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quinta-feira, janeiro 26, 2012

Mouriscada: “Um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna"

Neste post, gostaria de sublinhar alguns aspectos interessantes e curiosos que ressaltam do relato e análise da Festa de S. João de Sobrado feita por Rodney Gallup, no livro "Portugal, a Book of Folk Ways".
Importa observar, antes de mais, que o autor só viu uma parte da festa. Chegando a Sobrado, naquele S. João de 1932 (vai fazer agora 80 anos), pelas 18 horas, decorria aquela que hoje é conhecida como a Dança do Doce. A festa, tendo um certo aparato, era uma tradição pacata, não mobilizando, longe disso, as dezenas de milhares de pessoas que hoje movimenta. Era uma festa simples de aldeia, com meia dúzia de tendas alinhadas a um canto do Passal. Tudo o que o autor descreve relativamente ao que já se tinha passado até àquela hora deve-lhe ter sido contado por habitantes locais ou por quem conhecia a tradição de Sobrado.
É, além disso, interessante observar que, nesta festa, Gallop se sente sobretudo atraído pelos Mourisqueiros. De resto, seguindo uma tradição que também se encontrou em Sobrado, sempre designa esta festa por Mouriscada. Os Bugios são descritos como primitivos e rudes, menos marciais, aprumados e organizados do que o adversário.
Nas danças não se nota nada de especialmente relevante comparativamente com o que hoje ocorre. Apenas chama a atenção a “figura cómica vestida de fato-macaco azul e com uma máscara feita de cortiça”, que seguia o Reimoeiro pelo lado de fora das filas “imitando todos e cada um dos seus movimentos”. Esta figura cómica há muito desapareceu, se é que não se tratou de um caso isolado daquele ano.
Quanto aos trajes, é de referir os fatos de cor clara e os cintos vermelhos dos Mourisqueiros, bem como os trajes dos Bugios, muitos deles alugados em figurinistas de teatro do Porto. De destacar o caso do Velho da Bugiada que levava “um manto eclesiástico de rico damasco encarnado debruado a ouro, com uma dobra sobre os ombros”, escolhido “de entre as vestes ou adereços da igreja”.
As máscaras são um terreno importante em que se registam diferenças relativamente à atualidade. Não é que Galllop faça uma grande descrição sobre como elas eram. Apenas ficamos a saber que algumas representavam caras de animais. Nesta matéria, o que é de facto uma novidade é que o líder da Bugiada só colocava a máscara aquando da Prisão do Velho. Vale a pena chamar aqui a atenção para o facto de que o colocar a máscara significava que um outro momento/tempo iria ter lugar. Isso ainda hoje acontece, através da mudança de máscara, na parte da tarde.
Outra diferenças pode ser encontrada no texto aqui citado: o facto de haver dois embaixadores a correr as embaixadas (e não um, como vem acontecendo nas últimas décadas).
Rodney Gallop aventura-se nos difíceis caminhos da interpretação dos significados desta tradição popular. A sua visão tem a vantagem de provir de um profundo conhecedor das tradições musicais e de dança de diferentes partes do mundo. Destaca-se aqui a sua ideia de que as tradições do dia de S. João de Sobrado não nasceram todas ao mesmo tempo, antes são “um aglomerado de diferentes aspectos, os quais nem todos estiveram sempre ligados”. A outra ideia é que, para além daquilo que se vê – das danças e das lutas – o que se pretende tematizar e representar são os mistérios da sementeira e da fertilidade da terra, a luta pela subsistência, a morte e a ressurreição.
O autor sugere também que aquilo que se vê nesta freguesia pode ter tido inspiração em tradições como o S. João (ou o Corpus) de Braga, nas danças de espadas que surgem em várias outras tradições portuguesas e estrangeiras (recentemente estudadas por Barbara Alge) ou em tradições anteriores, que tenham dado origem a todas estas .
Nos adereços dos Bugios vê Gallop vestígios de “agrupamentos medievais de dançarinos” (assim como poderíamos dizer que os adereços dos Mouriscos se ligam a algumas fardas das tropas napoleónicas dos inícios do século XIX).
Seja como for, é tudo isto que, para este autor inglês, faz do S. João de Sobrado “um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna".

(Crédito da foto:  Marjoke Krom , 2007)

quarta-feira, junho 04, 2008

Danças mouriscas no Norte de Portugal: tese de doutoramento de Bárbara Alge

Uma tese de doutoramento sobre a Festa de S. João de Sobrado e mais duas festas tradicionais do Norte de Portugal foi defendida em 31 de Janeiro deste ano por Barbara Alge na Universidade de Viena, Áustria.
Intitulada "O Mouro na Imaginação de Comunidades Rurais do Norte de Portugal - Um Estudo de Danças Dramáticas em Contextos Religiosos", a dissertação, de perto de 500 páginas (acompanhada de dezenas de fotos e de um DVD) encontra-se escrita em alemão e vai ser em breve publicada. Uma cópia para a Associação da Casa do Bugio foi já prometida pela autora.
Fica aqui o resumo da tese de Bárbara Alge:

Baseada em pesquisas de campo levadas a cabo pela autora entre 2004 e 2007, esta dissertação, escrita ema alemão, estuda performances de cristãos e mouros em festas religiosas no Norte de Portugal: a festa do São João Baptista chamada “Bugiada” em Sobrado a 24 de Junho de 2005, a Festa dos Caretos, em Torre de Dona Chama, a 26 de Dezembro de 2005 e o Auto da Floripes, em Neves, a 5 de Agosto de 2006.
Apesar de se distinguir no que respeita à forma, – porque se trata duma dança, dum drama de luta e dum teatro popular –, estas performances podem ser atribuídas ao género performativo da “mourisca”. A autora usa o termo “dança dramática” para todas as formas estudadas.
A “mourisca” é uma dança dramática, por vezes ritual, muitas vezes processional, de carácter exótico, e em parte com elementos guerreiros. Também pode ser uma representação teatral duma luta entre cristãos e mouros. Nas suas diferentes formas, as mouriscas são encontradas na Europa e noutros continentes devido a processos de colonização. Em Portugal, a mourisca, na sua variante duma batalha entre cristãos e mouros, é hoje encontrada sobretudo no Norte do país. A dissertação concentra-se nesta variante.
Diferentes autores deduzem a mourisca duma dança dos mouros. Uma análise da literatura sobre este fenómeno cultural demonstra que danças dramáticas com alguma relação com os mouros são associadas ao termo “mourisca”.
No entanto, o termo “mouro”, em Portugal, não designa apenas os mouros históricos da Península Ibérica, mas é um termo complexo, cujas significações são explicadas nesta tese.
A dissertação parte da hipótese que o “mouro” como lembrança duma figura da história de Portugal (o mouro histórico), assim como mito (“o tempo dos mouros”) e como figura projectiva (imaginário local, lendas) ainda se encontra no imaginário de comunidades rurais no Norte de Portugal, e que este facto também se manifesta nas danças dramáticas de mourisca.
A introdução da tese de doutoramento apresenta a história dos mouros na Península Ibérica e a política cultural em Portugal e explica o processo de composição desta obra.
A parte principal da tese divide-se numa parte etnográfica em que os resultados do trabalho de campo são apresentados, numa parte com uma análise crítica da literatura, e numa parte em que os termos “mouro” e “mourisca” são analisados com base na primeira e segunda parte.
As conclusões são deduzidas duma análise da parte principal e discutem-se as seguintes questões: 1) Porque é que a mourisca é associada ao mouro?, 2) O mouro pode ser utilizado como unidade significante numa comparação de mouriscas?, e 3) Porque é que o imaginário do mouro e performances de mourisca se encontram no Norte de Portugal actualmente?
No contexto da questão 2 é demonstrado que o mouro das variantes de mourisca estudadas apresenta características formais e semânticas apesar de diferentes contextos de realização. Estas características correspondem em parte a observações feitas por outros autores em Espanha e no México. A questão 3 discute o Como e o Porquê da transmissão dos fenómenos culturais estudados. Pontos importantes são a liderança com o passado histórico e a criação da identidade nacional e local.
Os anexos contêm um glossário de palavras portuguesas, transcrições musicais e coreográficas, o texto do Auto da Floripes, correspondência pessoal com informantes, a agenda das pesquisas de campo da autora, uma bibliografia com obras referidas e consultadas, uma lista das ilustrações e a descrição do DVD de acompanhamento.
O manuscrito da dissertação contem 490 páginas (1,5 espaço entre linhas), 48 fotografias e outras ilustrações, assim como um DVD de acompanhamento ilustrando as performances.