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terça-feira, junho 16, 2015

Ensaio 2015: Bugios pequenos são o futuro da festa

Os ensaios vão avançando e é sempre com emoção e esperança que se assiste ao 'bloco' dos mais novos, no ensaio da Bugiada. Quanto à Mouriscada nem é preciso falar, já que são todos jovens, alguns ainda dolescentes.

https://vimeo.com/130797204

segunda-feira, junho 23, 2014

Quem são os titulares de cargos na festa deste ano?

São os seguints os postos de responsabilidade na hierarquia de Bugios e Mourisqueiros, nesta Festa de 2014:



Como sabem os Sobradenses, não existem os postos de Meios nos Bugios dada a dimensão da Bugiada.

segunda-feira, junho 17, 2013

ARRE na Bugiada

A equipa artística da nova criação
da companhia teatral portuense Rei Sem Roupa, intitulada "ARRE - Peça para dois burros e dois actores", passará o próximo dia 24 de Junho em Sobrado estudando a Bugiada. A peça em criação, como o subtítulo indica, terá em cena dois actores humanos e dois asininos - tratando-se de uma co-produção com a AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (Atenor, Terra de Miranda do Douro).
Na festa de Sobrado, estaremos particularmente atentos às seguintes dimensões: a transformação da ordem instituída de uma comunidade, a crítica social, o uso do grotesco, da licenciosidade, do risco e de personagens aparentadas ao Bufão. O nosso objectivo é inspirar-nos as razões que mantêm estas expressões e encenações tão vivas e necessárias para a comunidade de Sobrado.

Eis uma descrição mais pormenorizada do projecto:
"ARRE: Peça para dois burros e dois actores é uma exploração teatral de pendor cómico que cruza, num espectáculo de rua, três pontos de partida: o Burro de Miranda, uma pesquisa sobre a linguagem teatral do Bufão e um imaginário inspirado na obra “D. Quixote de la Mancha”. A questão da idiossincrasia, como resistência à ordem (social, de poder, cultural, estética e mesmo moral) é o ponto unificador desta tríade."

Pedro Fabião
(Diretor artístico, encenador e ator, com raízes em Sobrado)

terça-feira, julho 03, 2012

Sete notas sobre a festa de 2012


É sempre muito o que observo e aprendo com cada edição da festa. Este ano não foi exceção, ainda que tivesse tido de prestar mais atenção ao acompanhamento de alguns visitantes do que ao modo como decorreram algumas partes e às vivências em torno da festa.  Aqui vão algumas notas:

1.
- Bugios: São sempre impressionantes pelo número, pela cor, pela algazarra. Os 'sardões' estão a desaparecer, não estão? Alguém me dizia que os Bugios agora já não saltam com antigamente. Será? Será do calor? Costumamos dizer que são sempre para cima de 600. As aparências enganam. Pus-me a contá-los à entrada do 'jantar' e não chegavam a 400. Supondo que não falhei por muitos, mesmo assim é muita pessoa. Já agora: porque é que não pôde ir uma menina Bugia limpar as lágrimas ao Velho, como era desejo deste? Se elas vão de Bugio (que não é tradição antiga), porque não podem subir ao castelo?

2.
- Mourisqueiros: uma grande Mouriscada quanto ao número, não haja dúvida. Contei 44 mais o Rei. Alguns com ar de muito novos o que abre perspetivas para o futuro. Em algumas partes do dia, o cansaço era bem visível até nos postos cimeiros do 'exército'. Na Prisão do Velho houve algumas falhas, mas ninguém é perfeito. Não sou daqueles que exigem atuações sem falhas, embora estas possam servir de lição e estímulo para os que vierem a seguir.

3.
- Nas Entrajadas, para mim (e julgo que não só), se houvesse um prémio coletivo, ia diretinho para os Supermercados Pito Doce. Notável pelo trabalho, pela apresentação e pela criatividade. Em termos individuais, o observador da UNESCO, devidamente 'credenciado', foi também uma figura que se destacou.  Esta parte é sempre interessante. É uma parte constituinte da Festa, que importa não perder nem abandalhar. Mas faz parte ser crítico, ser criativo e ser polémico. Quanto à água, este ano 'provei' a valer, mas como estava calor soube bem. Não sou radicalmente contra, mas acho que se isto começar a descambar, grande parte das pessoas ir-se-á embora mal acabem as danças de entrada, o que jogaria contra os próprios grupos que investem nas Entrajadas. Fica aqui o apelo.

4.
- O arranque da festa na casa do Reimoeiro e do Velho é sempre um indicador precioso do carinho com que familiares e vizinhos recebem a honra de ter, por um dia, um tão saliente destaque na Festa de S. João. O arruamento do Caminho Novo tinha a abrir, a foto engalanada do Reimoeiro, como que a dizer que estávamos a entrar no seu território. O Velho tinha igualmente a casa engalanada, mas preferiram aproveitar para homenagear o S. João. E está bem. Foi aqui - ou seja, na Balsa - que ouvi um sobradense já com mais de 60 anos comentar, ao ver a Dança dos Bugios: "Sabes, fico doente a ver isto. Foram muitos anos a dançar. Mal cheguei aqui, comecei a vê-los, fiquei logo mal". Estranha doença esta que tem quem venha ao seu encontro, não é? (digo eu).

5.
- Fotografias e vídeos: este ano foram aprovadas algumas normas para que os fotógrafos não atropelem nem estraguem as danças. Já correu melhor do que em anos passados. Mas há ainda um longo caminho a percorrer. Alguns, às tantas, não sabiam do regulamento. Mas outros fizeram-se de 'alonso' e lá andavam feitos Bugios e Mourisqueiros sem farda. Os próprios Bugios e Mourisqueiros e, desde logo, o Velho e o Reimoeiro, devem ser os primeiros a impor ordem nesse aspeto. Quem quiser fotografar faz isso de fora do espaço da dança, sobretudo nos momentos mais importantes.

6.
- Comissão de Festas: em Sobrado não era novidade haver comissões constituídas só por mulheres. Creio que pelo menos já houve na Festa da Sª das Necessidades. Mas na Festa de S. João, que é território ainda muito masculino, foi a primeira vez, o que merece registo. A imagem que passou para o exterior foi de que formaram equipa e trabalharam equipa. E, como era de esperar, deram conta do recado. Entre outras iniciativas, a Comissão apoiou a edição de um livro ilustrado, da autoria de Francisco Costa, que só tive ocasião de encontrar alguns dias depois da Festa.

7.
- Câmara de Valongo: este ano investiu na Festa como creio nunca ter acontecido no passado. Algumas das iniciativas já foram aqui noticiadas. O (novo) Presidente da Câmara convidou homólogos seus (vi o Presidente da Câmara de Paredes, de Felgueiras, de S. João da Madeira, pelo menos). Estiveram também na Festa Presidentes da Junta do Município. Houve quadros superiores da Câmara que estiveram nos ensaios e durante todo o dia da Festa. Para os sobradenses e os munícipes em geral, é bom e salutar sentir esse interesse e esse investimento.Até porque no dia 24 à noite, começou a contagem decrescente para a Festa de 2013. E o ano que vem aí promete trazer novidades.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Rodney Gallop (3) - A Prisão do Velho


"Começava agora a segunda parte da Mouriscada. Dois pequenos palanques de madeira tinham sido levantados no largo terreiro verde, a mais ou menos 70 metros [oitenta jardas] um do outro.
Os dois reis posicionaram-se nestes 'castelos, cada qual acompanhado por alguns dos respectivos seguidores devidamente escolhidos, e começaram a enviar um ao outro mensagens provocatórias, através de 'embaixadores' a cavalo. Ao mesmo tempo que cada embaixador arrancava para a sua tarefa com a mensagem sob a forma de um pedaço de papel ou de uma folha de plátano enfiados na espada, os guerreiros disparavam salvas de tiros com mosquetes de carregar pela boca cujo fumo subia no ar.
Eram já oito da noite e o sol baixava no horizonte. Chegou um momento em que a pólvora se extinguiu entre os Bugios, impossibilitando-os de continuarem a defender-se. Os Mouriscos puseram-se em formatura e marcharam para irem atacar o castelo daqueles. Por duas vezes desencadearam o assalto e nas duas vezes foram repelidos. Com o seu rei adiante, à terceira vez conseguiram tomar conta da escada. Houve breve escaramuça no pequeno palanque e o Rei Bugio, agora de máscara, podia ver-se escudado atrás dos seus homens. Pouco tempo depois o rei dos Mouros encontra-o e atira-o ao chão. Instaura-se um silêncio súbito. O monarca caído senta-se e os seus seguidores vão à vez dizer-lhe um adeus choroso, dando-lhe abraços enternecidos. De seguida, com um gesto imperial, o seu captor ordena-lhe que desça os degraus, os Mouriscos formam uma falange fechada e, ao som de uma marcha fúnebre, levam-no dali para fora. Com lágrmas e lamentações, os Bugios seguem-no de perto.
Por momentos sentimo-nos transportados para longe, no espaço e no tempo. Parecia que estamos a ver, com os nossos próprios olhos, o antiquíssimo cortejo fúnebre de Osíris. Se assim fosse, não deveríamos assistir igualmente à sua libertação das amarras da morte? A resposta não tardou a chegar. Num ponto afastado do terreiro registou-se uma súbita manobra. Da parte de baixo do seu 'castelo' um grupo de Bugios arrastou um 'dragão' descomunal grosseiramente feito de madeira e tela. Pegando na Serpe como se fosse uma máquina de guerra, carregaram sobre os Mouriscos ao som de gritos que ecoavam pelos ares. Estes abrem brechas sob efeito do terror, permitindo que o prisioneiro seja salvo pelos seus homens e levado em triunfo. Osíris morto voltara à vida e, agora, terminada a pantomina, faltava apenas a Dança do Santo para dar um final cristão a esta cerimónia pagã. Uma vez mais, as duas formações executaram as suas estranhas danças, desta vez em frente à igreja, em honra de S. João, assim encerrando um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna".
(Continua)

terça-feira, dezembro 27, 2011

Rodney Gallop (2) - Bugios: seus trajes e sua dança

"Quando esta dança terminou os Mouriscos sairam do quinteiro a marchar em fila única. No portão cruzaram-se com um bando de figuras vestidas de modo ainda mais incongruente do que eles próprios. Os Bugios, como eram chamados, trajavam com capas de cores garridas, casaco tipo gibão cintado e abotoado e calça curta, pelo meio da perna (alugado, de facto, num figurinista de teatro do Porto). Todos usavam máscara, algumas com caras de animais e, na cabeça, traziam chapeus de cavaleiro adornados com fitas de papel e culminando numa cascata de fitas como aqueles que usavam os mascarados ingleses. Nas mãos, cada qual trazia algum objecto doméstico ou ligado à agricultura. Assim como os Mouriscos eram contidos e ordenados, estes eram um tanto rudes e violentos no comportamento. Com gestos selvagens e gritos rudes avançavam para o quinteiro, começando a dançar alinhados em duas filas, tal como os que os precederam.. A música, agora, consistia num pequeno fragmento de melodia indefinidamente repetido por duas rabecas e um violão.
O rei dos Bugios, o único que não ia mascarado, posicionava-se no centro. Usava uma barretina alta e emplumada e um manto eclesiástico de rico damasco encarnado debruado a ouro, com uma dobra sobre os ombros (foi-nos dito que o Rei Bugio tem um privilégio que consiste em poder escolher o seu vestido de entre as vestes ou adereços da igreja). Enquanto os seus seguidores saltavam desajeitadamente nos seus lugares, o rei convocava, à vez, cada um dos pares e mediante os gestos balanceados de um nigromante parecia transmitir-lhes perversas e secretas ordens. De seguida, levantando ligeiramente os braços e as mãos, despedia aquelas figuras meio encolhidas. Uma volta e um salto colocavam-nos no fim da fila. Se a dança anterior tinha todo o ar de preparação para uma batalha, esta estranha e ameaçadora performance trazia-nos à mente nada mais do que o 'dia das bruxas' e isto precisamente no dia em que a bruxaria é todo-poderosa. (...)"

Crédito da foto: Rei dos Bugios, desenho publicado na p. 173 da obra de R. Gallop.
(continua)

quinta-feira, dezembro 08, 2011

"O sonho de ser, um dia por ano, dono do mundo"

"O sonho é ir de bugio e a bugiada torna-o realidade. O sonho dos pobrs (e, como o sonhar também enche a barriga, contaram-me que, em Sobrado, um pai levava os filhos a dançar na bugiada para esquecerem a fome). Sonhos de momentos: danças, rituais insólitos, trajos inesperados, fantasias e sonoridades esquecidas. Castanholas e guizos. As cores berrantes, chamando a atenção: este é o meu sonho. E a máscara é presença omnipotente, chave da transmutação. /(Quem somos nós, que a vida é um instante?). Máscaras fantásticas, ocultando rostos. «Quem vai ali?» ninguém sabe, e o bugio não pára, a dançar, a dançar. A correr, a voar pela festa. «Ali vai a minha roupa de bugio». «Então emprestou a roupa?» «Pois! Ai que desgosto, ando aqui aleijado duma perna e num posso andar ós saltos. Bem me custa ver outros com a minha roupa e a minha máscara!». Perguntei a um bugio que descansava da corrida: «Foi você que fez o trajo?». «Eu num sei costurar, mandei-o fazer a uma costureira». «Há quatro anos que venho de bugio». Esta, sim, é a Festa. É o país dos encantamentos que resistem. É o sonho de ser, um dia por ano, dono do mundo. Feito bugio, escondido por detrás da máscara. É a alegrisa (e a dor?)". 
Helder Pacheco  
Nota sobre a Festa de S. João de Sobrado de 1986.
in O Grande Porto. [Novos Guias de Portugal]. Editorial Presença, Lisboa, 1986, p.165.
(No exemplar que me dedicou, o autor agradece o ter-lhe "desvendado o rosto desse país fantástico e terno que permanece na Bugiada de Sobrado").
(Crédito da foto: Marjoke Krom)

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Entre 1750 e 1880:
danças da Bugiada também em Valongo


Ao longo de bem mais de cem anos, Valongo foi palco de uma grande festa que dois autores valonguenses, Francisco Ribeiro Seara e Lopes dos Reis, consideraram a "festa popular mais importante e mais signficiativa" do concelho e que incluía uma Dança da Bugiada.
Tive oportunidade de me referir a este facto aquando do acto comemorativo dos 175 anos da criação do concelho de Valongo, que decorreu na passada terça-feira, dia 29 de Novembro, numa iniciativa da Câmara Municipal, através do Arquivo Histórico do Município. E estou, naturalmente, a referir-me à festa de Santo António dos Almocreves, que tinha o seu momento alto no segundo domingo de Julho.
Que tradição era esta, então?

Uma festa dos almocreves

Podemos dizer que almocreve era o comerciante que, sozinho ou em grupo, percorria por vezes longos trajectos para levar e trazer mercadoria e, desse modo, assegurar o abastecimento dos aglomerados populacionais mais significativos. Desde a Idade Média até épocas não muito longínquas eles foram, no dizer de Borges de Macedo (1), «a coluna vertebral dos transportes internos».
A festa nasceu em 1750, no contexto de uma grande epidemia que começou a dizimar os animais de carga que eram "a alma de negócio" dos muitos almocreves de Valongo.
Ora, desde muito cedo, Valongo foi terra de almocreves que iam além-Marão e até ao Alentejo para abastecer as moagens de trigo e centeio e assim permitir a a panificação de que vivia boa parte da cidade do Porto. Já a Corografia Portugueza, publicada pela primeira vez em 1708, observava que Valongo (e mantemos a escrita da época) “[…) he povo grande e arruado habitado de muitas padeiras que sustentão o Porto de pão que elas lá levão a vender, e de muitos almocreves, que vivem de conduzir de muitas légoas o trigo para suas mulheres cozerem" (2).
Temos, pois, que a economia de Valongo vivia, em boa medida, dos almocreves e da panificação. E, aos olhos destes comerciantes Santo António foi decisivo para debelar o mal que deu nas bestas, pelo que decidiram honrá-lo e festejá-lo à altura do 'milagre' obtido.

Sumária descrição dos festejos

Seguindo a descrição que da festa faz, em 1904, o autor de "A Villa de Valongo", o P. Joaquim Alves Lopes dos Reis (3), os festejos arrancavam ainda no mês de Junho, na véspera de S. Pedro, dia em que se tornou tradição sair o Bando , que era um grupo de homens montados em jericos, à frente do qual seguia um pregoeiro a anunciar o programa que aí vinha. Mas era na quarta-feira anterior ao segundo domingo de Julho que o ambiente de folgança começava a animar-se. Nesse dia um burro percorria as ruas da terra distribuindo archotes que seriam usados na Cavalhada, na véspera da festa à noite. Esta Cavalhada metia bandas de música seguidas de cavaleiros com tochas a arder, o que deveria tornar o cortejo motivo de atracção. Houve quem visse neste acto um vestígio da procissão de agradecimento dos almocreves a Santo António.
No domingo da Festa, logo ao nascer do Sol, formava-se em casa do Juiz a Bugiada. Ao mais velho no ofício cabia designar o Juiz novo que era procurado e trazido na situação em que se encontrasse. Após isso, servia-se um lauto almoço. Deduz-se da descrição que nos chegou que havia, neste momento, a Dança dos Bugios. Só depois dela é que se formava o Tambo, um cortejo que se dirigia à igreja paroquial, onde se realizavam cerimónias religiosas. Findas estas, voltava a dançar a Bugiada em frente ao templo, a que se seguia o jantar. Diz-nos Lopes dos Reis que esta Dança da Bugiada junto à igreja era especialmente querida da população local, tal como a música que a acompanhava, a qual (a exemplo do que acontece em Sobrado, nos nossos dias) não podia ser tocada sem que as pessoas começassem a dançar também. Pelos vistos, a Dança da Bugiada de Santo António dos Almocreves tornou-se de tal modo marca da festa e valorizada pela população que havia gente importante que fazia questão de participar. E só quando a festa começou a decair é que a dança passou a ser participada sobretudo pela, digamos assim, arraia miúda.
A festa prosseguia na segunda-feira com o Jantar dos Cozinheiros participado por todos os que, de algum modo, tinham concorrido para a organização. E eram esses que, no fim do repasto, iam pelas ruas da vila, trajados de modo exótico (à turco, dizia-se), executando a Dança dos Odres. Dois dias depois, na quarta-feira,  a festa encerrava, finalmente, com actos na igreja, um jantar, desta vez pago já pelo Juíz novo, à porta do qual a Bugiada voltava a dançar pela terceira e última vez. Nesse dia à tarde, voltava-se a juntar muita gente da terra e de fora, porque havia como que a apoteose, com uma série de danças e entremeses, uma boa dúzia delas. À noite, ainda se realizava a Entrega do Santo, no qual, além dos membros das Cavalhadas, participava a mulher do Juiz velho, acompanhada de moças que empunhavam velas acesas.

Dois comentários

Este é um quadro rápido e sumário de uma festa rica e complexa que merecia ser mais investigada e estudada. Resta fazer duas ou três observações a propósito.
Em primeiro lugar, a festa entra em decadência na segunda metade do século XIX e acaba mesmo em 1880. E porquê? Lopes dos Reis não aborda o assunto, mas eu atrevo-me a deixar uma possível explicação. Em 1872, o Governo adjudica a construção da Linha (ferroviária) do Minho, a qual é aberta à circulação até Braga em 1875. Neste mesmo ano, entra em funcionamento um primeiro tramo da Linha do Douro, entre Ermesinde e Penafiel. A partir de então, estava aberta uma forma mais rápida e segura de viajar e fazer circular a mercadoria. O caminho de ferro, que representou um progresso extraordinário, representou o atestado de morte aos almocreves, pelo menos, nas zonas servidas pela rede ferroviária. O município de Valongo é, todo ele, à excepção de Sobrado, atravessado pelo comboio. Nesta nova situação, com os almocreves em crise e certamente á procura de novas formas de subsistência, não houve Santo António que lhes valesse e, assim, a festa desapareceu. Um pormenor curioso: as danças mais características da festa de Santo António, essas a população não as deixou desaparecer tão rapidamente: começaram a ser apresentadas na festa do padroeiro da vila de Valongo, S. Mamede. E isso prolongou-se por muitos anos.
A segunda observação é, naturalmente para chamar a atenção para uma série de sinais de aproximação entre a Festa de Santo António dos Almocreves de Valongo e o S. João de Sobrado. Claro: desde logo pelas danças da Bugiada e pelo papel de relevo que tinham na festa valonguense. Mas também pela música e o carinho que esta despertava na população e, finalmente, pelas "papeladas", que eram habitualmente, formas (escritas) de crítica social. De tudo isto encontramos algo em Sobrado. Muitas danças de Valongo, de resto, aparentam-se com manifestações típicas descritas nas procissões de Corpus Christi. O que me leva, de novo, a deixar no ar a hipótese de, tanto alguns aspectos das danças e lutas de Sobrado como várias das danças de Valongo poderem, em alguma fase do seu desenvolvimento, ter tido algum tipo de presença em alguma das procissões de Corpus que se fazia nesta região (nomeadamente no Porto e em Penafiel).
Muito que investigar e que estudar, por conseguinte.

Referências
(1) Borges de Macedo, J. "Almocreve" in Dicionário de História de Portugal (dir. de Joel Serrão)
(2) Costa, Ant. Carvalho da  (1708) Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal…, vol. II
(3) Reis, J. Alves Lopes dos  (1904) A Villa de Valongo. Porto:  Typographia Coelho (a vapor).

quinta-feira, maio 05, 2011

Bugios e macacos no Google

Pode admirar-se quem pesquisar pela palavra "Bugios", no Google, e aparecerem-lhe imagens como esta:





Espantam-se os de Sobrado ou que conhecem a festa sobradense, porque não sabem que a palavra bugio se refere também a uma espécie de macacos frequente em diversas regiões da mata atlântica do Brasil. Espantar-se-ão certamente os conhecedores dos macacos brasileiros, porque não imaginarão que, do outro lado do mar, existe uma festa que os inclui (ainda que sob a espécie humana) e uma gente que tem paixão de pertencer aos bugios. Resta saber quem foi buscar a palavra a quem ou se foram todos a uma terceira fonte. Nós não sabemos.

sexta-feira, abril 15, 2011

Bugios ao castelo - preparando a prisão do Velho


(vídeo de PauloMF04)

terça-feira, setembro 21, 2010

Já há Velho da Bugiada para 2011

Manuel da Marta é o Bugio escolhido para exercer a função de Velho da Bugiada na festa de S. João de Sobrado de 2011.
A escolha foi efectuada pelos Velhos de edições anteriores da festa, que compareceram numa reunião realizada esta sexta-feira, na Casa do Bugio.
O escolhido é um dos vários nomes de quem se falava com hipóteses de vir a ocupar o lugar. Tem 49 anos e trabalha no sector das madeiras.

domingo, agosto 08, 2010

Um testemunho


[Clicar para ampliar e ler]

terça-feira, julho 06, 2010

Bugios venceram Mourisqueiros?

Numa notícia escrita sobre a Festa de São João de Sobrado deste ano, uma repórter do Jornal de Notícias escreveu um texto intitulado Bugios venceram Mourisqueiros.
Aparentemente, tem toda a razão. Mas eu gostaria de dizer porque é que discordo desta interpretação.
É verdade que, na narrativa da Bugiada e da Mouriscada de Sobrado, se desencadeia uma guerra, que os Mouriscos atacam e invadem o castelo dos Bugios, levam o Velho da Bugiada preso, saindo aparentemente vitoriosos da contenda.
É também verdade que os Bugios não se rendem à derrota, recorrem a um dragão de alguns metros de comprido, esverdeado e de língua vermelha, aparecem de rompante no caminho dos Mouros e libertam o Velho.
Por conseguinte, a jornalista do JN teria razão. Aparentemente assim é. Porquê?

- Se se tratasse de uma derrota dos Mouros, como compreender que eles, uma vez liberto o Velho e passada a corrida aparatosa da Bugiada se reorganizem e vão tranquilamente para a Dança do Santo, junto ao adro, como se nada se tivesse passado? Se eles fossem uns derrotados, deveriam eclipsar-se e não pôr mais os pés na festa. Mas não: eles continuam na festa, garbosos e organizados como sempre.
Eu proponho uma explicação: nesta festa, e ao contrário do que pretendia, há uns anos atrás, quem relatava a festa no Passal, durante a Prisão do Velho, os Bugios não são os bons e os Mouros não são os maus. De resto, o lado subversivo, orgiástico e excessivo desta festa é precisamente dos Bugios. Os mouros são os bem comportados, os organizados, os disciplinados, aqueles que, no dizer de um forasteiro, "andam muito direitinhos". Não é verdade que são os Mouriscos - e não os Bugios - que têm a honra e a dignidade para ir na procissão e transportar o andor dos santos - e particularmente o de S. João)? Se fossem os maus, como compreender esta situação?
Por isso, o que existe nesta festa não é a convencional e simplista versão da luta entre bons e maus, que termina invariavelmente com a derrota dos maus e a vitória dos bons. Há é uma representação do conflito entre a norma e a sua transgressão, entre o mesmo e o diferente. E esta tensão - que, em Sobrado, redunda em guerra - é uma tensão que não morre, que não é derrotada, porque a vida é feita deste diálogo, por vezes complicado, com a diferença, com os outros que são diferentes de nós, que vêm de fora. Chamam-se Mourisqueiros, como poderiam chamar-se outra coisa. Existem e têm muito a ensinar-nos (e vice-versa).
Por isso eu não acho que seja completamente verdadeiro, do ponto de vista interpretativo, o título do artigo do Jornal de Notícias.

sábado, julho 03, 2010

Notas telegráficas


  • Os Bugios, no percurso que fazem entre a casa do Velho e o local do 'jantar', são brindados com música da marcha da dança de Entrada, por parte de habitantes locais que possuem essa música gravada. Vi isso acontecer em algumas ruas do Alto Vilar, nomeadamente.
  • Um miúdo Bugio que este ano subiu ao palco para se despedir do Velho e limpar-lhe as 'bagadas' no dia em que foi à loja para acertar a máscara e levar todo o equipamento para casa: na semana antes da festa, segundo a mãe, estava sempre a contar quantos dias faltavam para o dia 24. Comentário, na antevéspera: "Oh mãe, amanhã já só falta um dia!"
  • A aparelhagem sonora que a Comissão de Festas deste ano mandou instalar quer na Casa do Velho quer na Casa do Bugio permitiu que um muito maior número de Bugios pudesse dançar ao ritmo da música. Dada a dimensão da Bugiada, esta iniciativa revelou-se oportuna e útil.
  • Um Bugio apaixonado não pôde, este ano, 'matar a paixão', visto que se encontrava a recuperar de uma forte dor ciática. Ainda assim fez questão que a sua farda saísse, mas no corpo de outro Bugio.
  • Julgo que todos os Mourisqueiros se integram na procissão, no fim da missa de festa, transportando três dos andores, incluindo o de São João. Os que não pegam ao andor, colocam-se a seguir, para substituir os primeiros de tempos a tempos.
  • Houve um jornalista que tentou obter declarações em directo da parte do Reimoeiro, durante a Dança de Entrada. Este, porém, recusou-se, uma vez que a intromissão do repórter é considerada uma falta de respeito para com o momento solene da festa.
  • Uma criança familiar do Sr Generoso entusiasmou-se com os Bugios ao ver, ainda no Brasil, os trajes que estes usavam. Ao chegar a Sobrado e ao ver as duas formações a dançar, não teve dúvidas: passou a gostar mais dos Mourisqueiros.

domingo, novembro 22, 2009

Aprovadas normas para a escolha do Velho da Bugiada

Foram ontem aprovadas várias normas que passarão a presidir à escolha da sempre disputada função de Velho da Bugiada. Ao contrário do que se tem passado com a escolha do Reimoeiro, com o Velho sentia-se necessidade de definir as coisas, para que seja cada vez mais dignificado esse importante posto na Festa de S. João.
Para esse fim, a Direcção da Casa do Bugio convidou todos os ex-Velhos que são sócios da Associação, tendo estado presentes doze deles (atendendo a que um se encontrava ausente, compareceram praticamente todos os que podiam participar).
Segundo uma fonte presente na reunião, o clima foi de participação e de espírito construtivo, notando-se a preocupação por prestigiar cada vez mais a festa sobradense.
Do combinado resultou um alargado consenso relativamente aos seguintes pontos:
1. Os candidatos a Velho da Bugiada devem ter pelo menos 40 anos e ser sócios da Casa do Bugio, tendo prioridade quem, além da condição de associado, tiver trabalhado em prol do desenvolvimento das iniciativas da Associação e da própria Festa.

2.Um candidato que já tenha ido uma vez de Velho não pode voltar a ocupar esse posto, devendo, por conseguinte, dar o lugar a quem ainda não foi. Do mesmo modo, quem já foi de Reimoeiro não pode ir de Velho, visto que já chegou ao topo numa das formações.

3. A fim de assegurar a preservação do sentido profundo da tradição da Festa de S. João, os candidatos a Velho deverão ser naturais de Sobrado ou terem feito na freguesia a sua vida desde novos.

4. Será definido um regimento próprio que estabelecerá as voltas das danças dos Bugios, para que não voltem a ocorrer critérios do foro da vontade de cada Velho.

5. Serão também definidas normas acerca da ordem com que os Bugios alinham na sua formação, a fim de evitar as cenas menos próprias que têm ocorrido nos últimos anos, decorrentes de irem Bugios alta madrugada para a porta da residência do Velho.
Outras matérias relacionadas com o bom decurso das danças foram igualmente ventiladas na reunião, podendo vir a ser oportunamente objecto de decisão.
Como é óbvio, estas normas poderão ser aperfeiçoadas em anos próximos, em função da experiência entretanto havida.

quarta-feira, maio 27, 2009

O que são "verdadeiros bugios"







A São colocou aqui em baixo um comentário que acho valer a pena ser 'repescado' para aqui. Referindo-se a uma expressão que já apareceu aqui em comentários várias vezes, diz assim:
"Já agora aproveito para lançar uma questão e, quem sabe encontrar uma definição para o termo tão correntemente usado nesta giria " bugiística".
Algum leitor me consegue definir este termo "Verdadeiros bugios"?
O que são os verdadeiros bugios?"
Quem quer dar uma achega para a resposta?

segunda-feira, maio 04, 2009

Como escolher o Velho da Bugiada?

Nos últimos anos, o processo da escolha do Velho nem sempre tem decorrido da melhor forma.
Como bem sabe quem acompanha de perto esta matéria, tem cabido às Comissões de Festas a escolha do chefe dos Bugios. Mas acontece que tem surgido, por vezes, a dúvida sobre se não se anda ou pode andar a constituir comissões só para escolher o Velho. Em lugar de seguir a tradição de ir nessa função quem mais provas deu ao longo dos anos e mais pode engrandecer a festa, vai A ou B, às tantas porque é amigo dos da Comissão.
Convém ter em conta que, ao levantar aqui este assunto, não se está a fazer um juízo de ninguém nem de nenhuma Comissão em particular, mas a suscitar um problema que foi discutido na última Assembleia Geral da Associação da Casa do Bugio.
Nessa altura, foi manifestada a vontade de encontrar uma forma análoga àquela que os Mourisqueiros já encontraram para a escolha do seu Reimoeiro, e que lhes tem permitido um modo de agir que não tem levantado problemas de maior. A ideia seria, portanto, a de entregar aos próprios Bugios a tarefa de encontrar a melhor solução para a escolha do Velho.
Na sequência do debate havido na Assembleia, foi decidido continuar a reflectir sobre o assunto. Nesse sentido, a Direcção da Casa do Bugio anunciou ser sua intenção convocar, neste próximo Verão, uma reunião de Bugios para analisar a situação e tomar decisões. Porque uma coisa é certa: uma decisão dessas é aos Bugios que compete em primeiro lugar, particularmente àqueles mais experimentados e mais rodados nestas andanças da festa de S. João.
Entretanto, na zona dos comentários, todos podem apresentar as suas sugestões. Não para referir nomes, mas para propor o melhor modo de proceder na escolha, futuramente, do Velho da Bugiada.

segunda-feira, junho 02, 2008

Memórias do tempo de André da Munha (2)

Ainda relacionado com o tempo do Velho da Bugiada que foi André da Munha (anos 50 e 60 do século passado), vale a pena conhecer uma outra história vivida e contada por seu filho Fernando.
Conta este que, ainda criança, vivia com emoção a participação de seu pai como a principal figura da Bugiada. E no dia de S. João lá ia ele para a festa, pela mão da mãe ou de outro familiar.
Acontecia, porém, que, ao ver o seu pai a ser apanhado e levado prisioneiro pelo Reimoeiro, e a despedir-se de pequenos bugios com gestos de desolação, ele próprio começava a chorar com pena por aquilo que via. E regressava da festa triste por não ter visto o pai vitorioso (quando, na realidade, ele até acabava por ser libertado, mas já fora do alcance da vista, em lugar de alguma confusão, a que muitos pais não levavam os mais pequenos).

segunda-feira, maio 19, 2008

"Pareces um Bugio"

Tens fome?
Come um 'home'.

-Tens sede?
Bebe uma parede.

- Tens frio?
Mete o cu no rio
co'a cabeça pró ar
pareces um Bugio!

Dito antigo, escutado em Sobrado

quarta-feira, junho 06, 2007

"Poder ser Bugio dá-me vaidade"

De uma mensagem recebida por este blogue, da autoria de José Carlos Costa:

"Olá a todos os Sobradenses.
Escreve-vos um sobradense com orgulho de o ser, de ter nascido nessa terra, terra de boas gentes.
Agora que vivo longe, mas ao mesmo tempo perto, vivo com mais intensidade a festa que se aproxima "S. João".
Continuar a poder ser Bugio dá-me vaidade e ao mesmo tempo o dever de manter esta tradição.
Quero pedir a todos vós, que intensifiquem a divulgação, para o exterior, da nossa tradição.
Sinto que pode crescer mais e mais o número de visitantes e turistas, á nossa terra.
Despeço-me com um enorme abraço para todos, em especial para um grande AMIGO - Sérgio Nuno Silva".