quinta-feira, dezembro 22, 2011

Rodney Gallop (1) - A Dança dos Mourisqueiros em 1932

Setenta e cinco anos depois de Rodney Gallup ter publicado a descrição antiga mais completa sobre a Festa de S. João de Sobrado, inicia-se aqui a publicação da parte respeitante a esta tradição, que vem no seu livro "Portugal, a Book of Folk Ways". Depois de apresentar danças mouriscas, danças de espadas e, em geral, danças rituais de diversas partes de Portugal, incluindo a Dança dos Pauliteiros, Rodney Gallop inicia a apresentação da Festa de S. João de Sobrado. Desta forma:
"Mais marcial na aparência é a extraordinária performance, que, sobre o nome promissor de Mouriscada, sobrevive ainda em Sobrado, perto de Valongo, e que mantém dois dos elementos que já desapareceram da procissão de S. João em Braga. Chegamos à aldeia de Sobrado pelas 6 horas da tarde do dia de S. João de 1932. Um largo relvado descia ligeiramente da estrada principal em direcção à igreja branca que se destacava de uma colina arborizada ao fundo, fulgurando sob os oblíquos raios de sol. Algumas tendas alinhavam-se a um canto, dominando uma atmosfera geral de rústica folia. Caminhando na direcção da igreja demo-nos conta de que a performance já tinha começado. Com espadas em riste, no punho das quais lenços brancos haviam sido atados, os Mouriscos estavam a dançar no quinteiro da casa do padre. Usavam fatos de algodão de cor clara com botões dourados e cintos vermelhos e faixas. Traziam na cabeça barretinas de cartão de cerca de 30 centímetros de altura, das quais pendiam pequenos espelhos, galões dourados e encimado por plumas vermelhas. Organizados em duas linhas compridas, de rostos graves e sérios, dançavam nos seus lugares, enquanto o seu rei, que se distinguia pelo uso de correntes douradas e dragonas, saltava de uma ponta para a outra da linha, dançando à vez com cada um dos pares dos seus homens. Uma figura cómica vestida de fato-macaco azul e com uma máscara feita de cortiça seguia-o pelo lado de fora imitando todos e cada um dos seus movimentos. A certa altura as duas linhas [de Mourisqueiros] desfazem-se, enrolam-se uma na outra como em espiral e disparam em direcções opostas. A única música consistia no monótono rufar do tambor que combinava com o silêncio e ar decidido dos dançarinos, a emprestar ao seu desempenho uma qualidade estranhamente sinistra, como que a pressagiar uma explosão de selvageria primitiva.(...)".
Rodney Gallop (1936/1961), Portugal a Book of Folk Ways. Cambridge University Press, pp. 171-172 [Continua]

terça-feira, dezembro 20, 2011

As origens militares das barretinas

Os trajes dos Mourisqueiros têm demasiadas parecenças com as fardas dos soldados napoleónicos e é provável que essa influência seja efectiva, no caso da Mouriscada. Um dos elementos importantes para essa comparação é certamente a chamada Barretina - uma forma cilíndrica debruado a cetim, rodeada de espelhos e encimada por plumas. O que se segue não é necessariamente nem vestígios da farda napoleónica nem sequer apenas traje francês. O formato e as plumas ou os seus vestígios surgem em várias outras tradições militares e algumas delas já são apenas peças de museu. Mas são importantes para contextualizar a nossa própria tradição (a imagem de comparação da festa de Sobrado é a que surge na foto em cima, à esquerda, neste blogue).

(Estas imagens foram seleccionadas a partir de uma pesquisa do termo "Shako" no Google Images. Aí se podem encontrar os sites de origem das fotos.

terça-feira, dezembro 13, 2011

Blog 'Bugios e Mourisqueiros': sete anos de vida

Não é um número redondo, mas é, digamos, um número bíblico: este blogue acaba de atingir sete anos de existência e de persistência (e não é propriamente por falta de material que não é mais assíduo na actualização). Em outros tempos, atingir os sete anos significava atingir a capacidade do "uso da razão". Será?
O objectivo que temos procurado concretizar não é apenas informar e reflectir sobre a Festa e outros aspectos com ela relacionados. Ao fazê-lo temos consciência de estar a criar um repositório e uma memória da Festa, o que, numa tradição popular que é tão parca em documentação histórica, é de grande relevância. Acresce que outros espaços congéneres que, em anos recentes, surgiram, desapareceram, entretanto. Os 330 posts até agora publicados aí estão, à consulta de quem se interessar.
Justifica-se, neste contexto, que dê a conhecer alguma informação acerca de quantos são e de onde vêm os visitantes deste espaço da Festa na Internet:
Registam-se até este momento, cerca de 39 mil visitas, das quais 2.500 oriundas do Brasil (cerca de 6,5%), seguido da França, com cerca de 870 (2,5%), dos Estados Unidos da América (441, equivalente a 1,15%) e da Espanha (352, ou seja 0,9%).
Os meses de Junho atingem sempre picos elevados de visitas, mas nunca como este ano, em que durante o mês da Festa 3474 pessoas vieram aqui parar. Nos restantes períodos do ano, a média ronda os 500 visitantes por mês.
Três em cada quatro visitantes descobrem ou demandam o blog Bugios e Mourisqueiros através de sites de pesquisa, dos quais aquele que é esmagadoramente mais utilizado (96%) é, naturalmente, o Google. O Facebook, certamente por causa do grupo específico criado em 2010, e a Wikipedia, por causa dos artigos que referenciam a festa, lideram os sítios de onde se chega a este blogue.
Obrigado pela visita!

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Rodney Gallop - este nome diz-lhe alguma coisa?
Nos 75 anos de "Portugal, a Book of Folk Ways"

Provavelmente o nome Rodney Gallop não diz nada ao leitor. É possível que venha a ouvir falar dele se se concretizar a candidatura do "cante alentejano" a património imaterial da Humanidade, já que ele foi um dos etnógrafos que recolheu vários dos exemplares dessa forma de música popular, nomeadamente em "Cantares do Povo Português".
Mas a que propósito o trago aqui? Precisamente porque, num outro livro que publicou, intitulado (em inglês, e, tanto quanto sei, não foi traduzido)"Portugal, a Book of Folk Ways", que se poderia traduzir por "Caminhos do Folclore Português". Ora este livro faz em 2011 precisamente 75 anos que foi editado, o que é suficiente motivo para referir uma obra que dedicou várias páginas (pp. 171 a 175) à Festa de S. João de Sobrado. Deve-se-lhe, além disso, uma das imagens mais antigas que conhecemos dos Mourisqueiros sobradenses e um pequeno desenho inconfundível do Velho da Bugiada, o rei dos Bugios. Logo no prefácio, anota a singularidade e carácter único do caso do S. João de Sobrado ou quando escreve que "a Mouriscada de Sobrado e o Auto de Floripes não se encontram por aí em qualquer aldeia ou em qualquer dia do ano. Persistem como exemplos isolados de algo que pode ter estado mais generalizado no passado, mas que já não o está hoje".
A obra, editada pela Cambridge University Press, teve uma segunda edição em 1961, a qual contou com um subsídio do Instituto de Alta Cultura português. É ainda possível encontrar exemplares à venda, nas lojas online de livros usados. O seu autor foi um diplomata inglês que calcorreou Portugal em busca de tradições e músicas populares, de cujas recolhas nasceram vários livros. De resto percorreu igualmente a Espanha, especialmente o País Basco, e o México. Por Portugal andou no início dos anos 30, quando tinha pouco mais de 30 anos. Nasceu em 1901 e faceleu em 1948.

(Em próximos posts conto traduzir partes da sua escrita sobre a festa de S. João de Sobrado).

quinta-feira, dezembro 08, 2011

"O sonho de ser, um dia por ano, dono do mundo"

"O sonho é ir de bugio e a bugiada torna-o realidade. O sonho dos pobrs (e, como o sonhar também enche a barriga, contaram-me que, em Sobrado, um pai levava os filhos a dançar na bugiada para esquecerem a fome). Sonhos de momentos: danças, rituais insólitos, trajos inesperados, fantasias e sonoridades esquecidas. Castanholas e guizos. As cores berrantes, chamando a atenção: este é o meu sonho. E a máscara é presença omnipotente, chave da transmutação. /(Quem somos nós, que a vida é um instante?). Máscaras fantásticas, ocultando rostos. «Quem vai ali?» ninguém sabe, e o bugio não pára, a dançar, a dançar. A correr, a voar pela festa. «Ali vai a minha roupa de bugio». «Então emprestou a roupa?» «Pois! Ai que desgosto, ando aqui aleijado duma perna e num posso andar ós saltos. Bem me custa ver outros com a minha roupa e a minha máscara!». Perguntei a um bugio que descansava da corrida: «Foi você que fez o trajo?». «Eu num sei costurar, mandei-o fazer a uma costureira». «Há quatro anos que venho de bugio». Esta, sim, é a Festa. É o país dos encantamentos que resistem. É o sonho de ser, um dia por ano, dono do mundo. Feito bugio, escondido por detrás da máscara. É a alegrisa (e a dor?)". 
Helder Pacheco  
Nota sobre a Festa de S. João de Sobrado de 1986.
in O Grande Porto. [Novos Guias de Portugal]. Editorial Presença, Lisboa, 1986, p.165.
(No exemplar que me dedicou, o autor agradece o ter-lhe "desvendado o rosto desse país fantástico e terno que permanece na Bugiada de Sobrado").
(Crédito da foto: Marjoke Krom)

sábado, dezembro 03, 2011

A festa de S. João, as artes, os artistas

A riqueza antropológica, sociológica e estética da Festa de S. João de Sobrado, em todas as suas componentes, pode ser obecto de múltiplas abordagens. Há quem goste de investigar, de escrever, de conversar sobre a festa. Mas há (e pode haver muito mais) quem trate a festa do ponto de vista artístico - ficção, poesia, pintura, desenho, artes plásticas, música, design, multimédia. Algumas coisas começam a ser feitas, mas num estado ainda muito incipiente Como sonhar não custa, para além dos talentos que certamente existem em Sobrado e entre amantes da festa, porque não convidar artistas, escritores, ensaístas, para virem ver a festa e sobre ela criarem obras de arte?

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Entre 1750 e 1880:
danças da Bugiada também em Valongo


Ao longo de bem mais de cem anos, Valongo foi palco de uma grande festa que dois autores valonguenses, Francisco Ribeiro Seara e Lopes dos Reis, consideraram a "festa popular mais importante e mais signficiativa" do concelho e que incluía uma Dança da Bugiada.
Tive oportunidade de me referir a este facto aquando do acto comemorativo dos 175 anos da criação do concelho de Valongo, que decorreu na passada terça-feira, dia 29 de Novembro, numa iniciativa da Câmara Municipal, através do Arquivo Histórico do Município. E estou, naturalmente, a referir-me à festa de Santo António dos Almocreves, que tinha o seu momento alto no segundo domingo de Julho.
Que tradição era esta, então?

Uma festa dos almocreves

Podemos dizer que almocreve era o comerciante que, sozinho ou em grupo, percorria por vezes longos trajectos para levar e trazer mercadoria e, desse modo, assegurar o abastecimento dos aglomerados populacionais mais significativos. Desde a Idade Média até épocas não muito longínquas eles foram, no dizer de Borges de Macedo (1), «a coluna vertebral dos transportes internos».
A festa nasceu em 1750, no contexto de uma grande epidemia que começou a dizimar os animais de carga que eram "a alma de negócio" dos muitos almocreves de Valongo.
Ora, desde muito cedo, Valongo foi terra de almocreves que iam além-Marão e até ao Alentejo para abastecer as moagens de trigo e centeio e assim permitir a a panificação de que vivia boa parte da cidade do Porto. Já a Corografia Portugueza, publicada pela primeira vez em 1708, observava que Valongo (e mantemos a escrita da época) “[…) he povo grande e arruado habitado de muitas padeiras que sustentão o Porto de pão que elas lá levão a vender, e de muitos almocreves, que vivem de conduzir de muitas légoas o trigo para suas mulheres cozerem" (2).
Temos, pois, que a economia de Valongo vivia, em boa medida, dos almocreves e da panificação. E, aos olhos destes comerciantes Santo António foi decisivo para debelar o mal que deu nas bestas, pelo que decidiram honrá-lo e festejá-lo à altura do 'milagre' obtido.

Sumária descrição dos festejos

Seguindo a descrição que da festa faz, em 1904, o autor de "A Villa de Valongo", o P. Joaquim Alves Lopes dos Reis (3), os festejos arrancavam ainda no mês de Junho, na véspera de S. Pedro, dia em que se tornou tradição sair o Bando , que era um grupo de homens montados em jericos, à frente do qual seguia um pregoeiro a anunciar o programa que aí vinha. Mas era na quarta-feira anterior ao segundo domingo de Julho que o ambiente de folgança começava a animar-se. Nesse dia um burro percorria as ruas da terra distribuindo archotes que seriam usados na Cavalhada, na véspera da festa à noite. Esta Cavalhada metia bandas de música seguidas de cavaleiros com tochas a arder, o que deveria tornar o cortejo motivo de atracção. Houve quem visse neste acto um vestígio da procissão de agradecimento dos almocreves a Santo António.
No domingo da Festa, logo ao nascer do Sol, formava-se em casa do Juiz a Bugiada. Ao mais velho no ofício cabia designar o Juiz novo que era procurado e trazido na situação em que se encontrasse. Após isso, servia-se um lauto almoço. Deduz-se da descrição que nos chegou que havia, neste momento, a Dança dos Bugios. Só depois dela é que se formava o Tambo, um cortejo que se dirigia à igreja paroquial, onde se realizavam cerimónias religiosas. Findas estas, voltava a dançar a Bugiada em frente ao templo, a que se seguia o jantar. Diz-nos Lopes dos Reis que esta Dança da Bugiada junto à igreja era especialmente querida da população local, tal como a música que a acompanhava, a qual (a exemplo do que acontece em Sobrado, nos nossos dias) não podia ser tocada sem que as pessoas começassem a dançar também. Pelos vistos, a Dança da Bugiada de Santo António dos Almocreves tornou-se de tal modo marca da festa e valorizada pela população que havia gente importante que fazia questão de participar. E só quando a festa começou a decair é que a dança passou a ser participada sobretudo pela, digamos assim, arraia miúda.
A festa prosseguia na segunda-feira com o Jantar dos Cozinheiros participado por todos os que, de algum modo, tinham concorrido para a organização. E eram esses que, no fim do repasto, iam pelas ruas da vila, trajados de modo exótico (à turco, dizia-se), executando a Dança dos Odres. Dois dias depois, na quarta-feira,  a festa encerrava, finalmente, com actos na igreja, um jantar, desta vez pago já pelo Juíz novo, à porta do qual a Bugiada voltava a dançar pela terceira e última vez. Nesse dia à tarde, voltava-se a juntar muita gente da terra e de fora, porque havia como que a apoteose, com uma série de danças e entremeses, uma boa dúzia delas. À noite, ainda se realizava a Entrega do Santo, no qual, além dos membros das Cavalhadas, participava a mulher do Juiz velho, acompanhada de moças que empunhavam velas acesas.

Dois comentários

Este é um quadro rápido e sumário de uma festa rica e complexa que merecia ser mais investigada e estudada. Resta fazer duas ou três observações a propósito.
Em primeiro lugar, a festa entra em decadência na segunda metade do século XIX e acaba mesmo em 1880. E porquê? Lopes dos Reis não aborda o assunto, mas eu atrevo-me a deixar uma possível explicação. Em 1872, o Governo adjudica a construção da Linha (ferroviária) do Minho, a qual é aberta à circulação até Braga em 1875. Neste mesmo ano, entra em funcionamento um primeiro tramo da Linha do Douro, entre Ermesinde e Penafiel. A partir de então, estava aberta uma forma mais rápida e segura de viajar e fazer circular a mercadoria. O caminho de ferro, que representou um progresso extraordinário, representou o atestado de morte aos almocreves, pelo menos, nas zonas servidas pela rede ferroviária. O município de Valongo é, todo ele, à excepção de Sobrado, atravessado pelo comboio. Nesta nova situação, com os almocreves em crise e certamente á procura de novas formas de subsistência, não houve Santo António que lhes valesse e, assim, a festa desapareceu. Um pormenor curioso: as danças mais características da festa de Santo António, essas a população não as deixou desaparecer tão rapidamente: começaram a ser apresentadas na festa do padroeiro da vila de Valongo, S. Mamede. E isso prolongou-se por muitos anos.
A segunda observação é, naturalmente para chamar a atenção para uma série de sinais de aproximação entre a Festa de Santo António dos Almocreves de Valongo e o S. João de Sobrado. Claro: desde logo pelas danças da Bugiada e pelo papel de relevo que tinham na festa valonguense. Mas também pela música e o carinho que esta despertava na população e, finalmente, pelas "papeladas", que eram habitualmente, formas (escritas) de crítica social. De tudo isto encontramos algo em Sobrado. Muitas danças de Valongo, de resto, aparentam-se com manifestações típicas descritas nas procissões de Corpus Christi. O que me leva, de novo, a deixar no ar a hipótese de, tanto alguns aspectos das danças e lutas de Sobrado como várias das danças de Valongo poderem, em alguma fase do seu desenvolvimento, ter tido algum tipo de presença em alguma das procissões de Corpus que se fazia nesta região (nomeadamente no Porto e em Penafiel).
Muito que investigar e que estudar, por conseguinte.

Referências
(1) Borges de Macedo, J. "Almocreve" in Dicionário de História de Portugal (dir. de Joel Serrão)
(2) Costa, Ant. Carvalho da  (1708) Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal, vol. II
(3) Reis, J. Alves Lopes dos  (1904) A Villa de Valongo. Porto:  Typographia Coelho (a vapor).

quarta-feira, novembro 30, 2011

Santo André de Sobrado

Hoje é dia de Santo André, desde tempos imemoriais o padroeiro de Sobrado. Desde há anos que se restabeleceu o costume de, com simplicidade, festejar o santo, na paróquia.
Já ouvi e li quem afirmasse que o padroeiro de Sobrado é S. João. De facto, assim parece, dada a projecção da festa sanjoanina. Mas Sobrado não é caso único, nisto de dar mais destaque à evocação de uma figura religiosa que não o patrono.
Santo André era irmão de São Pedro e, por conseguinte seria também pescador. O seu nome ( em grego "ανδρεία", andreía) pode traduzir-se por "hombridade" ou "coragem". Terá sido ele a apresentar Cristo, como o Messias, a seu irmão Pedro.
Poderíamos, assim, dizer que Santo André de Sobrado festeja sobretudo o S. João, mas não esquece Santo André.

terça-feira, novembro 29, 2011

Uma festa espanhola património da humanidade

As festas da Mare de Déu de la Salut (Mãe de Deus da Saúde), da localidade de Algemesí (ao sul de Valencia, leste de Espanha) acabam de ser reconhecidas pela UNESCO como património da humanidade, na mesma sessão em que também o fado mereceu essa honra.
Trata-se de facto de uma festa riquíssima, como se pode ver aqui e aqui.
Mas quem conhece a festa de Sobrado não deixará de concluir que também ela encerra potencialidades para merecer esse reconhecimento, se não sozinha pelo menos enquadrada nas festas e rituais de máscaras ibéricos, um património de facto de inestimável valor.
Para tal, muito há que fazer ainda, não apenas no que diz respeito ao pesado e complexo processo da candidatura, mas, eu eu diria, sobretudo no cuidado e qualificação que a própria festa deve merecer. Há pequenas coisas que dizem respeito não só aos que mais directamente intervêm na festa, como em todos os que a ela assistem que muito podem contribuir para a dignidade e beleza da Bugiada e Mouriscada. Conto desenvolver este assunto em próximos posts.

sábado, novembro 26, 2011

Cultura popular e a Bugiada nos 175 anos do Concelho

Nesta terça-feira, dia 29, a Câmara Municipal de Valongo, através do Arquivo Histórico Municipal, evoca os 175 anos da criação do Concelho, com uma cerimónia simbólica de hasteamento da bandeira e uma conferência alusiva à data, centrada nas tradições do âmbito do município.
Caberá ao autor destas linhas a abordgem do tema  "Cultura popular tradicional do Concelho de Valongo: entre o passado e o futuro" e, claro, a Festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado não poderia deixar de ter aí lugar de destaque. 
Estes actos ocorrem no edifício que acolhe o Museu e Arquivo Histórico Municipal, nas antigas instalações da Câmara, a partir das 15 horas, sendo a entrada livre.
Perguntar-se-á: porquê neste dia? Uma nota da Câmara Municipal explica a razão:
"A 6 de Novembro de 1836, a rainha de Portugal, D. Maria II, assina o decreto que criava o concelho de Valongo. Publicado a 29 de Novembro, o decreto reduzia de 871 para 351 os concelhos do país".

(Gravura: Praça Machado Dos Santos. Pintura de Sousa Pinto)

quinta-feira, novembro 24, 2011

Valorizar e estudar as máscaras

A ideia que tinha de que muita da força da Festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado reside na máscara - é, de resto, este elemento que une as diversas facetas da Festa sobradense - é reforçado por uma conclusão apresentada recentemente por Sofia Maciel, uma estudiosa das máscaras transmontanas.
Nos estudos de que resultou a sua tese de doutoramento, defendida em 2008 e intitulada "Máscaras transmontanas - dos contrastes antropológicos às confluências filosóficas", fica a ideia de uma enorme densidade e complexidade em torno da compreensão deste objecto material, mas sobretudo simbólico, quando ela escreve (pp. 333-334):

"O mundo de relações simbólicas em que se inscrevem as máscaras não permite que delas se elabore um discurso acabado; pelo contrário, por mais esforço que tenhamos feito na vontade de as explicar completamente, há nelas determinadas características – opacidade, flexibilidade, duplicidade e ubiquidade – que funcionam como obstáculos à obtenção de um conhecimento exaustivo".
Como observa Sofia Maciel, no universo simbólico em que as máscaras e os mascarados operam, "os símbolos são mais reais que o simbolizado". As máscaras "configuram uma realidade que significa em qualquer tempo e lugar, acompanhando os homens, ao longo do tempo, na relação consigo próprios, os outros e o mundo; por estas razões, elas são testemunhos vivos da história da cultura e do pensamento".

Curiosamente, a autora intitula o seu capítulo de conclusões deste modo: «A Máscara, um objecto “bom para pensar”». A meu ver, esta ideia é muito sugestiva e desafiante, na medida em que a "opacidade, flexibilidade, duplicidade e ubiquidade" das caretas, atrás sublinhadas, em lugar de fecharem a possibilidade do pensamento, espicaçam a interrogação e a indagação acerca da perene necessidade da máscara não apenas como instrumento de 'não identificação', mas de 're-presentação' e de transfiguração individual e colectiva.
Também por isso é que continuo a achar que, se queremos valorizar a festa de S. João de Sobrado, será necessário valorizar bastante mais as máscaras, em particular aquelas que poderíamos designar por "máscaras de função", ou seja, aquelas que são usadas tanto pelo Velho da Bugiada, Guias, Meios e Rabos, como as que são utilizadas nos rituais agrícolas e na Dança do Cego. Há, de resto, um sinal de que esta matéria é bem mais importante do que parece: poucos se apercebem que, já hoje e desde há muito tempo, a máscara utilizada pelo Velho, na parte da manhã, não é a mesma que ele traz aquando da ida para o castelo e até ao fim da guerra, prisão e libertação. Por alguma razão será, não?

A tese  "Máscaras transmontanas - dos contrastes antropológicos ás confluências filosóficas" encontra-se acessível em regime livre no Repositorium da Universidade do Minho: AQUI
(Crédito da imagem: Máscara de Freixeda, de Salsas, Bragança, publicada na tese referida).

quinta-feira, novembro 17, 2011

Festa será estudada num doutoramento de Estudos Culturais

A festa de S. João de Sobrado vai ser o mote para duas aulas no Curso de Doutoramento em estudos Culturais, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, em Braga.
Inseridas na unidade curricular de Comunicação Intercultural, as aulas versarão sobre "Festa, luta e comunicação: a Bugiada e Mouriscada de Sobrado" (25 de Novembro); e "Dinâmicas e contradições das culturas tradicionais num mundo global" (2 de Dezembro).
Enquanto que, na primeira sessão, será feita uma descrição da festa, apoiada num filme, procurando inventariar dimensões e categorias relevantes de análise, na segunda procurar-se-á aprofundar algumas dessas dimensões e categorias.

quinta-feira, outubro 27, 2011

Comissão de Festas 2012 é notícia no JN

O JN de domingo passado dá destaque ao facto de a Comissão da próxima festa de S. João de Sobrado ser apenas constituída por pessoas do sexo feminino, sob a coordenação da engª Lúcia Lourenço. Vêm de um sem-número de actividades profissionais, deitaram já mãos à obra (a próxima iniciativa é a sarrabulhada, a que aqui fizemos já refereência) e mostram-se confiantes de que a a festa vai continuar a ser o sucesso que tem sido. A Comissão criou também uma página própria no Facebook: AQUI.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Carpintaria: memórias de uma arte

"Carpintaria: memórias de uma arte" é o título e tema de uma exposição que abre no próximo sabado, ao fim da tarde, na sede da Junta de Freguesia de Sobrado.
O certame reúne peças de ferramenta de um tipo de artesanato que está hoje praticamente desaparecido, sendo de especial interesse para as actividades pedagógicas das escolas, mas aberta a todos os interessados, da vila, do concelho e de fora dele.
Desta iniciativa não directamente ligada à festa de S. João se faz aqui menção por duas razões: em primeiro lugar por ela resultar de uma parceria da Junta com a Casa do Bugio; e, em segundo lugar, por sublinhar um aspecto comum à Festa da Bugiada e Mouriscada: a necesidade e urgência de preservar e promover a memória da comunidade sobradense e, quem sabe, de lançar as bases para futuras unidades museológicas na vila, antes que o que resta se perca definitivamente.

sexta-feira, outubro 14, 2011

Movimenta-se a festa de 2012


A Comissão de Festas de 2012 do S. João de Sobrado organiza mais um evento, destinado ao convívio dos sobradenses (e não só sobradenses), bem como à angariação de fundos para promover uma festa do próximo ano. Desta vez, será uma sarrabulhada, em data que se espera já com a temperatura própria desta época do ano: dia 5 de Novembro, pelas 20 horas, na Casa do Bugio.