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terça-feira, junho 23, 2015

Sabia que...? (curiosidades sobre o S. João de Sobrado)


  • A máscara do Velho da Bugiada não é sempre a mesma ao longo do dia da festa? É verdade: da parte da tarde a máscara alegre dá lugar à máscara dramática, para o combate, o assalto ao castelo e a prisão e libertação do Velho.
  • O Rodízio, que é parte da coreografia das danças dos Mourisqueiros também fazia parte das danças dos Bugios. Provavelmente pelo número dos participantes, essa parte só se realiza nos ensaios e não no dia da festa (o que quer dizer que, de algum modo, o ensaio é mais completo do que a própria festa)
  • Antigamente, era frequente haver Bugios que levavam urtigas para passar nas pernas das raparigas, quando as mulheres não usavam calças. O roubo de doces e não só, através da manipulação de sardões articulados, também era mais ou menos tolerado.
  • A mais antiga descrição que se conhece do S. João de Sobrado foi publicada em inglês, em 1936, e foi escrita por um diplomata e etnógrafo – Rodney Gallop - que deve ter visitado a festa por volta de 1930.
  • Esse autor descreve um pormenor hoje inexistente nas danças da Bugiada: por fora das filas de Bugios, dançava um mascarado vestido com uma roupa tipo fato macaco, a gozar com os que dançavam a sério.
  • Antes do 25 de Abril era proibido as mulheres irem de Bugio. Mas isso não impedia bastantes de se vestirem de tal modo que ninguém descobrisse (às vezes via-se bem, mas fazia-se vista grossa). O único problema é que não podiam ir ao jantar, por não ser fácil comer de máscara posta.
  • Há pessoas que vieram de propósito de Lisboa para ver o S. João de Sobrado, passaram pela noitada do Porto ejá não tiveram genica para dar um salto à Mouriscada e Bugiada.
  • Conta-se que no tempo da fome (ou seja, no tempo da guerra) uma família tinha muitos filhos e não tinha pão para lhes dar. O pai levava-os para o monte e punha-os a dançar a Bugiada … para lhes enganar a fome.
  • Os Mourisqueiros foram durante anos apresentados como os infiéis, os maus da fita. Mas, se assim é, porque são eles que levam os andores na procissão e não os cristãos?
  • As Entrajadas ou Críticas, que aparecem no 'jantar' e acompanham até ao fim das Danças de Entrada, são a única parte da festa que muda todos os anos e que ninguém controla, a não ser os próprios.
  • Nessas Entrajadas, tem havido anos em que se dão a conhecer casos e situações da vida real que, de outro modo, não veriam a luz do dia e que a máscara permite. É verdade que também já tem havido aproveitamentos abusivos.
  • A Festa só recentemente (17.5.2012) foi reconhecida como património cultural imaterial de interesse municipal, ainda que já fosse ela a determinar o feriado do Município de Valongo.
Foto: reprodução de painel da EB 2-3 de Sobrado.

segunda-feira, junho 22, 2015

Um pequeno guia da festa

Está disponível uma pequena brochura que é talvez o guia da festa mais resumido e mais à mão. Numa página refere-se à vila de Sobado, noutra à festa e noutra ainda à apresentação de Bugios e Mourisqueiros. As restantes são ocupadas com a sumária descrição das partes mais importantes da festa, com a indicação do respetivo horário (tanto quanto, já que horários muito rigorosos são sempre difíceis nesta festa).


Aceder à brochura (e eventualmente imprimir): AQUI

quinta-feira, junho 19, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (FIM)

Rodízio
Rodízio - Componente das danças dos Mourisqueiros caraterizada  morfologicamente pela formação de dois semicírculos que, a partir de um sinal, começam a rodar em sentido inverso, ao som de gritos produzidos pelos próprios Mourisqueiros e do toque acelerado da Caixa. A dado momento, cada fila abandona em corrida ligeira o espaço, dirigindo-se em sentidos opostos e regressando ao ponto inicial, restabelendo-se a formação habitual das duas filas paralelas.

Roubo ritual - Surge este termo associado à Festa em dois contextos. O primeiro é o da lenda: na posse da imagem de S. João, os Mouriscos procuraram apropriar-se dela, tendo nascido aí o conflito com os Bugios. O outro contexto refere-se à aceitação social de pequenos roubos (de doces, por exemplo) que alguns Bugios executavam recorrendo a dispositivos como o Sardão.

Sapateirada - É uma das partes da Festa de S. João de Sobrado, também conhecida por Dança do Sapateiro (ver esta expressão).

Dia dos Tremoços
Sardão - Um dos objetos que outrora eram mais comuns, transportados pelos Bugios, quando dançavam. Hoje é raro vê-los. Trata-se da imitação de lagartos (ainda que sem membros), com uma mola por dentro, a qual uma vez accionada, permitia ao sardão abrir e fechar a boca, podendo, assim, agarrar coisas.

Serpe - É uma figura central e decisiva no desfecho do conflito entre Bugios e Mourisqueiros e da própria festa. Trata-se de uma espécie de dragão, de tons esverdeados, língua vermelha e longa cauda, com um comprimento que andará entre os 3 e os 4 metros. Quando os Bugios se vêem derrotados pelos Mourisqueiros e com o seu rei levado prisioneiro, recorrem à Serpe e surpreendendo os Mouros no caminho, conseguem que eles, aterrorizados, abram brechas, permitindo a libertação do Velho, no meio de


grande correria.

O Velho da Bugiada
Tremoços (Dia dos) - Também conhecido por Beberete. Os antigos diziam antremoços. O Dia ocorre no final do 4º ensaio que tem lugar no último domingo antes da Festa de S. João. A Comissão deve fornecer aos Bugios e Mourisqueiros assim como aos tocadores tremoços, vinho e broa.  Nos últimos anos, em que o último ensaio tem decorrido em frente à Casa do Bugio, é nestas instalações que tem lugar o Beberete. E muita gente da comunidade que assiste ao ensaio aproveita também para confraternizar.

Velho da Bugiada - A par do Reimoeiro, o Velho da Bugiada é uma figura central da Festa de Sobrado, cabendo-lhe não apenas o papel de dirigir a Bugiada e suas danças, mas também de realizar uma série de outras tarefas, relacionadas com a construção dos Castelos, com o convite aos advogados e ao cavaleiro que vai correr as embaixadas, a designação dos que vão executar os diferentes papeis nos 'serviços' da tarde, relacionados com os trabalhos rituais de cunho agrícola e com a Dança do Cego. É um posto muito pretendido e de elevada carga simbólica.

quarta-feira, junho 18, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (8)

Polainas - Termo que designa as perneiras em couro, de cor preta, branca ou castanha, utilizadas pelos Mourisqueiros, como parte integrante do seu traje. Peça que protegia a parte da perna entre o pé e o joelho, afivelada por fora.

Pólvora - Utilizada nos Castelos Bugio e Mourisco, durante a Prisão do Velho. Com ela se enchem os 'canhões' ou mosquetes de carregar pela boca que, ao ser puxado o gatilho, produzem tiros potentes, ainda que inofensivos.

Prisão do Velho - Clímax da Festa da Bugiada e Mouriscada. Decorre ao fim do dia, cerca das 19 horas, nos dois castelos construídos no Passal. As cenas mais dramaticas e teatrais passam-se no Castelo Bugio, quando o Reimoeiro ali dá entrada e prende o seu homólogo.

Procissão - Culmina a parte religiosa da festa, que inclui igualmente a missa festiva.Tem a caraterística de serem os Mourisqueiros a transportar os andores dos santos, incluindo a imagem de S. João.

Rabos - São as posições da cauda (extremidade posterior) das duas  filas em que se organizam  Bugios e Mourisqueiros. Na hierarquia de cada formação, colocam-se em terceiro lugar, depois do Rei e dos Guias.


Ramo (entrega do) - Ato de passagem de testemunho da Comissão de Festas de um determinado ano à Comissão do
ano seguinte. É um momento festivo simbolizado na entrega de um ramo de um Juíz ou Juíza cessante ao seguinte. Tem lugar no adro da igreja, no final da Dança do Santo dos Bugios, já ao escurercer do dia, acompanhada pela Banda de Música.

Reimoeiro - Deturpação de Rei Moiro, no modo de falar local. É o líder dos Mourisqueiros e a ocupação do lugar significa normalmente o ponto culminante de um percurso iniciado vários anos antes.

terça-feira, junho 17, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (7)

Música (Banda de) - Não haveria Festa da Bugiada e Mouriscada sem a Banda de Música. Ou, pelo menos, não haveria, com as caraterísticas que hoje tem. Mais do que isso: não pode ser qualquer banda. Tem de ser a de S. Martinho de Campo. Corre na vila que, num determinado ano, por qualquer razão, foi convidada a Música de Vilela. Quando começou a tocar para a Dança de Entrada, os Mourisqueiros não arancavam porque não se sentiam identificados com o que ouviam. Foi só quando chegou, chamada de urgência, a Banda de Campo que a Dança pôde começar. Além da Procissão, onde também seguem os Mourisqueiros, a Banda acompanha as Danças de Entrada, a condução das duas formações aos respetivos Castelos, a primeira fase do ataque dos Mourisqueiros, o momento após a Prisão do Velho ("Música da Paixão") e a entrega do ramo.

Orquestra - Também chamada Arroquesta é um termo hoje menos usada para designar o grupo de tocadores de rabecas e violas braguesas ou ramaldeiras que acompanham as danças da Bugiada.

Penachos
Paixão - É a palavra que designa o sentimento dos sobradenses relativamente à festa. Refere-se a um misto de amor, entrega, sofrimento e gozo que advém de participar ativamente na Festa, qualquer que seja o papel que nela se desempenhe, incluindo o de espectador, que é também sempre de comentador. Em boa verdade a palavra não é fácilmente traduzível, mas é sempre a resposta à pergunta: "porque é que participas nesta festa?".

Palanque - Nome que também se dá aos Castelos de Bugios e Mourisqueiros.

Plumas (Foto: M.J.Krom)
Passal - Espaço amplo de cerca de dois hectares, frondosamente arborizado por plátanos, situado entre o adro da igreja paroquial e a estrada principal, no centro da vila. É aqui que decorrem as principais manifestações da Festa da Bugiada e Mouriscada. É também, em certa medida, um espaço simbólico. Por exemplo: até às Danças de Entrada, nenhum Bugio ou Mourisqueiro pode atravessar o Passal. E mesmo os Mourisqueiros, quando vêm do 'Jantar' para a Procissão, são obrigados a aceder à igreja por carreiros antigos da propriedade da paróquia, de modo a evitar a entrada naquele espaço.

Penacho - Adorno do chapéu dos Bugios (com exceção do Velho da Bugiada que usa Barretina). Como o nome indica, é provavel que o penacho fosse outrora feito de penas. Hoje, e desde há muitas décadas, é construído com fitas multicolores de papel, algumas delas onduladas, atadas a um pau leve que, por sua vez é fixado num dos lados do chapéu.

Plumas - Em rigor, pluma significa pena. Na verdade, em Sobrado, as plumas são trabalhos de penas em tufo, que ornam a parte superior das barretinas do Reimoeiro, do Velho da Bugiada e de todos os Mourisqueiros. Ao contrário das berretinas destes, que têm duas plumas, as do Reimoeiro e do Velho têm três. Atendendo ao que se disse sobre o Penacho, não seria de estranhar que todos os Bugios e Mourisqueiros dançassem outrora com a cabeça enfeitada com penas.

domingo, junho 15, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (6)

Jantar - Parece um contra-senso, mas no S. João Sobrado, janta-se de manhã.  O 'banquete', que remete para o banquete da lenda da Festa, acontece por volta das 9h30 e é bem necessário para quem vai fazer um esforço hercúleo de dançar um dia inteiro, sob um sol por vezes escaldante, com máscara e sob roupas pesadas e quentes. Menu: canja, cozido à portuguesa e, antes de tudo, muito refresco. Mourisqueiros e Bugios comem em lugares separados e pouco tempo coincidem no mesmo local: quase só o tempo suficiente para um primeiro gesto de animosidade: de cada lado, o rei envia uma delegação ao outro lado, com uma giga de ofertas onde constam ossos, cornos, toros de hortaliça crua, cascas de batata, entre outros mimos. Desde a construção da Casa do Bugio, é aí que decorre este repasto, antecedido e seguido por danças. Outrora esta refeição tinha lugar na casa do juíz da festa ou em algum espaço por ele arranjado.

Juiz - É alguém que se dispõe a organizar a Festa no ano seguinte, constituindo uma comissão de colaboradores e presidindo aos respetivos trabalhos.A lista dessas pessoas é, por norma, anunciada no final da missa de festa do ano anterior e as funções de juíz cessam formalmente ao transmitir o cargo à Comissão seguinte, sinbolizada na entrega de um ramo, acompanhado pela banda de música, no adro da igreja paroquial. Nos últimos tempos, tem havido um sobradense há décadas radicado no Brasil - Generoso Ferreira das Neves - que, por promessa, tem sido o Juíz de cinco em cinco anos, nos anos termimados em zero ou em cinco.

Lavra da Praça - É uma das partes em que se estrutura a Festa de S. João de Sobrado. É constituída por quatro manifestações, todas elas ritualizando - em ordem inversa à natural - fases dos trabalhos agrícolas: colher os 'dreitos', semear, gradar e lavrar. Decorrem a partir das 15h00, partindo e regressando de uma casa particular, em Campelo, com percurso pelo Passal. Os papeis são executados por lavradores mascarados, apoiados por uma junta de jumentos. Em rigor, não tem muito que ver com a Bugiada e Mouriscada e as suas características levaram alguns antropólogos a formular a hipótese de que as partes da Festa sobradense não estiveram sempre associadas no mesmo dia. 

Máscara -  O mesmo que careta. Este disfarce e instrumento de transfiguração tem um lugar central na festa e é utilizado em todas as manifestações e por todos os intervenientes, com exceção dos Mourisqueiros. Acreditava-se que a máscara confere capacidades e poderes especiais a quem a usa e há histórias locais que o documentam. Merece aqui destaque um pormenor que passa despercebido a muita gente: todos usam a mesma máscara no dia da festa, com uma exceção: o Velho da Bugiada. Este usa uma máscara alegre da parte da manhã, e uma máscara de cunho trágico da parte de tarde, associada à perseguição e captura de que será objeto.

Mata-bicho - Era o copo de agua-ardente, mais umas bolachas, que em tempos passados, cada rei dava aos seus 'homens', quando estes se dirigiam, ao romper do dia, às respetivas residências, para uma saudação e uma dança. Hoje o mata-bicho é um pouco mais abundante, com doces e salgados, e bebidas de vários tipos.

Meios - É o par de Mourisqueiros que dançam a meio das filas da Mouriscada. Os dois dançam com os que lhes estão à ilharga, dançam entre si e dançam com o Reimoeiro quando, a certa altura da dança, são 'batidos' por ele. Por norma, entrar como Meio significa iniciar um percurso ascendente que leva, sete anos depois, a chegar a Reimoeiro. Dada a dimensão da Bugiada - largas centenas de participantes - não existe o lugar de Meio.

Mouriscada -  É o conjunto dos Mourisqueiros, sob o comando do Reimoeiro. Está estruturada em duas filas, com dois Guias à cabeça, dois Rabos na extremidade e dois Meios, como o nome indica, a meio. O facto de serem apenas jovens solteiros, de usarem espada, polainas e uma barretina semelhante à que usavam as tropas napoleónicas confere aos Mouriscos um ar militar e de tropa bem organizada.

Mourisqueiro - É o membro da Mouriscada. Só podem ir de Mourisqueiros jovens solteiros. Nos tempos em que a estrutura da comunidade local assentava na economia agrícola e em que havia casas de lavradores, mais ou menos abastadas, caba a cada casa destas 'apresentar' um Mourisqueiro.

sexta-feira, junho 13, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (5)

Embaixadas (Correr as) - Na parte inicial da Prisão do Velho, quando Bugios e Mourisqueiros sobem aos respetivos castelos, e quando se começam a ouvir os canhões, um cavaleiro vestido de mourisco, mas sem barretina, percorre múltiplas vezes o trajeto de um a outro pólo do conflito, uma mão na rédea e outra na espada, levando e trazendo mensagens, na mira de se conseguir a paz. A isso se chama Correr as Embaixadas.

Ensaio - O ensaio dos Bugios e Mourisqueiros ocorre nos quatro domingos anteriores à festa, ao fim da tarde. Vâo "à civil" e sem máscara. Os Bugios levam castanholas e os Mourisqueiros um pau ou cana a fazer de espada (no último ensaio, os mouriscos acrescentam uma faixa vermelha no peito, em diagonal). Nos bastidores muita coisa se passa, entretanto: no final dos ensaios dos dois primeiros domingos Guias e Rabos dos Bugios anotam o nome dos interessados em exercer funções como Semeador, Cego, Lavrador, Moço do Cego, Sapateiro, Moço do Sapateiro e Mulher do Sapateiro, personagens que vão "Colher os Dreitos", entre outros. A decisão é tomada e comunicada pelo Velho, coadjuvado pelos seus Guias e Rabos, no final do terceiro ensaio.

Entrajadas - Ver Estardalhadas

Espadim - Tem dimensão um pouco menor do que a espada e é utilizada por todos os Mourisqueiros, incluindo o Reimoeiro. Do copo do espadim pende um lenço branco.

Estardalhadas
Estardalhadas - São mais uma componente da Festa de S. João de Sobrado e a única que varia de ano para ano. É constituída por indivíduos ou grupos de mascarados que procuram satirizar e pôr a nu acontecimentos e peripécias da vida local (com a influência dos media, passou a ser frequente caricaturar também acontecimentos de âmbito nacional e internacional). Surgem de livre iniciativa e constituem sempre uma surpresa para todos, visto que não carecem de fazer qualquer inscrição prévia. Aparecem, habitualmente, na Casa do Bugio, aquando do jantar da festa, transitam, de seguida, para a zona onde têm início as Danças de Entrada, e desfilam a seguir aos Bugios. Nos últimos anos, tem-se instituído o hábito de alguns destes grupos, que se movimentam em carrinhas, tratores ou camiões, lançarem sacos e espumas com água sobre os circunstantes. gerando-se em alguns sítios, veradadeiras batalhas (simbólicas),que refrescam em dia que é, frequentemente, de muito calor, mas não agradam a todos.

Farda - Termo usado para referir os trajes usados por Bugios e Mourisqueiros. As fardas dos Bugios são de cada um ou então, emprestadas ou alugadas; as dos Mourisqueiros são pertença da Casa do Bugio.

Guias - São as duas posições mais destacadas nas formações de Bugios e Mourisqueiros. Correspondem aos 'cabeças de fila' de uma e outra formação. No caso dos Mourisqueiros, quem vai de Guia será o Reimoeiro dos anos seguintes.
Guizos

Guizos - Objetos metálicos arredondados e ocos, com uma abertura e uma pequena bola de metal no interior. Agitados, funcionam como pequenos chocalhos. Além do uso em animais, em muitas culturas, do Oriente e da América Latina (México, por exemplo), decoram vestes rituais ou os tornozelos de dançarinos. Em Sobrado são usados como adorno, dependurados no traje dos Bugios. Daí que a Bugiada ao dançar produza sonoridades exóticas que dão colorido à algazarra que já de si carateriza esta formação.

quinta-feira, junho 12, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (4)

Cuca Macuca - designação que toma a serra de Santa Justa, na lenda que está subjacente à Festa de S. João de Sobrado. A origem do nome não se encontra devidamente estudado. É conhecido quer do lado de Valongo quer do lado de Gondomar. Na serra de Cuca Macuca habitavan, segundo a lenda, os mouros, dedicando-se à extração de ouro.

Dança da Jaquina - Nome que se deu a uma manifestação da Festa, já desaparecida e que é ainda mal conhecida. Segundo o testemunho do sobradense Generoso Ferreira das Neves, esse número fazia-se nos anos 50, antes de ele emigrar para o Brasil e constava do seguinte: depois das danças de Entrada e antes da recolha dos direitos, um mascarado agarrado a uma figura vestida de mulher, de pernas para o ar, dava a volta ao Passal, fazendo o percurso comum a outras manifestações deste dia. O caracter erótico da cena terá originado tensões na comunidade e poderá ter estado na origem da sua extinção.

Dança de Entrada - Em rigor deve dizer-se Danças de Entrada, já que correspondem à apresentação
Velho da Bugiada - Dragonas sobre os ombros
sequencial quer dos Mourisqueiros dos Bugios, quer dos Bugios na zona principal da festa e têm passos distintos nuns e noutros. Têm lugar ao fim da manhã e partem da zona da capela das Alminhas. A Banda de S. Martinho de Campo conduz cada agrupamento até Campelo, após o que os Mourisqueiros são acompanhdos pelo rufar da caixa e os Bugios pelo toque da 'orquestra' de rabecas e violas, até junto da entrada do adro, onde os respetivos reis os abençoam com água benta.


Dança do Cego - Também conhecida por Sapateirada. Apesar do nome, não se trata de uma dança, mas de uma representação de cunho primitivo que põe em cena dois grupos de personagens: o Sapateiro, a sua Mulher (fiandeira) e o moço, e, do outro lado, o Cego e o seu Moço. Todos vão mascarados. O que é representado em diferentes sítios do Passal é, no essencial, o rapto da Mulher do Sapateiro por parte do Moço do Cego e a luta do visado por reaver aquela que ele se vangloriava de nunca o trair. O que mais chama a atenção, na Sapateirada, é o aspergir dos circunstantes com lama e excrementos e o jogo entre atores e espectadores uns por os sujar e os outros por lhes fugir. É uma das partes antropologicamente mais densas desta Festa.

Dança do Doce - Dança que Mourisqueiros e Bugios, por esta ordem e em separado,  executam no átrio da residência paroquial, a meio da tarde, após  o que o pároco é obrigado por tradição a dar um copo de vinho e um doce típico local a cada participante. Os Mourisqueiros dançam esta dança sem a barretina (provavelmente um vestígio decorrente do facto de, até há um pouco mais de uma década atrás, o espaço estar coberto por uma ramada que não dava altura suficiente para utilizar aquele elemento da indumentária).

Dança do Santo - Dança que Mourisqueiros e Bugios, por esta ordem e em separado,  executam em frente ao adro da igreja paroquial, ao fundo do Passal, ao fim do dia, após a Prisão e libertação do Velho da Bugiada.

Dança do Sobreiro - Dança que Mourisqueiros e Bugios, por esta ordem e em separado,  executam depois das Danças de Entrada, ao cimo do Passal, do lado Sul. Todas as danças aqui referidas têm a mesma estrutura e morfologia, demorando cada agrupamento de 30 a 45 minutos.

Dragonas - Eram peças metálicas de uniformes militares de altas patentes colocadas sobre os ombros, das quais pendiam franjas de fios de seda ou ouro. Na Festa de S. João as dragonas integram o traje dos reis: do Reimoeiro e do Velho da Bugiada, conferindo-lhes autoridade e prestígio.

terça-feira, junho 10, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (3)

Casa do Bugio - Associação criada em Sobrado em 1993, com a finalidade de preservar e promover a Festa de S. João de Sobrado e tudo o que com ela se relacione. Cabe-lhe realizar a Festa, sempre que não surgir uma Comissão com Juíz e Mordomos, e, por norma, de cinco em cinco anos. No âmbito das suas atribuições, a Associação é detentora do bem patrimonial imaterial da Festa, em nome dos Sobradenses, cabendo-lhe igualmente os direitos de imagem, devidamente registados. A designação Casa do Bugio refere-se igualmente ao edifício que foi construído fora da povoação, na estrada municipal que liga Sobrado a Alfena. De dimensões avultadas, destina-se, entre outras funções, a acolher os Mourisqueiros e os Bugios no 'jantar' do dia 24 de Junho.

Castanholas - Instrumento de percussão normalmente de madeira constituído por duas partes côncavas
e ligadas entre si, é usado na Festa de S. João de Sobrado por cada um dos Bugios, com exceção do Velho da Bugiada, como forma de expressão e para marcar o ritmo de algumas danças. Muitas das castanholas usadas em Sobrado continuam a ser executadas localmente. Em muitos casos as castanholas são ornadas com motivos diversos, nomeadamente rabos de coelho.

Castelos - Também conhecidos por palanques.  São estruturas de madeira construídas ad hoc no sábado anterior à Festa, e constituídas por um esqueleto de toros de pinho cortados na ocasião, encimados por um estrado à altura de uns 2,5 metros. O estrado é rodeado de um corrimão igualmente de toros de pinho em três dos lados, ficando desguarnecido o quarto. São instalados no Passal, perto do coreto: o dos Bugios junto à estrada principal e, na direção da igreja, a cerca de 50 metros, o dos Mourisqueiros. É nestes castelos que decorre a Prisão do Velho, altura em que o castelo Bugio acolhe igualmente a Serpe, por debaixo do estrado, por entre a folhagem.

Colher os Dreitos - É o primeiro acto dos rituais agrícolas que decorrem após a hora de almoço, cerca das 15 horas. Um Bugio montado ao contrário num burro e rodeado por múltiplos Bugios, percorre o Passal, recolhendo as contribuições ou impostos (os 'dreitos') junto dos feirantes. À medida que recebe esses direitos (uma bebida, um doce ... ou apenas umas trocas de palavras jocosas), o que monta o jumento vai 'descarregando' o encargo num grosso livro, usando um pau como caneta e o cu do burro como tinteiro.

Comedeira (farda) - Diz-se de uma 'farda' ou traje de Bugio já poída de tanto ter sido usada. O nome advém, segundo se diz na Vila, dos "tempos da fome": os mais pobres, que nem dinheiro tinham para um almoço melhorado no dia de S. João, usavam essas fardas velhas como passe de entrada no jantar servido aos Bugios e Mourisqueiros logo no começo do dia. E assim, além de matarem a Paixão na dança, enchiam a barriga de canja e de um cozido à portuguesa. 

Comissão da Festa - É constituída por um juíz e por diversos mordomos, provenientes de diferentes lugares da Vila. É de livre iniciativa do Juíz, o qual, em alguns casos, assume a função por promessa. Até há alguns anos, com um número de Bugios manifestamente inferior ao atual, cabia ao Juiz nomear o Velho da Bugiada desse ano, algo que já não acontece hoje em dia. Compete, no entanto, à Comissão, superintender numa série de tarefas relacionadas sobretudo com gestão do arraial, a contratação dos grupos que o animam, arruamentos e fogo de artifício, contratação da Banda e da GNR, organização de peditórios e outras iniciativas de angariação e fundos, etc. No passado, a pertença às Comissões era sobretudo tarefa masculina, mas nas últimas décadas, as mulheres passaram também a integrá-las e, em 2012, aconteceu mesmo que houve não apenas uma Juíza, mas toda a Comissão foi constituída por mulheres.

segunda-feira, junho 09, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (2)


Cabidela (dia da) - Almoço de confraternização dos Bugios com que terminam os trabalhos de recolha dos pinheiros e tábuas para a construção dos castelos dos Bugios e Mourisqueiros, tudo isto sob cordenação geral do Velho da Bugiada, feito no último sábado antes da Festa, que é também véspera do último ensaio. Tem lugar por norma num restaurante local ou numa casa previamente combinada. É pago pelos comensais e participado pelo Velho, Guias a Rabos e outros colaboradores. Tradicionalmente, o prato desse dia é arroz de cabidela.

Caixa - Tambor, instrumento acústico feito de uma caixa em forma cilíndrica com peles tensas dos
dois lados, tocada com baquetas e que acompanha todas as danças dos Mourisqueiros com excepção das marchas (Dança de Entrada, entrada no castelo e desfile que antecede o ataque ao castelo Bugio). O termo designa também a pessoa que toca o tambor.

Canhão - Arma de carregar pela boca, tipo espingarda, normalmente de fabrico local, utilizado exclusivamente nos castelos de Bugios e Mourisqueiros, durante o combate entre uma e outra formação, na altura da Prisão do Velho. É carregado com pólvora seca e disparado para o ar, produzindo apenas estrondo. Existe um controlo apertado quer de quem manuseia a pólvora quer de quem pode utilizar o 'canhão' para ir ao castelo dar tiros.

Capa - Parte do traje dos Bugios, utilizada sobre os ombros da parte de manhã do dia da Festa e por debaixo de um dos braços da parte de tarde. Pode ser de várias cores, embora predominem os tons avermelhados escuros.

Campelo - Lugar central da Vila de Sobrado, junto ao qual se situa o Passal e que é palco das principais manifestações da Festa da Bugiada e Mouriscada.

Capela das Alminhas - Minúscula capela setecentista sobradense, situada junto à estrada principal que liga Valongo a Paços de Ferreira. É nessa zona, a cerca de 300 metros para o lado Norte de Campelo, que têm lugar algumas das apresentações das Estardalhadas e, sobretudo, onde se formam e iniciam as Danças de Entrada. É tambem nesta Capela que dá a volta a procissão do dia de Festa, cerca do meio-dia.

Careta - O termo tradicionalmente mais usado em Sobrado para designar a máscara utilizada pelos Bugios, pelos protagonistas das Estradalhadas e de todos os rituais agrícolas da tarde, bem como da Dança do Cego. Outrora era feita de peles, madeira, cortiça, papel, metal, etc. O plástico tornou-se o material mais comum nos tempos que correm. Dizia-se, antigamente, que uma boa máscara de Bugio era aquela que fosse "feia, mas que fizesse rir".
(continua)

domingo, junho 08, 2014

Para um dicionário da Festa da Bugiada e Mouriscada (1)

Iniciamos hoje uma série de posts sobre termos próprios da Bugiada e Mouriscada. No final, ficará o contributo para uma espécie de dicionário da Festa de S. João de Sobrado.
Barretina emplumada (Rei)

Chapéu e penacho
Bagadas - Palavra corrente na Vila de Sobrado e na região, para designar lágrimas. Na Festa de S. João de Sobrado, diz-se que as crianças Bugias vão "alimpar as bagadas ao Velho". Isso acontece quando o Velho da Bugiada é preso e o Reimoeiro não cede por nada deste mundo a libertá-lo. Antes de ser levado prisioneiro, despede-se dos seus, em momentos de elevada comoção e lágrimas. É nessa altura que umas crianças se abraçam ao seu patriarca, suplicam clemência ao captor e pegam em lenços brancos para limpar as tais bagadas do prisioneiro.

Bater - Verbo utilizado para referir momentos das danças de Bugios e Mourisqueiros em que os respetivos líderes (Velho e Reimoeiro) dançam com cada um dos pares. Dado o número de intervenientes, no dia da Festa, são batidos apenas alguns dos pares, já que se assim não fosse, as danças se prolongariam por tempo excessivo. No entanto, nos ensaios essa regra é escrupulosamente cumprida.

Barretina - É um objeto cilíndrico que os Mourisqueiros usam na cabeça, decorado com fitas e com espelhos e encimado de plumas. O Velho da Bugiada usa também uma barretina, qe tem, no entanto, um design ligeiramente diferente (termina em bico na parte anterior).

Bugiada - Refere-se ao agrupamento e danças dos Bugios. Representa os cristãos e contrapõe-se à Mouriscada. Quando organizada, estrutura-se em duas filas paralelas, lideradas pelo Velho da Bugiada. O número e exuberância bugia tem levado muitos a designar a Festa de S. João por Festa da Bugiada, se bem que, em rigor, a Bugiada seja apenas uma parte da Festa.

Bugio - Integrante da Bugiada. Não existe controlo relativamente a quem pode aceder ao estatuto de Bugio, havendo na Bugiada novos, idosos e crianças, homens e mulheres. Em épocas passadas, até aos anos 60-70 do século passado, era socialmente mal visto as mulheres irem de Bugio. Mas elas chegavam a participar, procurando disfarçar a sua condição. Usam como traje uma calça terminada em folhos, um gibão e uma capa que vai de manhã sobre os ombros e, de tarde, sob um dos braços. Na cabeça, levam um chapeu de abas largas e um penacho de fitas multicolores. Não se pode olvidar um importante elemento de identificação do bugio: a máscara. Nas mãos, são obrigatórias as castanholas.

sexta-feira, junho 21, 2013

Festa da vida e da paixão


A Festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado é como que a outra face do S. João do Porto, mas mais discreta e deslumbrante. Ambas partilham do encontro, da folia, da subversão próprias dos antigos ritos solsticiais; ambas são festas de celebração e refundação da identidade colectiva na rua. O S. João é, no Porto, uma festa nocturna e, em Sobrado, uma festa diurna. E talvez seja por causa do S. João do Porto que muitos forasteiros, interessados em conhecer a Bugiada, se tenham ficado pela cidade, na ressaca da noitada, adiando, assim, para outra vez a deslocação a Sobrado.
Quem vá a Sobrado sedento de exotismo ou à procura de vestígios de um mundo perdido é possível que os encontre. A máscara e a serpe, os guizos e as castanholas, os penachos e as barretinas, as danças e o combate, as músicas e os ritmos do tambor, a cor e a algazarra proporcionam esse mergulho num tempo fora do tempo. É o que se pode chamar um espetáculo completo, suprema colheita para os amantes da fotografia e do vídeo. E, no entanto …
Para a comunidade local, a festa é muito mais do que um espetáculo ou uma reconstituição histórica. É, acima de tudo, o assumir de uma tradição, reinterpretada nas exatas e precisas condições da existência do hoje, local e global. Numa terra que se transfigurou nos últimos 60 anos, por efeito do trabalho industrial, da emigração e da rede viária, esta vila passou a respirar em sintonia com o resto do Município e com a área metropolitana do Porto. Mas os sobradenses souberam encontrar nos novos modos e estilos de vida os pontos de ligação com a sua festa de S. João. Reinterpretaram-na e fizeram-na significativa para a sua vida e para as relações entre eles. Assim, a festa não se tornou um mono, mas antes a festa da vida e da paixão.
Os passos que têm sido dados no sentido do reconhecimento do seu interesse municipal (já concretizado), nacional e internacional (em vias de concretização) são naturalmente motivo de satisfação. Mas representam também um desafio: abertura à promoção de um turismo cultural de qualidade, articulado com outras ofertas na região, sem deixar que sejam pressões externas a condicionar as características, tempos e modos de fazer a festa. Isso é com os sobradenses. Outro caminho acabaria por pôr em causa aquilo que agora mesmo está a ser objeto de reconhecimento e, em última análise, por ameaçar a própria festa. Em suma, uma festa aberta mas sem perder a alma.

[Texto que me foi solicitado para publicação no Semanário Grande Porto, num destaque dedicado à Festa de S. João de Sobrado e previsto para hoje]

quinta-feira, junho 13, 2013

Bugiada e Mouriscada .. mas não só

Nunca será de mais sublinhar que a Festa de S. João de Sobrado é bem mais rica do que as danças e a luta que envolvem Bugios e Mourisqueiros. O gráfico seguinte, que fiz para a recente conferência sobre cultura popular em Boticas,  procura sublinhar três aspetos:
- a centralidade da Mouriscada e Bugiada nesta festa;
- a diversidade de outras manifestações;
- a relação que existe entre essas manifestações e a Mouriscada e, principalmente, a Bugiada.


quarta-feira, junho 12, 2013

(6) Quais são alguns dos desafios que a Festa de S. João de Sobrado enfrenta?


A festa da Bugiada e Mouriscada exprime a identidade dos sobradenses e, ao acontecer, refaz e actualiza essa mesma identidade. É uma grande manifestação comunicativa, em que a palavra é secundária e em que a mensagem e o sentido se produzem através do movimento, do corpo, do ritmo e da música, e em que a máscara ocupa um papel central.
Fica claro que não estamos, em Sobrado, perante um teatro, um desfile, um espectáculo ou uma reconstituição histórica. Se algo disso há na Bugiada e na Mouriscada, e em tudo o mais que faz esta festa, o que aqui temos é uma iniciação à vida social; uma aprendizagem da importância daquilo que hoje vale pouco, no mercado dos valores: a combatividade, a busca de sentido, a pertença a um grupo, a competição sadia, o diálogo com o diferente como via para cada um se tornar pessoa. O que não quer dizer que tudo isto seja vivido por todos ou seja vivido do mesmo modo ou pelos mesmos motivos.
Nunca fomos muito dados a reflectir e debater o sentido desta festa. E, no entanto, todos vibramos com ela. E dela poderíamos dizer algo parecido com o que Santo Agostinho disse, quando um dia lhe perguntaram o que era o tempo: “Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.” É um pouco assim que se sente o sobradense a quem o repórter pergunta o que experimenta ao dançar ou ver dançar. Na melhor das hipóteses receberá como resposta: “é a paixão!”
Mas, sem grandes argumentos, sem grandes discursos, através da festa, os sobradenses conversam entre si, lá vão encontrando meio de conviverem uns com os outros. Não são certamente nem melhores nem piores do que os habitantes de outras terras, mas aprendem a ser gente à sua maneira.
Todos sabemos que os de Sobrado eram conhecidos nas terras circunvizinhas como uns tolos que fazem tudo ao contrário(*). Isto porque nos trabalhos do campo ritualizados na festa, começam por semear antes de lavrar e gradar. Mas também jantam o cozido ao princípio da manhã e vencem uma batalha não pela intercessão de S. João Batista, venerado nesse dia, mas de uma Serpe. Esta festa, como muitas outras festas tradicionais, opera por inversão. Por um dia vira as coisas e a vida do avesso. Por um dia um operário ou um comerciante podem ser reis. Mas do mesmo modo por um dia há quem delire a fazer de cego ou de mulher de sapateiro. No dia seguinte, a vida continua, mas nunca continua igual, porque se sai da festa com a alma lavada, com a sensação de ter vivido num dia o que um ano inteiro não permite.
Ao vermos, nos nossos dias, as tensões e as guerras entre os muçulmanos e os cristãos e as dificuldades do diálogo e da compreensão mútua entre os dois mundos, não deixa de ser espantoso ver como em Sobrado, Mouriscada e Bugiada – eles e nós; nós e os outros; o mesmo e o diferente – convivem, combatem, vencem e são derrotadas e, no fim, uma e outra excecutam a Dança do Santo. Não como vencedor e vencido, mas como agrupamentos diferentes, mas iguais em direitos, estatuto e dignidade . Em Sobrado, os Mouros não são convertidos, como, por exemplo, acontece no Auto de Floripes, contra os Turcos. E isto, poderíamos nós ler hoje, é um sinal interessante de diálogo intercultural, de convivência entre diferentes que se reconhecem iguais em dignidade.
No momento em que em Sobrado se descobre que a sua festa é uma manifestação valiosa de património cultural imaterial, vale a pena realçar os aspectos nela contidos, que a colocam em sintonia com grandes desafios do nosso tempo. Com a memória e a consciência do valor da herança que recebemos, queremos caminhar não a olhar para o passado, mas a enfrentar os reptos do futuro. E esses reptos do futuro
- passam pela preservação, o que supõe investir num núcleo museológico da festa da Bugiada e da Mouriscada;
- passam pela promoção, como tem estado a acontecer com o reconhecimento municipal, com o registo nacional e a candidatura à lista da UNESCO; e
- passa pelo estudo e pela investigação, já que esta festa nunca foi até hoje estudada de forma sistemática e em profundidade e, sem isso, nós não podemos dar o devido valor àquilo que temos.
Como observava Hélder Pacheco, num colóquio realizado em Sobrado, em Junho de 2006, a propósito da singularidade do S. João de Sobrado, “não afirmar esta diferença e esta identidade própria seria absolutamente fatal, no contexto de uma Europa cinzenta e carente de côr.”
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(*) Notícia de "O Vallonguense", nº1, de 29 de Junho de 1913:
"Realizou-se na passada terça-feira a festa de S. João Baptista. Houve as tradicionais danças dos 'Mouriscos e Bugios' sempre muito engraçadas e apimentadas. Não há meio de tirar esta antiga costumeira, tão enraizada está nos hábitos deste povo a quem chamam tolo; eu penso porém que mais tolos são aqueles que atravessando montes e vales o vêm apreciar. Tolos não, finos é que eles são, porque com suas artes pitorescas chamam grande número de forasteiros à sua terra".

terça-feira, junho 11, 2013

(5) Como lidar com as pressões externas e internas que uma tradição como esta necessariamente gera?

Uma festa complexa e polifacetada como a Bugiada e Mouriscada está sujeita a múltiplos focos de tensão e mesmo a pressões de sentidos diversos e contraditórios.
No interior da comunidade, as possíveis causas dessas tensões decorrem desde logo do facto de a festa se estruturar em torno de uma luta entre dois grupos: o de toda a gente, digamos assim, folgazão, colorido e excêntrico; e o dos jovens solteiros, que representam o novo, o diferente, o outro. Temos aqui uma tensão entre o
Passal - Espaço privilegiado da festa
passado e o futuro, entre o mesmo e o diferente, que vai ocorrer noutros momentos e manifestações desta tradição.
Depois, há a tensão que decorre da disputa pelos lugares de poder na festa e, particularmente, pelos lugares de Reimoeiro e de Velho da Bugiada. Objeto de sonhos de muitos anos, a ascensão envolve rivalidades, julgamentos e negociações que nem sempre são fáceis de assimilar. Nos últimos anos, quer uma quer outra formação encontraram modos e normas que tornam as escolhas mais transparentes e, espera-se, também mais pacíficas.
Sobrado viu partir muitos dos seus habitantes - poderíamos dizer: umas boas centenas -  e viu também instalar-se no seu território muitas pessoas que trabalham ou estudam fora e isto acarreta diferentes modos de ver e viver a festa, de nela investir. São as dinâmicas próprias de uma comunidade viva.
Mas não podemos esquecer que a Festa não é só dos que nela directamente tomam parte. As mudanças das últimas décadas originaram uma forte mobilidade social e uma facilidade de circulação que faz com que muitos sobradenses vivam fora; que muitos de fora tenham vindo viver para Sobrado; que a abertura ao mundo, proporcionada pelos meios de comunicação, tenha gerado uma maior diversidade de pontos de vista e de sensibilidades, que se reflectem também na festa.
Por outro lado, quem vê a Bugiada de fora, não chega a aperceber-se de que ela é bem mais do que a mera repetição anual de umas manifestações exóticas e interessantes, que dão umas imagens espectaculares para fotógrafos e televisões.
Não é, assim, de estranhar que se repitam as pressões para levar a Bugiada e a Mouriscada para desfiles e outras performances e eventos, desconectando as danças do seu tempo, lugar e sentido. Os canais de televisão chegam até a pretender alterar as horas de certas partes da festa, quando não a encenar movimentos de dança em estúdio, com o argumento de que, por essa via, estão a colaborar na promoção da festa.
Vemos, deste modo, que a Festa da Mouriscada e Bugiada que gera naturalmente tensões vem conhecendo pressões novas geradas na comunidade e fora dela, com as quais é necessário conviver e urge saber gerir. Muitas das tensões exprimem a intensidade e paixão com que aqui tudo é vivido.
Não se pode ser fundamentalista: A festa não é como uma jóia que alguém guardasse em casa com o máximo cuidado para que nada nem ninguém lhe tocasse, para se manter como sempre foi. É viva e, assim como faz a comunidade e configura a sua identidade, também é feita por ela. Porém, também não se pode esquecer que toda a banalização das danças e rituais, toda a cedência a caprichos ou interesses deste ou daquele, se virará a prazo contra a própria festa. Há dinâmicas de mudança na festa que advêm da sua natural adaptação aos novos tempos. Mas há mudanças e mudanças e há que discernir entre o que ajuda a festa a enriquecer-se e aquilo que, a prazo, a pode descaracterizar e matar. Grave seria se algum iluminado entendesse por si só o que é ou não correto fazer.
Para isso à Casa do Bugio cabe um papel que importa prosseguir e aprofundar, de preservação e promoção, ouvindo o conselho de Velhos, os que tiveram lugar de destaque nos Mourisqueiros, os amantes das restantes manifestações da festa, num entrosamento estreito com o pulsar da comunidade local.

segunda-feira, junho 10, 2013

(4) Que dizer sobre as origens da festa, a sua longevidade e transformações?


A Festa de S. João de Sobrado, tanto quanto se conhece hoje, não conta com referências ou registos antigos. Não houve associação ou confraria que tivesse o encargo de a realizar. Sendo sobretudo uma festa de danças, de rituais, de manifestações de índole carnavalesca, não tem texto escrito. Um velho sábio que conheci e que me ensinou muito, disse-me um dia, quando foi publicado o livrinho que escrevi sobre a festa, nos inícios dos anos 80: o que fizeste tinha valor se tivesses descoberto o ano em que a festa começou. Isso é que era!
A verdade é que não sabemos e, provavelmente, nunca saberemos. O que sabemos é que ela é muito antiga, visto que os antigos nos diziam que já os seus avós lhes contavam que ninguém se lembrava de quando ela teria começado a fazer-se.
Enquanto outros dados não surgirem, que nos dêem outras pistas, temos de caminhar às apalpadelas, que o mesmo é dizer: analisando as semelhanças e diferenças com outras festas; comparando os trajes, examinando a estrutura, e as diferentes componentes desta tradição festiva e colocando tudo isto em mapas mais vastos.
Corria em Sobrado a crença de que, na guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel, quando se deu a batalha de Ponte Ferreira, os habitantes de Sobrado eram obrigados a abastecer as tropas miguelistas, mas nem por isso a festa deixou de se fazer: sobrepôs os ‘canhões’ da prisão do Velho ao troar dos canhões do combate que se travaria a escassos dois quilómetros daí. A verdade é que a data da batalha foi quase um mês depois do dia de S. João, pelo que essa crença ou não faz sentido ou deve ter outra explicação.
Disse-se igualmente que os trajes dos Mourisqueiros, com as suas polainas, barretinas emplumadas e espadins, fazem lembrar as fardas das tropas napoleónicas que invadiram o país, no fim da primeira década do século XIX. As semelhanças chamam, de facto, a atenção, mas não provam muito sobre a antiguidade da festa.
Recuando mais, há quem recorde que Bugiadas e Mouriscadas figuravam, pelo menos até ao século XVIII, em várias procissões de Corpus Christi do Norte de Portugal, incluindo a Serpe, que também aparece em Sobrado e, por exemplo, em Penafiel. A pergunta que ocorre colocar é se as danças e lutas de Sobrado serão tributárias de alguma forma de participação que outrora existisse numa procissão de Corpus Christi ou dela derivada. É matéria sobre a qual pouco podemos acrescentar, no actual estado do conhecimento. Mas neste ponto, a existência de Bugiadas na sede do Município, em finais do séc. XIX (cf Seara, 1896) deixam em aberto a possibilidade de alguma relação de manifestações da Festa de Sobrado com outras tradições na zona envolvente.
Uma coisa é certa: as festas de mouros e cristãos são antigas, não apenas na Península Ibérica, mas noutras partes da Europa e, com a expansão europeia, no Brasil e em toda a América Latina e até em África (Krom, 2012).
As primeiras referências que conheço são de finais do século XIX . Um folheto volante de 10 páginas, com “versos” da autoria do valonguense José Alves dos Reis, datado de 1896, referia o seguinte, sob o título de “Música Gorada”:
Na aldeia pitoresca de Sobrado
Terra aonde se cria o melhor gado
E já deu bastantes brasileiros
Tem hoje denodados Mourisqueiros.
No dia do Baptista S. João
Fazem eles ali grande função
Correm todos em vários desafios
Os Mourisqueiros e garbos Bugios
Os doidos imitando no correr
(e não faltam irmãos para ir ver)
A saltar e pullar por entre a praça
E os doidos socegados achando-lhes graça
(...)”
Antigamente, segundo a tradição, cabia aos lavradores e às casas de lavoura mais destacadas assegurar a Mouriscada, apresentando pelo menos um jovem garboso. Nos nossos dias, já não há casas abastadas de lavoura suficientes para manter essa prática. Qualquer adolescente que tenha um mínimo de jeito pode ir de Mourisqueiro, até porque não tem de comprar a farda. Do lado dos Bugios, sabia-se que a paixão pela festa e a ajuda da máscara levava a que algumas mulheres se atrevessem a participar nas danças, ainda que essa prática fosse censurada pela moral dominante. Hoje são já numerosas as que vão dançar, começando a colocar-se a questão, para alguns e para algumas, de elas poderem ou não subir, como os homens, na hierarquia da Mouriscada.
As próprias fardas, nomeadamente a dos mouros, também mudaram. Na primeira metade do século passado eram de tons mais esbanquiçados, como refere e mostra em fotografia o trabalho de Rodney Gallop, nos anos 30. E hoje desapareceram, entre os Bugios, as chamadas Comedeiras, trajes puídos e velhinhos que alguns arranjavam para poderem comer à tripa forra pelo menos no dia de S. João. Oxalá não voltem esses tempos.

domingo, junho 09, 2013

(3) Como compreender a sobrevivência e revivificação da Bugiada?

Uma leitura possível para a sobrevivência e renovado vigor da Bugiada e Mouriscada poderia residir no esforço de preservação de uma tradição antiga e na sua apresentação como reconstituição histórica, para efeitos de memória e afirmação perante os forasteiros que visitam Sobrado.
Mas a verdade é que muitas outras terras tiveram tradições festivas riquíssimas - e escusamos de sair para fora do Município de Valongo – e viram-nas desaparecer uma atrás da outra.
Como vimos, o contexto económico e sociocultural do passado mudou radicalmente. A primazia da economia agrícola de subsistência e a cultura do mundo rural e a mundividência a ela associada ttransformaram-se. As relações sociais e a força dos valores e normas prevalecentes em gerações passadas debilitaram-se ou foram substituídas por outras. Seria lógico, por isso – ou pelo menos não seria de estranhar – que a Bugiada e a Mouriscada tivesse ficado pelo caminho, ou se arrastasse por Sobrado como um moribundo.
Isso não aconteceu. E a meu ver, tal deve-se, antes de mais, a dois factores indissociáveis: ao facto de a festa ter sido assumida como fazendo parte da identidade da comunidade local e, por outro lado, ao facto de esta festa e a sua vivência ter sido reinterpretada no quadro de valores e relações sociais dos novos tempos.
Em síntese e numa linguagem mais clara e direta, eu diria que esta festa continua a fazer-se porque as pessoas a sentem como fazendo parte de si e daquilo que são, individual e colectivamente. Por outro lado, porque as gerações mais novas fazem através dela a experiência da iniciação à cidadania em termos de integração e pertença à comunidade local.
Há casos que dizem bem da força e do papel da festa. Há cerca de 40 anos choveu tanto nas vésperas e no dia de S. João, que houve cheia do rio Ferreira. Pouca gente se atreveu a vir para Campelo ver as Danças de Entrada. Mas nem por isso Mourisqueiros e Bugios deixaram de dançar. O que tiramos daqui? Que o S. João de Sobrado não é, acima de tudo, um espectáculo para a multidão, mas, em primeiro lugar, uma experiência profunda para cada participante que, por alguma razão, diz – e sente – que vai dançar por paixão. É na verdade esta paixão, feita de sofrimento e entrega, que faz esta festa. Claro que há coincidências, mas terá sido por mero acaso que um Bugio idoso, um desses apaixonados que prefere dançar a subir na hierarquia do seu grupo, foi morrer exactamente na véspera de S. João e levado pelos seus pares à sepultura precisamente na manhã do grande dia?
Há anos, ia eu à procura do carro, para regressar a casa, no fim da Dança do Santo, e à minha frente caminhava um Mourisqueiro de barretina debaixo do braço, uma irmã e a mãe. Pude ouvir perfeitamente a conversa, porque dela não fizeram segredo: a irmã criticava o Mourisqueiro – que tinha aparentemente diante de si a possibilidade de iniciar o percurso para chegar a Reimoeiro – porque iria perder a namorada, se a deixasse sete anos à espera para casar. A solução seria ele ir viver com a noiva enquanto durasse a ascensão na cadeia hierárquica mourisca. Alguém em circunstâncias idênticas já o teria feito antes sem que tivesse sido penalizado. Mas o jovem que aspirava a ser rei, ainda que por um só dia, não estava pelos ajustes. “Ela que espere. Se é que me tem amor!”, dizia, convencido. E por aqui se vê também como a festa se entrecruza com a vida e pode interferir em opções de fundo. Com propriedade se pode, pois, dizer que a festa faz parte da própria vida. Mais ainda: a Bugiada e a Mouriscada é a festa da vida.
Antropologicamente ela é, além disso, o grande momento da hubris, do excesso, da transgressão e da comunhão com os elementos da natureza. Muitos forasteiros acham as cenas da Dança do Cego, por exemplo, de um primitivismo atroz e de uma violência dificilmente aceitável. Que diriam se soubessem que os papeis dos rituais agrícolas e da Sapateirada são superdisputados e que não falta quem queira espolinhar-se na lama e atirar excrementos aos circunstantes ou roçar-se neles com uma enxerga toda enlameada?!
(Crédito da segunda foto: Fábia Pinto)

sexta-feira, junho 07, 2013

(1) Que é que nesta festa a torna singular?


O que a festa não é:
- Mera festa de arraial; reconstituição ou recriação histórica
- Festa do santo padroeiro; festa de devoção religiosa a S. João
- Não é mera festa de arraial; não é, em todo o caso, uma festa vulgar.

É uma festa que representa e atualiza uma lenda. Esta lenda é uma narrativa sobre as relações conflituosas entre dois grupos – um grande e um pequeno; um sério e outro folião; um da terra e outro de fora; um diverso e outro homogéneo. Como objecto imediato desse conflito está a disputa da imagem de poderes milagrosos de S. João. Frente a frente, em diálogo tenso e denso, encontra-se uma comunidade e a sua cultura e um grupo que exprime a diferença, a alteridade – o que pode ser em tanto uma ameaça como um enriquecimento. Através da evocação de um facto histórico que certamente marcou esta região, toda a Península Ibérica e, em geral a Europa do Sul, é esse diálogo entre nós e os outros, o mesmo e o diferente que aqui se busca e se faz. E esse encontro é hoje um dos grandes desafios, numa sociedade globalizada..

Esta festa ora se designava por Festa da Bugiada ora, em menor grau, por festa da Mouriscada. Mas, como é bom de ver, a Bugiada não existe sem a Mouriscada e vice-versa. Mas esta festa é bem mais do que a Bugiada e a Mouriscada, já que nos interstícios, nos tempos de pausas das danças, se repetem, desde tempos imemoriais, as cenas de mascarados que compreendem pelo menos quatro performances diferentes: as entrajadas de crítica social, e sabor carnavalesco; a cobrança dos direitos; a lavra da praça; e a sapateirada ou dança do cego.
E não nos podemos esquecer de que se trata de uma festa realizada sob a invocação de S. João, um dos maiores do trio dos chamados “santos populares”. Daí que a componente religiosa – cerimonial e devocional – não possa ser esquecida. De resto, nunca poderemos esquecer que são os Mouriscos que transportam os andores na procissão e que existe todo um tabu em torno do território da igreja e em redor da igreja, até ao fim das danças de entrada. Os Mourisqueiros, para acederem à igreja, no final da missa de festa, têm de o fazer por fora do terreno do Passal.

Fazem parte da festa os ensaios, por tradição públicos, e que são bem mais do que meros ensaios, já que durante eles decorre o processo de designação dos titulares de funções específicas nos rituais da tarde. Acresce que o ensaio final, o do dia dos tremoços, se tornou num convívio entre todos os participantes e a própria população. Além disso há uma série de tarefas preparatórias, que seria longo enumerar aqui, muitas das quais dependentes do Velho da Bugiada e seus Guias e também do Reimoeiro.

A festa envolve direta ou indirectamente a comunidade não só num dia, mas todo o ano: os ajuntamentos, como são as sarrabulhadas, para conviver e angariar fundos para a festa; os peditórios e rifas; a preparação dos trajes e a preparação física são exemplos disso mesmo.

Na era dos novos media e das redes sociais, a festa é também o acompanhamento, ao longo do ano, do que se publica no blog e nas páginas da festa no Facebook.

quinta-feira, junho 06, 2013

Publicação do texto da intervenção na conferência do dia 24

Nos próximos dias publicarei a minha intervenção no ato de apresentação do pedido de registo da Festa da Bugiada e Mouriscada no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, realizado em Sobrado, em 24 de Maio de 2013, em articulação com a Conferência “Património Imaterial, identidade, cultura e risco”.
A intervenção procura refletir sobre seis questões. Em cada post refletirei sobre uma delas. Como sublinhei na ocasião, a comunicação é, antes de mais, a de "um sobradense que gosta da Festa da Bugiada e da Mouriscada. Mais: que a considera "um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna", para recorrer às palavras do inglês Rodney Gallop, talvez o primeiro que se preocupou com o seu estudo, já la vão três quartos de século".

segunda-feira, junho 03, 2013

O site da Festa da Bugiada e Mouriscada: convite para uma visita


Foi apresentado na Conferência que decorreu em Sobrado, no passado dia 24 e 25 de Maio, o site da candidatura da Festa da Bugiada e Mouriscada a património cultural imaterial. Será este, doravante, o espaço privilegiado de documentação, informação e divulgação da Festa de S. João de Sobrado.

O site, apresentado no referido evento pela Dra Manuela Ribeiro, diretora do Arquivo Municipal e ligada, desde o princípio, ao processo da candidatura da Festa da Bugiada e Mouriscada.
O espaço da Festa na Internet compõe-se de uma zona em que se refere a lenda e se documenta fotograficamente as figuras da festa. Relacionado com este existe um outro espaço ainda em branco que desafia os sobradenses (e não só) a darem testemunho da sua vivência relacionada com a festa. Quem quiser documentar-se sobre as questões relacionadas com a candidatura à lista de património imaerial da UNESCO e sobre o conceito de património imaterial assim como acerca da convenção sobre a matéria, de 2003, encontra um espaço próprio no site, designado 'Candidatura'. Finalmente foi também criada uma zona para informações e recortes de notícias publicadas nos media e uma outra para contactos. Trata-se ainda de um site em construção, mas a ideia é torná-lo um espaço vivo, interessante, que nos faça visitá-lo com frequência.