segunda-feira, janeiro 13, 2014

quinta-feira, janeiro 09, 2014

Sarrabulhada: convívio, gastronomia e festa

No seguimento de outras iniciativas já tomadas, a Comissão de Festas de 2014  convida todos os sobradenses e outros interessados para jantarem juntos, numa sarrabulhada que tem lugar na Casa do Bugio neste sábado, às 20h.
Através da gastronomia própria da época e do convívio, participa-se, deste modo, numa iniciativa que visa angariar fundos para as despesas da festa, aquilo a que se chama hoje crowdfunding, e que, em Sobrado e muitas outras terras, já se pratica há muitos anos.


domingo, dezembro 08, 2013

Assembleia Geral Extraordinária da Casa do Bugio


Os associados da Casa do Bugio estão convidados para uma Assembleia Geral Extraordinária a realizar na próxima quarta-feira, dia 11, às 21 horas, de acordo com uma convocatória assinada pelo Presidente da Assembleia Geral.
A reunião, convocada ao abrigo do nº4 do artigo 13º dos Estatutos, tem como ponto único na ordem de trabalhos o seguinte: "Esclarecimentos diversos aos associados por parte da Direção da Associação e discussão de outros assuntos de interesse para a mesma".
Esta Assembleia, que terá lugar na Casa do Bugio, foi requerida por um grupo de 20 associados, não tendo sido tornados públicos os motivos do requerimento.

terça-feira, julho 23, 2013

quinta-feira, julho 04, 2013

Conversas sobre a festa - convite


O Centro Cultural de Sobrado acolhe neste sábado, às 21h30, a primeira edição de "Conversas de Sobrado", relacionadas com a festa e com a candidatura a património cultural imaterial. Os anfitriões serão o Dr. Paulo Lima (antropólogo e coordenador do processo de candidatura), David Mira (realizador) e Augusto Brázio (fotógrafo).
No essencial, este espaço de encontro servirá para a apresentação de imagens da festa ou com ela relacionadas, tendo como objetivo a promoção do diálogo com os detentores do 'bem' cultural que é a Festa da Bugiada e da Mouriscada, ou seja, com a população de Sobrado. A entrada é livre.

domingo, junho 23, 2013

Quais os momentos mais importantes da festa?

Sobretudo para os visitantes que não puderem estar todo o dia em Sobrado pode surgir a pergunta: se eu só puder estar de manhã ou só de tarde, o que vale a pena ver?

A resposta é simples: de manhã, o que vale a pena ver são as Danças de Entrada, que deverão ter início pouco depois do meio dia, no zona central de Sobrado (perguntar pela capela das Alminhas). Se puder ir um pouco antes, verá os Mouros na procissão, de cabeça descoberta, a pegar aos andores dos santos e, em particular, no de S. João.
Se se dispuser a chegar a Sobrado pelas 9h30, o conselho é que vá diretamente para a Casa do Bugio, que fica fora da povoação, na estrada que liga Sobrado a Alfena (junto à Escola Profissional de Valongo - acesso fácil via A41). Aí têm lugar as danças de mouros e cristãos (ainda que nunca se misturem), assim como o 'jantar' servido a todos os participantes envolvidos nas danças. É ocasião de tomar também contacto com as 'estardalhadas' ou cenas de crítica social.
Se for apenas de tarde, o ponto mais alto é a prisão do velho, no Passal. Ocorre nos castelos aí construídos. Envolve as embaixadas, as disputas dos advogados, os tiros de 'canhão', a prisão e a intervenção libertadora da Serpe. Este clímax da festa ocorre já ao fim da tarde perto das 19h30. Mas antes disso, logo a partir das 15h00, ocorre na zona do Passal a cobrança dos Direitos, o ritual da Sementeira e a Dança do Cego. O trajeto seguido por estas manifestações é o seguinte: Saída de uma casa situada a meio da Rua José Araújo; contorno da rotunda na estrada principal; descida do Largo do Passal pelo lado sul, até junto à igreja paroquial e regresso ao ponto de partida pela rua a meio do Passal, sob os plátanos.
No fim da Prisão do Velho, já ao escurecer, há ainda a Dança do Santo, junto à igreja e a transmissão do testemunho à próxima comissão de festas, no adro.

Sobre a recolha de imagens na festa


As normas que foram definidas no ano passado relativas à recolha de imagens na festa visam acima de tudo dois objetivos: evitar a perturbação dos movimentos dos Bugios e Mourisqueiros, em particular nas Danças de Entrada; e promover imagens que não tenham no interior das danças pessoas estranhas a estas manifestações.
Portanto, ao contrário da interpretação de alguns, de que se pretende impedir de fotografar ou gravar a festa, pretende-se, isso sim, contribuir para a qualidade das imagens que cada um pretende obter.
Basta ver fotos das danças de entrada dos últimos anos: é quase impossível conseguir planos gerais sem estranhos dentro do espaço dos Mourisqueiros ou dos Bugios.
Cabe aos líderes de uma e outra formação impedir que o seu espaço seja ocupado por quem lá não deve estar. Mas cabe também a todos nós colaborar nessa tarefa.
Este ano teremos equipas externas a gravar registos para instruir o dossiê da candidatura da Bugiada e Mouriscada a património imaterial. Um esforço suplementar de todos para que consigam boas imagens é essencial.

sexta-feira, junho 21, 2013

Festa da vida e da paixão


A Festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado é como que a outra face do S. João do Porto, mas mais discreta e deslumbrante. Ambas partilham do encontro, da folia, da subversão próprias dos antigos ritos solsticiais; ambas são festas de celebração e refundação da identidade colectiva na rua. O S. João é, no Porto, uma festa nocturna e, em Sobrado, uma festa diurna. E talvez seja por causa do S. João do Porto que muitos forasteiros, interessados em conhecer a Bugiada, se tenham ficado pela cidade, na ressaca da noitada, adiando, assim, para outra vez a deslocação a Sobrado.
Quem vá a Sobrado sedento de exotismo ou à procura de vestígios de um mundo perdido é possível que os encontre. A máscara e a serpe, os guizos e as castanholas, os penachos e as barretinas, as danças e o combate, as músicas e os ritmos do tambor, a cor e a algazarra proporcionam esse mergulho num tempo fora do tempo. É o que se pode chamar um espetáculo completo, suprema colheita para os amantes da fotografia e do vídeo. E, no entanto …
Para a comunidade local, a festa é muito mais do que um espetáculo ou uma reconstituição histórica. É, acima de tudo, o assumir de uma tradição, reinterpretada nas exatas e precisas condições da existência do hoje, local e global. Numa terra que se transfigurou nos últimos 60 anos, por efeito do trabalho industrial, da emigração e da rede viária, esta vila passou a respirar em sintonia com o resto do Município e com a área metropolitana do Porto. Mas os sobradenses souberam encontrar nos novos modos e estilos de vida os pontos de ligação com a sua festa de S. João. Reinterpretaram-na e fizeram-na significativa para a sua vida e para as relações entre eles. Assim, a festa não se tornou um mono, mas antes a festa da vida e da paixão.
Os passos que têm sido dados no sentido do reconhecimento do seu interesse municipal (já concretizado), nacional e internacional (em vias de concretização) são naturalmente motivo de satisfação. Mas representam também um desafio: abertura à promoção de um turismo cultural de qualidade, articulado com outras ofertas na região, sem deixar que sejam pressões externas a condicionar as características, tempos e modos de fazer a festa. Isso é com os sobradenses. Outro caminho acabaria por pôr em causa aquilo que agora mesmo está a ser objeto de reconhecimento e, em última análise, por ameaçar a própria festa. Em suma, uma festa aberta mas sem perder a alma.

[Texto que me foi solicitado para publicação no Semanário Grande Porto, num destaque dedicado à Festa de S. João de Sobrado e previsto para hoje]

quinta-feira, junho 20, 2013

Transporte gratuito para acesso à festa no dia de S. João

A exemplo de anos anteriores, vai funcionar no dia de S. João um transporte gratuito para as pessoas que queiram ir participar na Festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado e não se queiram meter na (e aumentar a) confusão do trânsito na vila. Funciona entre dois pontos extremos de Sobrado: Pinguela, a Sul, para quem vem do lado de Valongo ou A4, e Balsa, do lado Norte, na estrada que vem de Lordelo e Paços de Ferreira ou da A41. De cada um dos lados há também parques de estacionamento automóvel, devidamente sinalizados, onde as pessoas de fora podem deixar os seus veículos e podem chegar ao espaço da festa de forma mais cómoda utilizando os referidos transportes públicos. 
A iniciativa cabe à Junta de Freguesia local e à Câmara Municipal. Segundo o Presidente da Junta, Carlos Mota, este serviço, que funcionará entre as 10h30 e as 13 e entre as 15 e as 22, nos dois sentidos, visa aliviar a pressão automóvel quer de visitantes de fora quer da vila, fazendo com que a participação na festa se faça com maior comodidade.
Recorde-se que a Freguesia de Sobrado, que se estende ao longo de um extenso vale banhado pelo rio Ferreira, tem mais de 7km de comprimento por estrada.


quarta-feira, junho 19, 2013

S. João, o Batista e Precursor

São João, que se celebra anualmente a 24 de junho, foi o primeiro anunciador e apontador de Jesus Cristo, um santo com características especiais porque dá testemunho da luz e da verdade, refere o biblista Armindo Vaz. Para o padre e professor universitário, a figura de São João conjuga austeridade, humildade e alegria e é extremamente importante “não por si e nem por si”, mas por aquilo que “ele anuncia e indica”, revela à ECCLESIA.
A Igreja Católica, acrescenta, dá-lhe “grande relevo” e é o “único santo, para além de Jesus, que tem vigília”, sublinha o religioso carmelita.
A Igreja percebe a “centralidade da figura de João Batista na história da salvação” porque ele “aparece como o último elo do AT [Antigo Testamento] que aponta para o novo”, prossegue.
Ao elevar São João à categoria de santo popular, o biblista Armindo Vaz realça que a festividade deste santo “leva a celebrar com alegria a vida humana”, uma nota que brota dos “textos bíblicos”.
Numa intervenção dedicada a este santo, em 2012, o Papa emérito Bento XVI destacou a figura de São João Batista, elogiando a “grande humildade e ardor profético” do precursor de Jesus, e lembrou que este é o único caso, à exceção da Virgem Maria, em que o calendário litúrgico católico festeja o nascimento de um santo.
“Fá-lo porque este nascimento esta estreitamente ligado ao mistério da incarnação do Filho de Deus”, justificou.
Bento XVI disse que os quatro Evangelhos “dão grande relevo à figura de João Batista, como profeta que encerra o Antigo Testamento e inaugura o novo, indicando em Jesus de Nazaré o Messias”.
São João, acrescentou, batizava no Rio Jordão, “chamando as pessoas a prepararem-se, como esse gesto de penitência, para a vinda iminente do Messias que Deus lhe tinha revelado durante a sua permanência no deserto da Judeia”.
Neste local, frisou o Papa, foi chamado “batizador” e ali receberia o próprio Jesus Cristo. “A sua missão não estava ainda cumprida: pouco tempo depois, foi-lhe pedido que precedesse Jesus também na morte violenta”, referiu Bento XVI, ao evocar a prisão e decapitação de São João, ordenadas pelo rei Herodes.
Fonte: Semanário Ecclesia, 13.06.2013

segunda-feira, junho 17, 2013

ARRE na Bugiada

A equipa artística da nova criação
da companhia teatral portuense Rei Sem Roupa, intitulada "ARRE - Peça para dois burros e dois actores", passará o próximo dia 24 de Junho em Sobrado estudando a Bugiada. A peça em criação, como o subtítulo indica, terá em cena dois actores humanos e dois asininos - tratando-se de uma co-produção com a AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (Atenor, Terra de Miranda do Douro).
Na festa de Sobrado, estaremos particularmente atentos às seguintes dimensões: a transformação da ordem instituída de uma comunidade, a crítica social, o uso do grotesco, da licenciosidade, do risco e de personagens aparentadas ao Bufão. O nosso objectivo é inspirar-nos as razões que mantêm estas expressões e encenações tão vivas e necessárias para a comunidade de Sobrado.

Eis uma descrição mais pormenorizada do projecto:
"ARRE: Peça para dois burros e dois actores é uma exploração teatral de pendor cómico que cruza, num espectáculo de rua, três pontos de partida: o Burro de Miranda, uma pesquisa sobre a linguagem teatral do Bufão e um imaginário inspirado na obra “D. Quixote de la Mancha”. A questão da idiossincrasia, como resistência à ordem (social, de poder, cultural, estética e mesmo moral) é o ponto unificador desta tríade."

Pedro Fabião
(Diretor artístico, encenador e ator, com raízes em Sobrado)

domingo, junho 16, 2013

Os castelos já estão prontos. Hoje é o Dia dos Tremoços

Castelo dos Mourisqueiros, construído ontem no Passal
Ontem foi Dia da Cabidela, na cronologia descendente a caminho da Festa de São João de Sobrado. Isto significa que foi o dia de ir ao monte para arranjar os pinheiros com que Bugios e Mourisqueiros construíram os castelos para a Prisão do  Velho da Bugiada. A seguir é tradição que os envolvidos nesse trabalho coletivo se reúnam à volta mesa para comer frango de cabidela.
Hoje é o Dia dos Tremoços, o que quer dizer, também, que é o dia do último ensaio (já que o último domingo antes  do São João calha na véspera do dia da festa). Atenção que este ensaio se faz não no Passal, mas junto à Casa do Bugio e não às  18, mas às 17. Porque, a seguir, Bugios e Mourisqueiros confraternizam num lanche de tremoços, broa e vinho.

quinta-feira, junho 13, 2013

Bugiada e Mouriscada .. mas não só

Nunca será de mais sublinhar que a Festa de S. João de Sobrado é bem mais rica do que as danças e a luta que envolvem Bugios e Mourisqueiros. O gráfico seguinte, que fiz para a recente conferência sobre cultura popular em Boticas,  procura sublinhar três aspetos:
- a centralidade da Mouriscada e Bugiada nesta festa;
- a diversidade de outras manifestações;
- a relação que existe entre essas manifestações e a Mouriscada e, principalmente, a Bugiada.


quarta-feira, junho 12, 2013

(6) Quais são alguns dos desafios que a Festa de S. João de Sobrado enfrenta?


A festa da Bugiada e Mouriscada exprime a identidade dos sobradenses e, ao acontecer, refaz e actualiza essa mesma identidade. É uma grande manifestação comunicativa, em que a palavra é secundária e em que a mensagem e o sentido se produzem através do movimento, do corpo, do ritmo e da música, e em que a máscara ocupa um papel central.
Fica claro que não estamos, em Sobrado, perante um teatro, um desfile, um espectáculo ou uma reconstituição histórica. Se algo disso há na Bugiada e na Mouriscada, e em tudo o mais que faz esta festa, o que aqui temos é uma iniciação à vida social; uma aprendizagem da importância daquilo que hoje vale pouco, no mercado dos valores: a combatividade, a busca de sentido, a pertença a um grupo, a competição sadia, o diálogo com o diferente como via para cada um se tornar pessoa. O que não quer dizer que tudo isto seja vivido por todos ou seja vivido do mesmo modo ou pelos mesmos motivos.
Nunca fomos muito dados a reflectir e debater o sentido desta festa. E, no entanto, todos vibramos com ela. E dela poderíamos dizer algo parecido com o que Santo Agostinho disse, quando um dia lhe perguntaram o que era o tempo: “Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.” É um pouco assim que se sente o sobradense a quem o repórter pergunta o que experimenta ao dançar ou ver dançar. Na melhor das hipóteses receberá como resposta: “é a paixão!”
Mas, sem grandes argumentos, sem grandes discursos, através da festa, os sobradenses conversam entre si, lá vão encontrando meio de conviverem uns com os outros. Não são certamente nem melhores nem piores do que os habitantes de outras terras, mas aprendem a ser gente à sua maneira.
Todos sabemos que os de Sobrado eram conhecidos nas terras circunvizinhas como uns tolos que fazem tudo ao contrário(*). Isto porque nos trabalhos do campo ritualizados na festa, começam por semear antes de lavrar e gradar. Mas também jantam o cozido ao princípio da manhã e vencem uma batalha não pela intercessão de S. João Batista, venerado nesse dia, mas de uma Serpe. Esta festa, como muitas outras festas tradicionais, opera por inversão. Por um dia vira as coisas e a vida do avesso. Por um dia um operário ou um comerciante podem ser reis. Mas do mesmo modo por um dia há quem delire a fazer de cego ou de mulher de sapateiro. No dia seguinte, a vida continua, mas nunca continua igual, porque se sai da festa com a alma lavada, com a sensação de ter vivido num dia o que um ano inteiro não permite.
Ao vermos, nos nossos dias, as tensões e as guerras entre os muçulmanos e os cristãos e as dificuldades do diálogo e da compreensão mútua entre os dois mundos, não deixa de ser espantoso ver como em Sobrado, Mouriscada e Bugiada – eles e nós; nós e os outros; o mesmo e o diferente – convivem, combatem, vencem e são derrotadas e, no fim, uma e outra excecutam a Dança do Santo. Não como vencedor e vencido, mas como agrupamentos diferentes, mas iguais em direitos, estatuto e dignidade . Em Sobrado, os Mouros não são convertidos, como, por exemplo, acontece no Auto de Floripes, contra os Turcos. E isto, poderíamos nós ler hoje, é um sinal interessante de diálogo intercultural, de convivência entre diferentes que se reconhecem iguais em dignidade.
No momento em que em Sobrado se descobre que a sua festa é uma manifestação valiosa de património cultural imaterial, vale a pena realçar os aspectos nela contidos, que a colocam em sintonia com grandes desafios do nosso tempo. Com a memória e a consciência do valor da herança que recebemos, queremos caminhar não a olhar para o passado, mas a enfrentar os reptos do futuro. E esses reptos do futuro
- passam pela preservação, o que supõe investir num núcleo museológico da festa da Bugiada e da Mouriscada;
- passam pela promoção, como tem estado a acontecer com o reconhecimento municipal, com o registo nacional e a candidatura à lista da UNESCO; e
- passa pelo estudo e pela investigação, já que esta festa nunca foi até hoje estudada de forma sistemática e em profundidade e, sem isso, nós não podemos dar o devido valor àquilo que temos.
Como observava Hélder Pacheco, num colóquio realizado em Sobrado, em Junho de 2006, a propósito da singularidade do S. João de Sobrado, “não afirmar esta diferença e esta identidade própria seria absolutamente fatal, no contexto de uma Europa cinzenta e carente de côr.”
................
(*) Notícia de "O Vallonguense", nº1, de 29 de Junho de 1913:
"Realizou-se na passada terça-feira a festa de S. João Baptista. Houve as tradicionais danças dos 'Mouriscos e Bugios' sempre muito engraçadas e apimentadas. Não há meio de tirar esta antiga costumeira, tão enraizada está nos hábitos deste povo a quem chamam tolo; eu penso porém que mais tolos são aqueles que atravessando montes e vales o vêm apreciar. Tolos não, finos é que eles são, porque com suas artes pitorescas chamam grande número de forasteiros à sua terra".

terça-feira, junho 11, 2013

(5) Como lidar com as pressões externas e internas que uma tradição como esta necessariamente gera?

Uma festa complexa e polifacetada como a Bugiada e Mouriscada está sujeita a múltiplos focos de tensão e mesmo a pressões de sentidos diversos e contraditórios.
No interior da comunidade, as possíveis causas dessas tensões decorrem desde logo do facto de a festa se estruturar em torno de uma luta entre dois grupos: o de toda a gente, digamos assim, folgazão, colorido e excêntrico; e o dos jovens solteiros, que representam o novo, o diferente, o outro. Temos aqui uma tensão entre o
Passal - Espaço privilegiado da festa
passado e o futuro, entre o mesmo e o diferente, que vai ocorrer noutros momentos e manifestações desta tradição.
Depois, há a tensão que decorre da disputa pelos lugares de poder na festa e, particularmente, pelos lugares de Reimoeiro e de Velho da Bugiada. Objeto de sonhos de muitos anos, a ascensão envolve rivalidades, julgamentos e negociações que nem sempre são fáceis de assimilar. Nos últimos anos, quer uma quer outra formação encontraram modos e normas que tornam as escolhas mais transparentes e, espera-se, também mais pacíficas.
Sobrado viu partir muitos dos seus habitantes - poderíamos dizer: umas boas centenas -  e viu também instalar-se no seu território muitas pessoas que trabalham ou estudam fora e isto acarreta diferentes modos de ver e viver a festa, de nela investir. São as dinâmicas próprias de uma comunidade viva.
Mas não podemos esquecer que a Festa não é só dos que nela directamente tomam parte. As mudanças das últimas décadas originaram uma forte mobilidade social e uma facilidade de circulação que faz com que muitos sobradenses vivam fora; que muitos de fora tenham vindo viver para Sobrado; que a abertura ao mundo, proporcionada pelos meios de comunicação, tenha gerado uma maior diversidade de pontos de vista e de sensibilidades, que se reflectem também na festa.
Por outro lado, quem vê a Bugiada de fora, não chega a aperceber-se de que ela é bem mais do que a mera repetição anual de umas manifestações exóticas e interessantes, que dão umas imagens espectaculares para fotógrafos e televisões.
Não é, assim, de estranhar que se repitam as pressões para levar a Bugiada e a Mouriscada para desfiles e outras performances e eventos, desconectando as danças do seu tempo, lugar e sentido. Os canais de televisão chegam até a pretender alterar as horas de certas partes da festa, quando não a encenar movimentos de dança em estúdio, com o argumento de que, por essa via, estão a colaborar na promoção da festa.
Vemos, deste modo, que a Festa da Mouriscada e Bugiada que gera naturalmente tensões vem conhecendo pressões novas geradas na comunidade e fora dela, com as quais é necessário conviver e urge saber gerir. Muitas das tensões exprimem a intensidade e paixão com que aqui tudo é vivido.
Não se pode ser fundamentalista: A festa não é como uma jóia que alguém guardasse em casa com o máximo cuidado para que nada nem ninguém lhe tocasse, para se manter como sempre foi. É viva e, assim como faz a comunidade e configura a sua identidade, também é feita por ela. Porém, também não se pode esquecer que toda a banalização das danças e rituais, toda a cedência a caprichos ou interesses deste ou daquele, se virará a prazo contra a própria festa. Há dinâmicas de mudança na festa que advêm da sua natural adaptação aos novos tempos. Mas há mudanças e mudanças e há que discernir entre o que ajuda a festa a enriquecer-se e aquilo que, a prazo, a pode descaracterizar e matar. Grave seria se algum iluminado entendesse por si só o que é ou não correto fazer.
Para isso à Casa do Bugio cabe um papel que importa prosseguir e aprofundar, de preservação e promoção, ouvindo o conselho de Velhos, os que tiveram lugar de destaque nos Mourisqueiros, os amantes das restantes manifestações da festa, num entrosamento estreito com o pulsar da comunidade local.