreira. É nessa zona, a cerca de 300 metros para o lado Norte de Campelo, que têm lugar algumas das apresentações das Estardalhadas e, sobretudo, onde se formam e iniciam as Danças de Entrada. É tambem nesta Capela que dá a volta a procissão do dia de Festa, cerca do meio-dia.

Careta - O termo tradicionalmente mais usado em Sobrado para designar a máscara utilizada pelos Bugios, pelos protagonistas das Estradalhadas e de todos os rituais agrícolas da tarde, bem como da Dança do Cego. Outrora era feita de peles, madeira, cortiça, papel, metal, etc. O plástico tornou-se o material mais comum nos tempos que correm. Dizia-se, antigamente, que uma boa máscara de Bugio era aquela que fosse "feia, mas que fizesse rir".
(continua)